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Mês do ambiente do Expresso 2013

Seguradoras vigiam risco de cheias

Inundações. Cinco localidades do país são objeto das primeiras cartas de risco de inundações em cenário de alterações climáticas.

Carla Tomás (texto) e Tiago Miranda (foto)

Chuva intensa conjugada com a maré alta no Tejo transformou, em 2010, o Rossio, o Terreiro do Paço, a Praça do Município e Alcântara em rios e lagos lamacentos

Chuva intensa conjugada com a maré alta no Tejo transformou, em 2010, o Rossio, o Terreiro do Paço, a Praça do Município e Alcântara em rios e lagos lamacentos

Toda a gente sabe que quando chove mais violentamente num curto espaço de tempo o risco de as ruas se transformarem em rios de lama aumenta em várias localidades do país, sobretudo em zonas onde se construiu em leito de cheia. O que nem todos sabem é quantas pessoas, edifícios e atividades podem ser afetados por eventos extremos que provocam inundações e que tendem a agudizá-las no futuro, tendo em conta as alterações climáticas.

"Só em Lisboa e em Algés existem 880 edifícios em zona de risco de cheia, 661 no eixo entre o Marquês de Pombal e a Baixa e entre a Penha de França e a Baixa, e 219 na baixa de Algés", indica Pedro Garrett, um dos investigadores do Centro de Pesquisa para a Adaptação e Mitigação das Alterações Climáticas (CCIAM) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que está a desenvolver o projeto Cartas de Inundação e de Risco em Cenários de Alterações Climáticas (CIRAC).

Este estudo, encomendado pela Associação Portuguesa de Seguros (APS), estende-se a todo o continente, com particular zoom às baixas de Lisboa, Algés, Coimbra, Porto e Gaia e é o primeiro em Portugal a cruzar a problemática das alterações climáticas para as próximas décadas com o cálculo dos danos de inundações. "Há uma tendência para que os extremos de precipitação se tornem mais frequentes e é preciso saber o grau de escoamento das zonas urbanas e que tipo de edifícios existe nas zonas de risco", explica Filipe Duarte Santos. O coordenador do CIRAC lembra que se assiste a uma subida do nível do mar, a nível global, que se reflete na costa portuguesa, com zonas urbanas cada vez mais impermeabilizadas: "Entre 1900 e 2000 o nível médio do mar subiu 15 centímetros (1,5 milímetros por ano). Mas atualmente está a mais do dobro (3,3 milímetros/ano) e vai acelerar ainda mais, podendo chegar a entre 60 centímetros e 1 metro até ao final do século."

Este cenário, "conjugado com uma sobre-elevação de temporal (depressão atmosférica) e uma maré alta, pode trazer impactos gravosos para as populações e as economias". Como tal, acrescenta Filipe Duarte Santos, "é essencial adquirir mais conhecimento para se poderem escolher as medidas de adaptação" e partilhar a informação com outras entidades e a sociedade civil.

A avaliação rigorosa do risco de cheias passou a ser um imperativo para a APS, alarmada com os prejuízos resultantes das enxurradas na Madeira, em 2010, que se estimaram em €140 milhões (fora as infraestruturas e bens não segurados).

 

"Saber mais para gerir o risco"

 

"O risco de inundação é grave e é nossa preocupação avaliá-lo e cartografá-lo por freguesia", sublinha o presidente da APS, Pedro Seixas do Vale. "Estão a dar-se fenómenos mais intensos do que no passado, e sem este estudo não tínhamos informação suficiente num cenário de alterações climáticas. É necessário saber mais para melhor gerir o risco", sublinha. Seixas do Vale lamenta igualmente a "inexistência de um princípio securitário das pessoas e entidades, já que muito pouco do que se perde nestes eventos naturais está coberto por seguros".

Quando tiverem todos os dados na mão (o que deverá acontecer em 2013), poderão então analisar as medidas a tomar. E estas podem passar por reavaliar os valores das apólices de seguro, de acordo com a localização ou não em zonas de maior risco, ou por "agir junto do legislador". Sem decisões concretas para já, Seixas do Vale lembra que, no passado, os dados relativos à sinistralidade automóvel levaram, por exemplo, à obrigatoriedade de os carros terem airbags, que resultaram da investigação financiada pelas seguradoras. E recorda também que, segundo investigação compilada pela Munich Re (uma das maiores resseguradoras mundiais), nos últimos dez anos bateram-se recordes de apólices de seguros a nível global devido a eventos climáticos extremos (ver caixa).

Os riscos associados a estes fenómenos têm ganho uma importância crescente. A União Europeia aprovou uma diretiva em 2007, só transposta para a legislação portuguesa em 2010, que impõe a elaboração de cartas de risco de zonas inundáveis. Estas surgem, com um campo de visão a médio e longo prazo, pela mão de uma entidade privada em parceria com uma universidade, que conta com a colaboração da proteção civil, de algumas autarquias e da Agência Portuguesa do Ambiente, a quem disponibilizarão toda a informação e as respetivas cartas de risco.

O vereador da proteção civil da Câmara de Lisboa diz que a autarquia "já produziu 40 cartas para diferentes zonas e tipologias de risco". Manuel de Brito garante que esta informação está já vertida no Plano Diretor Municipal, recentemente aprovado, e no Plano de Emergência Municipal de nova geração que será votado, na Assembleia Municipal, na próxima quarta-feira. E sublinha que existe uma "estreita articulação e troca de informação entre os departamentos de urbanismo, proteção civil e espaço público para agir na aprovação de empreendimentos ou sempre que há um alerta meteorológico".

Esta semana, foi entretanto anunciado um protocolo entre as Secretarias de Estado do Ambiente e da Administração Interna para a elaboração de um Plano Setorial de Prevenção e Redução de Riscos, que "incluirá a melhor cartografia produzida a nível nacional" e estará pronto daqui a cinco meses.

  • Entre 1980 e 2011 registaram-se 20.200 catástrofes naturais no mundo (107 em Portugal) - entre inundações, tsunamis, terramotos, tempestades, ondas de calor, secas e incêndios - que provocaram mais de 2 milhões de mortos (3 mil cá, sobretudo devido a vagas de calor) e prejuízos acima dos €282 mil milhões; só um quarto estava coberto por seguros, segundo dados da Munich Re.
  • Em século e meio (1864 -2010) foram relatados pelos jornais portugueses 1622 cheias e 281 deslizamentos de terra em solo luso, que tiraram a vida a 1310 pessoas e desalojaram 41.844. A informação foi compilada pelo projeto Disaster, coordenado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, da Universidade de Lisboa, que será apresentado na segunda-feira, na Fundação Paula Rego (Cascais)
  • Hoje, há sete vezes mais alojamentos nas freguesias costeiras do continente do que em 1940. De então até 2011, a população mais do que duplicou (de 500 mil para 1,2 milhões) nestas freguesias, segundo dados do projeto Change, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que será apresentado na conferência "Portugal em Mudança - diversidades, assimetrias e contrastes", na Fundação Gulbenkian, nos dias 26 e 27

2,3%

é a percentagem dos danos totais cobertos por apólices de seguro referentes a cobertura de catástrofes naturais em Portugal, entre 1980 e 2011. Os danos causados por 107 eventos climáticos, geofísicos, hidrológicos e meteorológicos) neste período provocaram perdas no valor de €5,3 mil milhões, mas apenas €123 milhões estavam cobertos e só por causas meteorológicas e hidrológicas