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Expresso

Narcotráfico na Guiné-Bissau

"Vivo em Rabat como um Presidente da República"

Kumba Ialá visita Portugal no início de 2008. Quer uma agenda recheada de encontros com políticos que o ajudem a voltar ao seu país.

Até no exílio - ou pelo menos na sua saída semiforçada da Guiné desde que Nino Vieira reassumiu os destinos do país, em 2005 - o ex-Presidente Kumba Ialá é um homem desconcertante na argumentação: "Escolhi viver em Marrocos para evitar equívocos de desinformação. Precisava de me retirar do meu país para me recuperar psicologicamente de tudo" (tudo é o golpe de Estado que lhe interrompeu o mandato presidencial, em Setembro de 2003). Só que alguns 'inimigos' de Kumba estranham o facto de ele viver em Marrocos quando se sabe que 30% do tráfico de droga feito em toda a África Ocidental passa pela Guiné-Bissau. Estas insinuações passam ao lado de Kumba, que se limita a afirmar: "A droga ameaça o fim da geração e o fim da humanidade. Se for eleito Presidente combaterei o tráfico. O tráfico de droga é um crime contra a nação".

No princípio de 2008, Kumba vem a Portugal para "fazer contactos com os partidos" e "outras pessoas" ligadas à Guiné. Queixa-se de ter sido deposto porque "um golpe de Estado em democracia é ilegal, qualquer que seja a falha do Presidente da República". O homem que se licenciou em Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa, prossegue no seu discurso de frases curtas, assente em parábolas e metáforas: "Em Rabat vivo exactamente como um Presidente da República. Estou sempre rodeado de segurança real. Os seguranças rodam de 15 em 15 dias. O único que não muda é o coronel responsável pela guarda".

Contra o tribalismo

Quando o Expresso lhe pergunta quem é o dono da casa onde vive em Rabat, limita-se a dizer: "Isso não sei. Trouxeram-me para aqui quando cheguei em Outubro de 2005". E à pergunta sobre o assentimento de Mohammed VI à sua presença em Marrocos, comenta: "O rei é o dono do país". Apesar da boa vida que parece levar naquela cidade, Kumba faz questão de reiterar que os verdadeiros laços de amizade são com Portugal. "Vejo a luta política como um projecto de trabalho. Precisamos (na Guiné) de parceiros económicos internacionais e em primeiro lugar estão os portugueses".

Este apelo à cooperação com um país onde viveu entre 1970 e 1981 é uma aposta no futuro. Afinal, Kumba ainda quer regressar à Guiné e voltar à presidência de um país onde nasceu há 54 anos. "Nunca fui militar nem paramilitar. Nós não pertencemos a uma geração que veio da luta de libertação. Ainda não sei se voltarei a ser candidato presidencial, mas estarei sempre disponível para levar o meu partido à vitória". E apesar de nem sequer saber se quer voltar a candidatar-se, vai ditando as suas teses sobre futuros conceitos de governação: "A nossa geração tem de estar firme e não aceitar as contradições do passado". Se a Guiné ficar presa ao passado compromete-se o desenvolvimento e "o nosso Estado é precário".

Kumba assume-se como membro da etnia balanta, ligado à cultura e aos valores lusófonos: "A minha primeira mulher é portuguesa, da Covilhã. Tenho uma relação familiar com Portugal porque nunca iria abandonar a minha ex-esposa nem o meu filho que agora vivem em Inglaterra". Quem sabe se não é esta relação com a Europa que o faz repetir vezes sem conta: "Vejo a democracia como um espaço de cultura. Nós assumimos a democracia como um atributo e excluímos a violência. Durante a nossa governação não havia tráfico. Como estou longe, não tenho de me pronunciar sobre A ou B, mas os que lá estão deviam fazer alguma coisa para combater isso".

Ciente das particularidades da cultura africana, adianta: "A minha convicção política é democrática. Sou contra o tribalismo e o racismo. Sou pela liberdade das pessoas". Quase cinco anos depois de ter publicado o livro 'Pensamentos Políticos e Filosóficos' - quando ainda era Presidente - Kumba continua igual a si próprio em matéria de aforismos.

16-01-2000 - Kumba Ialá é eleito Presidente

14-09-2003 - Golpe militar; Kumba fica em prisão domiciliária, renuncia ao cargo no dia 17, ficando proibido de ter actividade política durante cinco anos

19-06-2005 - Participa nas presidenciais como candidato do PRS, depois de ser autorizado pelo tribunal