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Toda a história de um Prémio com 28 edições

A lista dos vencedores do Prémio Pessoa já vai longa. Tem 30 nomes, entre artistas e músicos, escritores ou historiadores. Arquitetos ou um bispo. Filósofos ou cientistas. A variedade é grande, mas as estatísticas mostram que são os homens, das Letras e com 58 anos que representam a maioria dos laureados. É esta a média aritmética das personalidades, até agora, distinguidas pelo júri. É este o perfil do premiado. 

Desde 1987 que é assim. O segredo sobre quem é o vencedor  só é desvendado, pontualmente, ao meio dia de uma sexta-feira. No Palácio de Seteais, como sempre, pela voz de Francisco Pinto Balsemão, mentor do Prémio e seu presidente inamovível. É o final de três dias de reunião, que começam sempre com um jantar alargado na quarta-feira à noite, em que participam diversos convidados e toda a direção do Expresso

No dia seguinte, o júri reúne para apreciar as candidaturas que chegaram ao Expresso. Todos os anos há dezenas de propostas, individuais ou coletivas. Apresentam-se dossiês, livros, vídeos ou gravações áudio, para sustentar a defesa de um nome. As propostas são todas apreciadas, mas entre as prerrogativas dos jurados está a possibilidade de avançar com nomes, propor a figura a distinguir e, claro, defendê-la. 

É no debate e na capacidade de convencer os outros jurados que está a chave da escolha dos premiados. E quando se reúnem personalidades como Mário Soares e Clara Ferreira Alves, o advogado Miguel Veiga e o sociólogo António Barreto,  é ponto assente que os argumentos são veementes e a defesa do candidato uma matéria levada muito a sério. Pinto Balsemão é o moderador. Maria de Sousa a cientista que, muitas vezes, trouxe para cima da mesa os nomes de grande parte dos vencedores. José Luís Porfírio é um dos jurados que 'resiste' desde a primeira hora. Viriato Soromenho Marques entrou no ano passado. Pedro Norton de Matos estreia-se este ano.

O debate é, por vezes, aceso e longo. Entre a discussão, a lista de candidatos vai sendo esgrimida e reduzida a uma shortlist até à votação final, onde se decide o vencedor. Ponto de honra do Prémio Pessoa é o sigilo. Ninguém pode revelar, antes da hora, o nome do vencedor. Ninguém pode falar nos candidatos vencidos ou nos que ficaram pelo caminho. Nem que seja há muitos anos passados... O segredo, aqui, mantém-se a alma do negócio. 

Mulheres minoritárias

Ao longo dos seus 27 anos de vida, o Prémio Pessoa distinguiu já 29 personalidades da vida artística, cultural e científica, cuja obra tenha alcançado particular relevância naquele ano específico. Como o júri sempre sublinhou, este não é nem um prémio de carreira nem de revelação, razão pela qual a grande maioria dos distinguidos pertence à fasquia dos 50 anos. A mais jovem premiada foi Maria Mota, a cientista que recebeu o Prémio Pessoa em 2013. O mais idoso foi Eduardo Lourenço, o ensaísta que entrou como jurado no Prémio Pessoa e acabou distinguido, aos 88 anos, em 2011.

Em média, os homens premiados têm 58 anos. Uns anos acima das mulheres vencedoras, cuja média de idades é de 51,5 anos. As mulheres estão em desvantagem na história do Prémio Pessoa. E a prova é que, até agora, há apenas seis mulheres premiadas, o equivalente a apenas 17% dos vencedores. Por coincidência, ou não, das seis distinguidas, quatro estão na carreira académica e na investigação - a maioria nas áreas científicas, como Hanna Damásio, Maria do Carmo Fonseca e Maria Mota. Mas a historiadora Irene Flunser Pimentel, vencedora em 2007, alargou às Ciências Humanas o palmarés dos prémios académicos. A pianista Maria João Pires e a pintora Menez foram as outras duas mulheres com direito a prémio. Curiosamente, ambas nos primeiros anos de vida do Pessoa, respetivamente no 3º e no 4º anos em que o prémio foi atribuído.

Ao longo de quase três décadas, é nas Letras que o júri do Prémio Pessoa encontrou mais motivos para distinção. Escritores, poetas, tradutores ou filósofos arrecadaram quase 38% dos galardões atribuídos. E autores tão diferentes como os poetas Ramos Rosa e Manuel Alegre, ou livros tão distintos como os ensaios de Eduardo Lourenço ou a obra de D. Manuel Clemente mereceram a mesma distinção nacional. A lista dos homens de letras destacados pelo júri do Prémio Pessoa teve ainda espaço para albergar os trabalhos de tradução de Vasco Graça Moura (com a obra de Dante traduzida em português) e de Richard Zimler e os 'seus' Fernando Pessoa e Camões em versão inglesa.

A segunda grande área em realce pelo júri do Prémio Pessoa é a ciência, que já teve direito a seis premiados, ou seja, a 21% do total distinções atribuídas. Seguem-se em ex-áqueo as Ciências Sociais e Humanas e as Artes, cada uma com quatro premiados, e 13,7% dos galardões concedido. Estão nestas categorias historiadores ou antropólogos, como José Mattoso e Cláudio Torres. Ou o professor de Direito e Constitucionalista Gomes Canotilho. Nas artes, o cinéfilo João Bernard da Costa e fotógrafo José Manuel Rodrigues juntam-se ao ator Luís Miguel Cintra e à pintora Menez para representar o espírito de criação artístico português.

Menos forte foi, até agora, a atenção dada à Música, com apenas 'direito' a duas distinções: a pianista Maria João Pires e o compositor Emmanuel Nunes. O mesmo número de prémios atribuídos a arquitetos portugueses, com Souto Moura, primeiro e, dez anos depois, a Carrilho da Graça. 

 

[artigo publicado originalmente na edição de 11/12/2014 do Expresso Diário, antes do anúncio do vencedor deste ano, Henrique Leitão]