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Angola acalma petrolíferas e cativa investimento alemão

A saída de Isabel dos Santos da Sonangol pacificou as petrolíferas internacionais, atendendo a que algumas chegaram recentemente a ameaçar com a saída do mercado angolano

d.r.

As petrolíferas internacionais aguardavam mudanças em Angola, anunciadas pelo novo presidente, João Lourenço. Além de agradarem ao sector do petróleo, as alterações foram bem acolhidas pelos grupos alemães, que agora podem repensar o regresso ao investimento em Angola

Para resolver um grande problema internacional no sector dos petróleos - através da exoneração de Isabel dos Santos como presidente da Sonangol - o novo presidente de Angola, João Lourenço, terá criado condições para atrair investidores estrangeiros de longo prazo que se mantiveram afastados de concretizar projetos no mercado angolano. É o caso dos grupos alemães, que agora podem regressar a Angola se tiverem garantias de maior transparência.

As grandes mudanças em curso em Angola têm origem nos problemas vividos pelas empresas petrolíferas, que já vinham de longe, explicaram ao Expresso fontes do sector. O último pagamento as petrolíferas que fizeram à Sonangol e ao Estado angolano - de 1,3 mil milhões de dólares - cerca de um mês antes das eleições de 23 de agosto, foi a gota de água para estas empresas gigantes. Algumas chegaram mesmo a ameaçar com a saída do mercado angolano.

O novo presidente, João Lourenço, teve em consideração o mal-estar vivido no sector dos petróleos quando decidiu exonerar Isabel dos Santos do cargo de presidente da Sonangol, dando uma indicação às grandes petrolíferas internacionais que muitas coisas vão mudar em Angola.

A nomeação de Carlos Saturnino - ex-secretário de Estado dos Petróleos de Angola - para presidente da Sonangol já contribuiu para tranquilizar as petrolíferas, mas, ao mesmo tempo, também permitiu credibilizar a política económica angolana, o que agradou a grandes investidores internacionais, designadamente aos grupos alemães.

Foi uma espécie de dois em um. O sector petrolífero, vital para a economia angolana, foi tranquilizado. E o clima do investimento estrangeiro melhorou por via do aumento de confiança, que ainda terá de ser garantido com medidas adicionais.

Roland Berger “aguardava sinal”

A consultora Roland Berger “aguardava um sinal deste teor”, referiu ao Expresso o responsável da consultora estratégica alemã, António Bernardo, considerando a exoneração de Isabel dos Santos no cargo de presidente da Sonangol, como “o primeiro passo que Angola dá para entrar numa nova era”, e um compromisso do próprio presidente angolano, João Lourenço, “em avançar no sentido de uma maior transparência no funcionamento da economia angolana”.

“A comunidade internacional aguardava uma mudança explícita em Angola e isso aconteceu agora com a decisão de exoneração da presidente da Sonangol, Isabel dos Santos”, adiantou António Bernardo.

“O aumento da transparência, complementado por eventuais novas regras de regulação, e por uma mudança explícita em relação ao passado recente vão contribuir significativamente para atrair investidores de longo prazo para Angola, entre os quais estarão os investidores alemães, que estão a seguir com atenção o que está a acontecer em Angola”, adiantou o responsável da Roland Berger.

À semelhança das auditorias que foram iniciadas nas empresas que operam no sector dos diamantes, as fontes contactadas pelo Expresso não excluem a possibilidade de serem feitas auditorias semelhantes ao conglomerado empresarial e industrial liderado pela Sonangol.

  • O estrondo de Isabel dos Santos. Por Pedro Santos Guerreiro

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  • É preciso deixar a poeira assentar

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