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Todas as noites ouvem palmas. E não saem para as receber

Foram mais de uma centena, quase duas. Hoje, só Cristina e João são profissionais na arte de “soprar o texto” (dizê-lo muito baixo, quase como um sibilar, sem lhe imprimir qualquer emoção ou intenção, quando o ator se esquece da fala). Deles quer-se discrição, quase invisibilidade. Os pontos estão a desaparecer, a profissão está a morrer. Esta quinta-feira estreia “Sopro”, uma peça sobre aqueles que são a luz que se acende no esquecimento do ator

Marcos Borga

ATO I - Morte

(Em palco. A plateia está cheia, levantada a aplaudir. Os atores agradecem já com o pano fechado. Terminou mais uma noite de espetáculo. De lado, no limite entre o palco e os bastidores, está uma mulher vestida de negro com uma pequena lanterna na mão e outra no bolso)

Não há ninguém para aprender o ofício, para ficar no escuro à sombra do ator. Há lá quem queira todas as noites ouvir palmas e nunca aparecer para as receber, depois de ter estado com a atenção concentrada na peça, à espera de salvar alguém da falha. Esse é (em parte) o trabalho do ponto. Em Portugal, são apenas duas pessoas na profissão. Pela Europa são poucos mais, fala-se em não mais de cinco ou seis.

“A maior parte das pessoas nem sabe que existem pontos. E as poucas que conhecem, não estão para isto. Se não leem livros em casa vão estar a ler por obrigação durante sete ou oito horas ao dia?” Cristina Vidal já perdeu a conta ao número de peças que soprou – assim se chama a arte de dizer o texto tão baixo, quase como um sibilar, sem lhe imprimir qualquer emoção ou intenção. Quando começou, e já lá vão 39 anos, guardava os programas de cada espetáculo (eram tempos em que também o nome do ponto tinha destaque nos cartazes, lado a lado com o dos atores). Já se deixou disso: “não tenho espaço em casa para tanto papel.”

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