Siga-nos

Perfil

Expresso

Diário

Já não é cedo para falarmos a sério sobre isto

As estatísticas dizem-nos que a cada minuto que passa morrem cerca de 100 pessoas na Terra, perto de duas por segundo, e é muito provável que pelo menos uma delas morra por esta altura na Síria. E é por isso que a edição desta quinta-feira do Expresso Diário é todo sobre a Síria e é uma edição gratuita. O leitor pode fugir e ignorar ou pode ficar e ler. Faça o que quiser com o seu tempo. Mas já não é cedo para falarmos a sério sobre a Síria. Com textos de Bruno Vieira Amaral, Daniel Oliveira, Henrique Monteiro, Henrique Raposo, Ricardo Costa, Ana França, Joana Beleza, Joana Azevedo Viana, Helena Bento, Marta Gonçalves e Soraia Pires. Ilustrações de Dima Nachawi

Ilustração Dima Nachawi

PARA LER A EDIÇÃO ESPECIAL E GRATUITA DO EXPRESSO DIÁRIO, CLIQUE AQUI

  • A guerra tem de ser denunciada

    Antes de começar a ler, olhe à volta, procure um relógio e veja as horas. O Expresso Diário pode esperar uns segundos, um minuto, o tempo que for preciso. Já viu as horas? Pois fica a saber que morreu alguém. Agora uma pausa. Morreu mais alguém

  • 30 minutos de luz e o resto de escuridão

    A distância que separa a região de Ghouta Oriental de Damasco, capital da Síria, é quase a mesma que separa o Cais do Sodré do Parque das Nações, em Lisboa. Na capital, a vida segue a normalidade possível mas ali a vida passou para debaixo do solo. Em caves húmidas, escuras e poeirentas vivem às vezes mais de 20 famílias que nas poucas horas em que as bombas e os tiros cessam tentam encontrar combustível, comida e agasalho nos escombros das casas dos vizinhos, irreconhecíveis após quatro anos de cerco. O regime de Bashar al-Assad, com a ajuda da Rússia e do Irão, está a repetir em Ghouta Oriental o que já tinha feito em Alepo e se a História nos ensina alguma coisa é que não há idealismo que resista à imagem de vermos os nossos a passar fome

  • “Se ela chegar tarde, espera por ela. Se ela chegar cedo, espera por ela”

    Um grupo de amigos reunidos num abrigo à volta de uma árvore de Natal com luzinhas feitas à mão e a piscar ligadas a um gerador, um casal que só teve tempo para se abraçar e proteger-se antes de a bomba cair e outro casal que teve tempo para mais, para fugir eventualmente, mas para onde? Ficaram, também se abraçaram, mas isso acabaria por não ser suficiente. Dima Nachawi ilustrou quatro histórias de amor de pessoas de Ghouta Oriental e uma de Alepo, ambas cidades sírias mutiladas por uma guerra selvagem. Dima e outra ativista síria contaram-nos o que sabiam sobre cada uma destas histórias e nós tentamos descobrir o resto

  • Na minha Síria não há ruínas. Por Daniel Oliveira

    Poderia dizer que a memória que tenho da paz naqueles lugares torna a guerra mais palpável para mim porque dá rosto às suas vítimas. Mas é mentira. Nada liga o que está na minha memória da Síria àqueles escombros. Nada nos prepara para perceber a guerra se nunca a vivemos

  • Como descreverias a tua experiência de ser mãe quando o teu filho te pergunta todos os dias se vamos morrer hoje?

    “Tenho frio, tenho frio”, dizia-lhe o filho e Bereen Hassoun sentia o coração gelar-lhe. Não tinha como aquecê-lo nem como alimentá-lo nesse abrigo em Ghouta Oriental, onde as mães lavavam as fraldas de pano no mesmo sítio onde lavavam os pratos sujos e as mãos e de onde bebiam água. Este foi um testemunho publicado originalmente no site “Global Voices” e que traduzimos porque há palavras que todos devemos ler

  • Síria, a vergonha do mundo. Por Henrique Monteiro

    Há uma guerra na Síria por entrepostos países; uma guerra bárbara, desumana que não poupa civis, que não poupa crianças; que nos interpela a todos nós. Que podemos fazer? Que devemos fazer, sabendo que, como diz no Talmude, quem salva uma vida salva o mundo inteiro? É isso, não conseguimos salvar sequer uma vida. Nem cada um de nós, nem os nossos países confortavelmente entretidos, nem o Papa, nem a ONU.

  • “Só queremos que o rio de sangue à nossa frente pare de correr”

    Um bebé com fome, os pais destroçados, a destruição, a morte. Hamza Al-Ajweh tem 23 anos e é fotógrafo. Nasceu em Douma, na região de Ghouta Oriental. Como tantos outros, vive num abrigo subterrâneo. Quando é seguro – se é que alguma há segurança - vai fotografar, para depois vender e poder comprar comida. Escolhemos cinco fotos de Hamza e ele contou-nos um pouco da história de cada uma delas, do pouco que se lembra. A conversa foi várias vezes interrompida: “as coisas estão a ficar cada vez mais difíceis, os bombardeamentos não páram”

  • Quando se percebe o que se perdeu

    Bruno impressionou-se com a riqueza cultural de Alepo. Miguel adorou a ponte metálica de Deir ez-Zor. Cristina atravessou no centro da Síria um campo de oliveiras e não se esqueceu daquela paisagem bucólica. Rui viveu em Damasco e guardou na memória a vida daquelas ruas. Estes quatro portugueses visitaram a Síria antes de o conflito começar, em 2011, e descrevem um país que já não existe. Estas são as memórias da cor que a Síria perdeu

  • “Ela morreu, sabes?”: as marcas que a guerra deixou e que deixará

    Maya ainda tem medo quando está deitada e ouve um barulho mais alto. O irmão, Abd, também. Têm 9 e 10 anos e fugiram da Síria. Yhia é mais velho e acredita que, se sobreviveu à guerra, consegue “aguentar tudo o resto”. Estes miúdos viram, ouviram, sentiram o que ninguém – muito menos uma criança – deve ver, ouvir ou sentir. Que marcas vai a guerra deixar? “O passado não tem de ser necessariamente futuro”

  • “É preciso que a opinião pública exija ações imediatas e específicas: temos que pressionar por um cessar-fogo imediato”

    O Iraque e o Afeganistão foram como vacinas antiguerra injetadas na opinião pública ocidental em várias doses ao longo dos últimos 17 anos. Hoje ninguém quer sequer ouvir falar de intervenções militares e por isso não há pressão para que se passe da palavra à ação e se resolva a tragédia em Ghouta Oriental, a zona rebelde a menos de 15 quilómetros da capital da Síria. O Expresso falou com Bruno Cardoso Reis, professor e investigador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e do King’s College, de Londres, na área dos conflitos internacionais, que deixou um aviso: “Transição de regime não é sinónimo de transição democrática”