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A sorte dos portugueses esquecidos é pouca. Mas talvez não: afinal é muita, imensa

Rui Duarte Silva

Quem vive lamenta a sorte nenhuma de o fogo de Pedrógão Grande lhes ter levado tudo. Mas só os vivos se lembram da gente que o fogo levou e só os vivos dão graças à sorte de o fogo não os ter levado também. E estes de cuja sorte aqui se escreve são “os portugueses de quem menos se fala, difíceis de proteger e salvar”, como Marcelo lhes chamou este domingo. São portugueses idosos, esquecidos por nós mas de quem o fogo se lembrou

Ainda não eram 6h30 e Cesaltina, 79 anos, já passava as mãos sujas pelo cabelo. Desolada, olhava para a horta. Para a memória das alfaces, curgetes, couves. A luz surgira há pouco, ou o que sobrava dela por trás do fumo em Vila Facaia, uma das localidades mais atingidas pela tragédia de Pedrogão Grande, no centro do país. “O feijão estava tão bonito, tão pequenino...”, lamenta-se. Volta a esfregar a mão no rosto.

O marido, 76 anos, ficou em casa, “derreado com o choque valente que apanhou”. Ela, mulher, idosa, foi ver sozinha o que sobrou de uma vida de poupanças. Os quatro filhos partiram, eles ficaram. Figueiras, o castanheiro do magusto de todos os anos, o magusto que já não vai acontecer, os pedreiros, as oliveiras. Nada de nada. Ela que não comprava quase nada comia do que plantava, com a água do poço e o estrume dos seus animais. “A sorte é pouca.” Mas corrige: afinal a sorte é muita, imensa. “Eu conhecia a Gina e a Bianca.” Os nomes da mãe e da menina de Nodeirinho apanhadas pelo fogo. “Não me quero lembrar.” Delas e sobretudo dela, da morte que andou por ali.

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