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Expresso

Narcotráfico na Guiné-Bissau

Americanos e franceses investigam tráfico na Guiné

Interpol e FBI colaboram na investigação de mais um carregamento proveniente da Venezuela. Tudo indica que há militares envolvidos.

Fernando Jorge Pereira, correspondente em Bissau

Uma equipa da Interpol francesa e angolana e das americanas FBI e DEA está - desde terça-feira - a apoiar a Polícia Judiciária guineense na busca de uma quantidade de droga ainda por avaliar, desembarcada na semana passada no aeroporto de Bissau por um avião bimotor proveniente da Venezuela.



O aparelho em questão sofreu uma avaria e uma segunda aeronave venezuelana veio para efectuar a reparação. Os pilotos, bem como um venezuelano residente no país, foram detidos pela PJ local, Estes teriam declarado que a carga, supostamente medicamentos, fora entregue a um grupo de militares.



Contudo, as autoridades policiais dispõem da informação de que se tratou de mais uma operação de tráfico de droga. Além dos três venezuelanos, dois responsáveis da torre de controlo do aeroporto estão detidos há uma semana - e pelo menos dois elementos da Força Aérea guineense, entre os quais um oficial superior, deviam ser ouvidos pela Judiciária.



Há rumores de que o vice-chefe de Estado-Maior da Força Aérea, coronel Papa Câmara, foi notificado para interrogatório.



Reagindo à detenção dos dois controladores aéreos, um funcionário do aeroporto comentou que a polícia "anda a brincar com a gente. Eles sabem quem ficou com a droga".



São escassas as declarações oficiais sobre o assunto. Está-se perante uma operação de grande envergadura, como atesta o rápido envolvimento de polícias estrangeiros. Os assessores policiais e militares das Nações Unidas na Guiné-Bissau também estão a apoiar as investigações.



Uma fonte policial revelou ao Expresso que a PJ tem a situação sob controlo. "A droga não saiu de Bissau", garantiu a fonte, adiantando que a Judiciária está carente de homens e equipamentos e impedida de actuar contra os narcotraficantes, porque a "droga está sob a vigilância de homens armados". Suspeita-se que os tais "homens armados" sejam militares. Daí o apelo à ajuda da Interpol e, sobretudo, aos americanos do FBI e da DEA, a polícia antidroga.



Se for provada a cumplicidade militar, não se exclui a hipótese de serem lançados mandados de captura internacional, para evitar um confronto directo entre a polícia guineense e os militares, capaz de desestabilizar o país.



Este caso dos dois aviões venezuelanos deu-se cerca de duas semanas depois da PJ ter dado conta do desembarque de droga por uma embarcação no litoral da região ocidental de Biombo, muito próxima da capital. Praticamente na mesma altura, a polícia da Serra-Leoa deteve no aeroporto um avião que veio da Venezuela com mais de 600 kg de cocaína. As detenções que se seguiram levaram à captura de duas dezenas de cidadãos de várias nacionalidades, entre as quais um guineense. A polícia guineense indicou que cerca de mil guineenses estão na Venezuela, uma boa parte deles com ligações ao narcotráfico.



Na terça-feira, o chefe do escritório de Dacar da Agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) na África Ocidental e Central, o italiano Antonio Mazzitelli, disse à rádio pública francesa RFI que a Guiné-Bissau é "a principal porta de entrada" de cocaína na África Ocidental. Mazzitelli precisou que, há quatro ou cinco anos, a África Ocidental vem sendo utilizada pelos narcotraficantes latino-americanos como local de "armazenamento e venda de droga".



Explicou que o produto vem de barco, disfarçado em contentores, em grande quantidade, e por vezes também é transportado em aviões privados, em remessas de 700 kg a 2 toneladas. Os estupefacientes são depois encaminhados para a região sahelo-magrebina, antes de chegarem, de carro, ao destino final, a Europa mediterrânica.