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Expresso

Narcotráfico na Guiné-Bissau

Jornalistas que investiguem narcotráfico são perseguidos

Um relatório dos Repórteres Sem Fronteiras revelou que os poucos jornalistas guineenses que conseguiram investigar os meandros do tráfico de droga no país foram alvo de perseguições. O Governo admite algumas "atitudes isoladas".

Pedro Chaveca

O documento divulgado anteontem (segunda-feira) pela organização não governamental (ONG) Repórteres Sem Fronteiras (RSF) tem um título que deixa pouca margem para dúvidas: "Guiné-Bissau - Cocaína e golpe de Estado, fantasmas de uma nação amordaçada".

Ao longo das 10 páginas a ONG denuncia a cumplicidade de ministros e militares guineenses com narcotraficantes colombianos e lamenta a pouca protecção governamental dada aos profissionais de imprensa, que arriscam a vida ao investigar as ligações de Bissau aos cartéis internacionais do tráfico de droga.

"Os poucos jornalistas guineenses que se aproximaram demasiado dos narcotraficantes e dos seus cúmplices, civis e militares, passaram por grandes dificuldades", refere o relatório onde é dada grande relevância "à implicação de oficiais superiores do exército no tráfico internacional de cocaína".

Para chegar a estas conclusões a RSF contou com o testemunho de vários jornalistas guineenses, um deles, Allen Yéro Emballo, correspondente da agência noticiosa AFP e da Radio France Internacional, foi obrigado a exilar-se em França, depois de ter sido perseguido e ameaçado.

Outro dos casos mais paradigmáticos desta perseguição sem quartel, foi o do jornalista e correspondente da agência Reuters, Albert Dabo, acusado de "difamação", "violação de segredos de Estado" e "abuso de liberdade de imprensa", depois de ter servido de intérprete aos jornalistas estrangeiros que se deslocaram ao país no Verão passado, um "dos mais tensos para os jornalistas do país", segundo a ONG.

O paraíso do narcotraficante

A situação é de tal forma sufocante que o representante da Interpol no país reconhece sem rodeios que a nível individual "certos altos responsáveis guineenses fazem negócios com os narcotraficantes".

É unicamente desta cumplicidade entre governantes e cartéis que, segundo os RSF, os narcotraficantes continuam a dispor de um armazém e de um centro de distribuição na Guiné-Bissau, fazendo do país um paraíso do narcotráfico e uma verdadeira placa giratória do comércio internacional de estupefacientes, na sua maioria cocaína vinda da América do Sul em direcção à Europa.

Com as sucessivas tentativas, algumas delas bem sucedidas, para silenciar a comunicação social, os RSF apelaram à união dos jornalistas guineenses e ao contributo da imprensa internacional para que se continue a interessar pela "situação perigosa da Guiné-Bissau e a crescente influência do narcotráfico na vida do país". Segundo a ONG só assim se poderá cortar os tentáculos do polvo que está a sufocar a Guiné-Bissau.

"A liberdade de imprensa é total"

Do lado do Governo o secretário Estado da Comunicação Social da Guiné-Bissau, João de Barros preferiu salienta que na Guiné-Bissau "a liberdade de imprensa é total e no país não há nenhuma atitude oficial, tanto do governo como do Presidente da República para restringir a liberdade dos jornalistas".

Contudo, já admitiu que alguns jornalistas foram "chamados ou intimidados" por responsáveis governamentais, das Forças Armadas ou dos serviços secretos.

Segundo João de Barros são "atitudes isoladas e condenáveis" da parte de pessoas que se aproveitam dos seus cargos para intimidar os profissionais da comunicação, mas que se enquadram nos perigos inerentes ao ofício de jornalista, "que aparecem quando ocorrem denúncias de situações ilícitas".

O político deixou ainda uma sugestão: "Para quem se sentir ofendido há mecanismos próprios, num Estado de Direito, para reclamar a reposição da verdade. Mas não há nenhuma atitude aberta do governo em restringir a actividade dos jornalistas", sublinhou.