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Como nunca perder eleições

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Muitos autocratas compreendem as vantagens de se submeterem ao voto popular, desde que o possam fazer com todas as garantias

Luís M. Faria

Jornalista

Vladimir Putin repetiu a proeza. Na quarta vez que se apresentou a votos (ou a quinta, se contarmos a sua candidatura por interposta pessoa - Dmitry Medvedev, o então primeiro ministro - em 2008), teve aquilo que vários comentadores, mesmo no Ocidente, descreveram como uma vitória bastante expressiva. Mais de 76 por cento dos votos, numas eleições onde a afluência foi relativamente elevada. Com um novo mandato de seis anos no bolso, não parece haver dúvidas de que os russos gostam dele.

Ou há? Se se julgar apenas pela percentagem de votos, quanto mais feroz a ditadura mais votos recebem os ditadores. Em vários países da Ásia central que em tempos fizeram parte da URSS, percentagens superiores a 90 por cento não são invulgares. Na Coreia do Norte, chegam aos cem por cento. Claro que ninguém leva muito a sério esses números, pois trata-se de eleições completamente controladas, onde não existe oposição nem quaisquer garantias de que os votos foram bem contados, ou sequer contados. Aí as eleições são um mecanismo meramente formal, um mero ritual que os governantes levam a cabo para criar uma falsa ilusão de popularidade.

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  • A evocação melancólica está a resultar

    Há coisas que normalmente acontecem antes, durante e nos breves momentos após umas eleições mas que não aconteceram na Rússia nas semanas que antecederam as presidenciais deste domingo, nem tão-pouco nas horas a seguir. Não houve grande campanha, não houve um debate inclusivo e abrangente e também não houve dúvidas em nenhum dos momentos sobre qual o nome que sairia vencedor do escrutínio, Vladimir Putin. Mas há sempre histórias por contar, mesmo em eleições sem história: na embaixada de Kremlin em Lisboa, onde apareceram cerca de 900 eleitores, encontrámos russos que anseiam pela mudança mas também fervorosos amantes do “macho alfa”

  • Garry Kasparov ao Expresso: “Putin promoveu a participação eleitoral como um produtor da Broadway promove o seu espetáculo”

    Lenda do xadrez transformada em ativista político, Garry Kasparov faz para o Expresso a análise da vitória de Vladimir Putin para um quarto mandato como presidente da Rússia. Fala em vitória e não em eleição, porque o que se passou “foi um espetáculo, um teatro a fingir que há democracia”. Explica porque é que o momento global e a era Trump tiveram influência no resultado. E denuncia as fraudes que terão levado a uma alta taxa de participação e votação: “Após 18 anos de poder absoluto, Putin tem de ser venerado, num culto de personalidade, ou as pessoas começarão a questionar o porquê de o país estar naquele estado”