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Carta aberta ao Presidente e a Portugal assinada em nome de uma vítima de Pedrógão

d.r.

Quando uma irmã precisa, a outra estende a mão. Quando a mão falta, pede-se ajuda. A quem? Ao Presidente da República, ao país. A todos nós. A dias de completar um mês da tragédia de Pedrógão Grande, continuam a surgir histórias difíceis de enfrentar

Nesta carta não há apontar de dedo, não há estabelecimento de culpas, não há rancor. Não se perde tempo com nada disso: afinal, quem tem de ajudar uma criança a crescer não tem tempo a perder. Esta carta é simplesmente a dor discreta de quem já aprendeu que a vida não é fácil. E, por isso, o que está ali é o sentido prático de resolver o que tem de ser resolvido. E se para atingir este objetivo for preciso bater a portas, bate-se às que forem necessárias. Mesmo que seja a de Belém, casa oficial do Presidente de Portugal.

Nesta carta não há poesia, não há paragens para respirar. Porque Sara morreu. Tinha 35 anos e foi apanhada pelo fogo que faz segunda-feira um mês matou mais 63 pessoas além da própria Sara. Sarita, como era conhecida na aldeia de Vila Facaia, deixou um filho de sete anos. E Ana Catarina, a Cati, a irmã mais velha, sabe bem a responsabilidade que lhe foi entregue, não tivesse ela um sério problema cardíaco a limitar-lhe o quotidiano. E, por isso, partilha agora um pedido de ajuda.

Ana Catarina conversou com o Expresso esta semana. Sem muitas palavras, contou o que se passou com a irmã e remeteu os detalhes para o que escreveu e que pode ler mais em baixo. Nada nos foi poupado, apenas, a pedido dela, foi retirado o nome do filho de Sara, “para o proteger”, e os nomes de pessoas amigas, para preservar a privacidade de todos.

Sara Costa, uma das 64 vítimas do fogo de Pedrógão

Sara Costa, uma das 64 vítimas do fogo de Pedrógão

No Facebook, Ana Catarina foi deixando pistas da relação com Sarita e com o fogo que a matou. Às 10h39 do domingo de 18 de junho, Ana deixa um primeiro alerta, intuição do que se viria a passar: “Era bom que a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande tivesse mais linhas. Não consigo saber de nada concreto em Vila Facaia, só suspeitas, e as piores possíveis... Não consigo falar com ninguém de lá. Alguém que tenha notícias certas me ligue, por favor.”

Nos comentários, às 17h02, um amigo tenta ajudar: “236488060. É este o número disponibilizado pela Santa Casa da Misericórdia do Pedrógão Grande para os familiares e amigos de potenciais vítimas da tragédia nos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos conseguirem informação”. Ao que Cati responde: “Esse número está sempre ocupado, estou a tentar há horas!”. Mas às 00h04 já não há dúvidas: “Oi, amigos e família. A minha irmã morreu. Falei com o familiar que identificou o corpo e há muitas poucas dúvidas. Agradeço o apoio dado por todos neste dia e noite. Não consigo imaginar o sofrimento dela e de todos os outros na hora da sua morte, pois pelo relato o cenário era para lá de dantesco... Um grande abraço aos familiares e amigos das restantes vítimas”.

E, no dia 20, a seguir ao funeral, Cati fez, também no Facebook, o primeiro desabafo: “A minha irmã não se chamava esperança, mas podia ter-se chamado assim”. Já esta semana, pressionada pela responsabilidade de educar o sobrinho, Cati pensou em pedir ajuda ao Presidente da República e mandou-lhe um email. Esta é a carta.

CARTA NA ÍNTEGRA

Ao Excelentíssimo Presidente da República Portuguesa, Professor Marcelo Rebelo De Sousa;
Ao Excelentíssimo Senhor Primeiro Ministro da República Portuguesa, Dr. António Costa;
Ao Excelentíssimo Provedor da Justiça, Professor José de Faria Costa;
Aos Excelentíssimos Ministra da Administração Interna, Doutora Constança Urbano de Sousa, e Ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Dr. José António Vieira da Silva.
Aos Exmos. Senhores Presidentes / Demais cargos dirigentes da União das Misericórdias:
- Manuel Augusto Lopes de Lemos
- José Albino da Silva Peneda
- Francisco Rodrigues de Araújo
- Licínio Pina
- Paulo Gravato
- Rui Filipe Rato
- Carla Nunes Pereira
- Joaquim dos Santos Guardado

Venho, por este meio, na qualidade de irmã da Sara Elisa Dinis Costa (mãe do menor de 7 anos, X), falecida no incêndio de Pedrógão Grande, questionar onde é que estão as ajudas tão apregoadas.

Agradou-me o facto de ter recebido uma mensagem do Excelentíssimo Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, no funeral, mas por outro lado choca-me não ter sido contactada por ninguém com responsabilidades mandatado para o auxílio das vítimas. Também gostaria de saber qual o destino das doações recentemente efetuadas à ‘causa’ das vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande.

Uma vida não tem preço e associado a esse facto há imensos custos inerentes a uma vida que se perde, bem como às vidas que ficam (não me estou somente a referir ao trauma com que o meu sobrinho, filho da minha falecida irmã, ficou, desde o conhecimento da morte da sua mãe mas também o trauma com que quer eu quer o meu marido ficámos).

Para ler a carta na íntegra, clique AQUI
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