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Expresso

Corrida à liderança social-democrata

Um problema para Cavaco

Se Manuela Ferreira Leite for eleita, isso pode significar uma alteração do paradigma nas relações entre Belém e São Bento.

A candidatura de Manuela Ferreira Leite à liderança do PSD não é, certamente, uma boa notícia para José Sócrates. Ao decidir avançar na sequência da "crise aberta no partido", se ganhar as directas, forçará, seguramente, uma alteração no paradigma das relações entre o Presidente da República e o primeiro-ministro.

Uma vez eleita, a Cavaco Silva não restará outra alternativa que não seja moderar o entusiasmo com a governação "socrática", para não amesquinhar a amiga Ferreira Leite. Manuela faz parte do círculo íntimo de Cavaco. Chegada à liderança do PSD terá de ter margem para fazer oposição, coisa que os anteriores líderes tiveram pouco, muito por culpa da acção do Presidente.

Assim, Cavaco Silva tem de passar a ser mais exigente com a maioria socialista e aceitar correr o risco de, à semelhança de Mário Soares, ser apelidado de "força de bloqueio" acomodando a sua área política. Sob pena de inibir Ferreira Leite que, desde sempre, de cada vez que abre a boca é ouvida como a mensageira do cavaquismo.

Outra das conclusões a tirar desta candidatura é que, ao contrário do que se poderia supor, os barões do PSD não querem acabar por agora com os líderes de transição. O objectivo das chamadas "elites bem pensantes" do universo laranja parece ser, antes de mais, perder as legislativas de 2009, mas com honra e com glória retirando a maioria absoluta a José Sócrates.

Manuela Ferreira Leite não é a 'santa da ladeira', capaz de fazer o milagre da salvação da pátria social-democrata. Não. Ferreira Leite não é isso. Mas a ex-ministra das Finanças é, nas actuais circunstâncias, a única personalidade capaz de devolver credibilidade e estabilidade ao PSD.

Por outro lado, e com todo o respeito pela dra. Manuela Ferreira Leite, a idade é um posto mas também é um facto. Apresentar-se como candidata à liderança de um partido de poder aos 68 anos não é, certamente, o projecto de vida ideal para uma avó babada como Ferreira Leite. E, certamente, revela que, mesmo na eventualidade de derrotar Sócrates em 2009, a ex-ministra não terá um projecto para duas legislaturas, uma vez que em 2013, terá 73 anos.

Por isso, o mais tardar daqui a dois anos, o PSD estará a eleger um novo líder.

Nuno Saraiva, editor de Política