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Generais angolanos pressionam Sobrinho a contar para onde foi o dinheiro no BESA

Acionistas angolanos do BES Angola dizem ao Expresso que querem que Álvaro Sobrinho revele para onde foram os créditos "desaparecidos" de 5,7 mil milhões de dólares. Ex-presidente do banco fala esta quinta-feira no Parlamento.

João Vieira Pereira, Pedro Lima, Pedro Santos Guerreiro, Anabela Campos e Filipe Santos Costa

Os acionistas angolanos do BES Angola (BESA) esperam que o ex-presidente do banco, Álvaro Sobrinho, esclareça esta quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito, o que afinal se passou no banco.  

Fonte oficial da Portmill e da Geni, empresas que participam no capital do banco angolano do antigo BES, refere ao Expresso que "os acionistas do BESA estão a tentar perceber o que se passou no banco e estão na expectativa de que esta quinta-feira, na comissão parlamentar de inquérito, Álvaro Sobrinho, explique ou esclareça finalmente para onde foi o dinheiro."   

A Portmill e a Geni reúnem investidores angolanos, entre os quais os generais Helder Vieira Dias (conhecido como Kopelipa) e Leopoldino Nascimento, que pertencem à elite do regime angolano. A afirmação da fonte oficial pode ser entendida como uma forma de pressão sobre Sobrinho, que liderou o BESA no período durante o qual o banco acumulou créditos concedidos sem garantias e nem sequer identificação dos clientes. No total, o BESA teve em balanço 5,7 mil milhões de dólares de financiamentos nestas condições.  

E o dinheiro?

A audição de Álvaro Sobrinho tem lugar esta quinta-feira no Parlamento, depois de terem sido ouvidos os chefes dos cinco ramos da família Espírito Santo. Álvaro Sobrinho, o angolano que Ricardo Salgado escolheu, em 2001, para liderar o banco em Luanda, foi um dos nomes mais falados, quer por Ricardo Salgado, quer por José Maria Ricciardi. Já José Manuel Espírito Santo disse que Salgado lhe dissera no passado "Álvaro Sobrinho é gente do melhor".

Angola foi central na derrocada do BES e Sobrinho é um dos grandes protagonistas da história. No olho do furacão estão créditos no valor de 5,7 mil milhões de dólares concedidos na sua gestão, alguns sem garantia nem identificação do destinatário, outros a que se perdeu o rasto. Mas não só, em causa está também a garantia de cinco mil milhões de dólares que o Banco Nacional de Angola concedeu, no final de 2013, para proteger o risco de incumprimento destes créditos. Um aval estatal que foi retirado quando, na sequência da intervenção no BES em agosto, a posição acionista no BESA foi para o banco 'mau'. Salgado admitiu que a retirada da garantia foi fatal, e terá decorrido da resolução.

Apesar de evitar falar do BESA, escudando-se atrás do rigoroso sigilo bancário angolano, Salgado acabou por atirar pedras à gestão de Sobrinho, dizendo que foi um erro escolhê-lo. "Tenho a convicção de que nenhum dos recursos do BESA foi para membros dos Governo de Angola. Os generais Leopoldino Nascimento e Hélder Vieira Dias ficaram muitíssimos indispostos em relação a Álvaro Sobrinho na assembleia geral de outubro de 2013 do BESA, obrigando a um adiamento da mesma". A substituição de Sobrinho por Rui Guerra, no final de 2012, foi difícil: "Rui Guerra foi ameaçado fisicamente", contou.

Ricciardi apontou baterias a Sobrinho e a Salgado, dizendo que o BESA estava "em roda livre" e que não havia mecanismos de controlo de risco. "Até final de 2012, Sobrinho não falava com absolutamente ninguém a não ser com Ricardo Salgado".

São muitas as perguntas que os deputados têm para o banqueiro, a começar pelos milhões desaparecidos: como foram emprestados?, a quem?, para quê?, o que lhes aconteceu? porque não há rasto do dinheiro? Perguntas que animaram a assembleia geral de 2013, como o Expresso já noticiou.

Mais: "Como foi possível o BES emprestar 3,3 mil milhões ao BESA sem garantias, sem contratos, sem nada?", questionou o socialista Pedro Nuno Santos. Mas também há muitas dúvidas sobre a Akoya, entidade gestora de fortunas, com sede na Suíça, de que Sobrinho é sócio e Salgado era cliente. A sociedade estava no centro das suspeitas de branqueamento de capitais no caso Monte Branco.