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A revolta dos monges

Internet cortada na Birmânia

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Manifestação pacífica de imigrantes birmaneses frente à Embaixada da Rússia em Kuala Lumpur, Malásia, esta sexta-feira

Lai Seng Sin/AP

Os protestantes continuam a perder terreno numa luta que há muito se tornou desigual.

Pedro Chaveca

Ao décimo primeiro dia de manifestações a junta militar continua a tentar enfraquecer os protestos de todas as maneiras.

Depois de ter conseguido afastar os monges, seguiu-se o corte da Internet, o que comprometeu o envio de centenas de imagens, uma das poucas armas que os birmaneses dispunham para dar a conhecer o que se está a passar no país.

Ko-Hitke é um bloguer birmanês a viver exilado em Londres desde os sete anos e uma das poucas pessoas que está a fornecer informações actualizadas vindas do país do sudoeste asiático.

O jovem de 28 anos tem recebido dezenas de fotografias dos protestos e das cargas policiais e o blogue está constantemente a ser actualizado com informações vindas directamente por quem está no "olho do furacão".

Hitke nunca identifica quem lhe fornece as informações nem os autores das fotografias, que muitas vezes são tiradas por simples telemóveis. O blogger sabe que está muito em risco. "Se forem apanhados o seu futuro é incerto. Podem apenas desaparecer, serem presos, ou mesmo mortos".

"É como uma missão"

Contudo um preço baixo a pagar pela liberdade duma nação: "Eles sentem que estão a servir o país. É como uma missão", referiu Hitke. Agora com o corte total da Internet em Rangum e uma suspensão parcial nas outras cidades a missão de Ko-Hitke e dos seus compatriotas levou um duro golpe.

Em Rangum os confrontos continuam a varrer as ruas da cidade, com as tropas anti-motim a disparar balas reais contra mais de 10 mil protestantes.

Com os dois principais pagodes e mosteiros de Rangum cercados por um forte contingente militar e depois de centenas de monges terem sido detidos, os protestos começam a ser liderados apenas por civis, o que está a dar mais campo de manobra aos militares para usar a violência.

Nos últimos dias houve pelo menos um pelotão que se recusou atacar os monges. Num país onde 85 por cento da população é budista não é visto com bons olhos agredir homens que para muitos são quase santos.

Enviado da ONU chega amanhã

As manifestações de apoio ao povo birmanês já chegaram a muitos dos países vizinhos, mas não só. Tóquio, Seul, Sidney e Banguecoque foram algumas das cidades onde centenas de pessoas se juntaram para mostrar que embora longe estão a apoiar a luta pela liberdade na Birmânia.

Os países da ASEN (Associação de Nações do Sudoeste Asiático) num acto conjunto e raro afirmaram estar "chocados" com a utilização de armas automáticas e "exigiram que o governo birmanês cesse imediatamente de utilizar a violência contra os manifestantes".

Uma atitude simpática mas que não chega. Segundo Benita Ferrero-Waldner, comissária europeia para as Relações Externas "o que é necessário são os contactos com o governo. São principalmente os países vizinhos, sobretudo a China, a Índia e os países da ASEAN, que devem verdadeiramente demonstrar o seu sentido de responsabilidade", apelou a austríaca em declarações a uma rádio alemã.

Amanhã deverá chegar ao país o enviado especial da ONU à Birmânia, Ibrahim Gambari.