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O português que tem 33 anos e já “viveu tudo”: “Já vi os U2 ao vivo e já almocei com o Papa”

António Pedro Ferreira

Filipe Teixeira não só almoçou com o Papa, com direito a perguntas sobre o desemprego jovem e a um abraço inesperado, como ainda escreveu o livro “A jornada em que almocei com o Papa – uma revolução do coração” e entregou uma cópia ao próprio Francisco. Não espera ter tanta sorte este fim de semana, quando rumar a Fátima para (re)ver o Papa: “Foi a oportunidade de uma vida”

Mariana Lima Cunha

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Um sorriso leve instala-se no rosto de Filipe quando recorda aquele momento. Tinha passado duas semanas nervosas a planear cada movimento – o que vestiria, o que diria, em que língua falaria quando tivesse oportunidade de estar à frente do Papa Francisco. E no entanto, naquele momento em que se preparava para a despedida, o sempre imprevisível Francisco trocou-lhe as voltas – preferiu um abraço, em vez do beijo no anel que Filipe tinha planeado, mais formal.

Desse momento não há fotografias – o espanto perante a imagem do Papa, de braços abertos para si, foi tanto que Filipe os abriu também de imediato, deixando assim cair as lembranças que acabavam de lhe ser oferecidas (entre elas o logótipo das Jornadas Mundiais da Juventude, em que estava a participar como voluntário). Um fotógrafo, solícito, apressou-se a apanhar os pertences que deixara cair, perdendo o registo fotográfico do abraço. “Mas é daqueles momentos que vou recordar para sempre – mesmo sem fotografia!”, graceja Filipe.

A história é relatada depois de uma visita breve no interior da Igreja de São Vicente de Fora, para os lados da Graça, onde se instala o Patriarcado de Lisboa. Filipe, ligado desde cedo à Igreja, trabalha no serviço de comunicação do Patriarcado e por isso tem as chaves necessárias para abrir as portas e mostrar os azulejos que as paredes exibem ou a sala onde se instalam os túmulos dos anteriores patriarcas.

Mesmo antes do trabalho no Patriarcado, Filipe, cuja mãe é natural de Fátima e que cresceu no seio de uma família religiosa, cedo se habituou a participar no maior encontro de jovens católicos de todo o mundo. O que procuram eles, como procurava Filipe da primeira vez que participou, com 14 anos? “Uns assumidamente, outros nem tanto, andam à procura de um sentido para a vida”, assegura.

Uma chegada inesperada e os “sinais que Deus oferece”

Em 2000 Filipe viu o Papa João Paulo II, na Praça de São Pedro. Entretanto, tomou-lhe o gosto – entre 2000 e 2016, foi aos encontros realizados em Roma, Toronto, Colónia, Sidney, Madrid, Rio de Janeiro e Polónia. E embora diga sempre que “esta é a última vez”, Filipe não parece resistir – e foi graças a essa insistência que conseguiu, em 2013, ver-se frente a frente com o Papa, de braços abertos.

Ao longo da conversa, são várias as ocasiões em que Filipe refere os sinais de Deus, mas poucos são tão claros como os que identifica no caminho que o leva às Jornadas do Rio de Janeiro. Um ano antes, Filipe, que tem formação como designer gráfico, encontra-se sem um emprego de longa duração e a ideia de ir para o Rio como voluntário surge-lhe na mente.

Hoje tem a certeza de que aquilo que na altura lhe pareceu um desafio era, na verdade, uma “oportunidade”. Recebido por uma família brasileira, numa casa com vista para o Pão de Açúcar, só um mês depois de chegar soube que na noite em que aterrou no Aeroporto do Galeão a família não tinha percebido que estava a caminho. “O João [o médico que o recebeu em sua casa] recebeu uma chamada e, distraído, achou que lhe estavam a perguntar se podiam fazer mais uma visita técnica para verificar as condições da casa. Disse logo que sim”. A pergunta era se estava pronto para receber naquela altura um peregrino português – que ali ficaria por 9 meses, a trabalhar como voluntário até às JMJ – chamado Filipe.

O choque da renúncia – e o Papa que ‘tá nem aí’

Já não faltava muito para o início do evento – estávamos a 11 de fevereiro de 2013, a cinco meses do início das JMJ, quando os voluntários da JMJ receberam a notícia: o Papa Bento XVI decidira renunciar. Primeiro, era preciso alterar as imagens em que tinha estado a trabalhar com as fotografias de Bento XVI, substituindo-as pelas do sucessor Francisco, cujo nome seria conhecido um mês depois.

“O Papa Bento XVI diz uma coisa na JMJ de 2011 importantíssima: foi para este tempo da História que o Senhor nos chamou. Foi para este momento da História que o Senhor mandou o Papa Francisco”, sublinha Filipe. “Pouco a pouco fomo-nos apercebendo de que estávamos perante uma figura marcante da História da Igreja. Não sou nenhum entendido em teologia, mas posso afirmar que isto vai lá pela autenticidade. A caridade é isto mesmo: é o poder da atração. Há uma expressão interessante dos brasileiros, que é: ele ‘tá nem aí’ para o que vão pensar. Aquilo é autêntico. Quando ele está em frente a cada um, só importa aquele momento”.

António Pedro Ferreira

A confirmação teve-a Filipe quando se encontrou frente a frente com Francisco, depois de um convite misterioso. “As perguntas que me fiz no dia 10 de julho [de 2013], quando recebi o convite, foram: ‘Porquê eu? Venho de Portugal, que tem uma taxa de participação mínima. Trabalhei tanto quanto os outros’. E depois achei por bem nunca mais insistir nisso e ver que aquilo era por misericórdia. Não era por eu merecer, não havia ali um fio condutor”.

“Estamos perante um santo”

Foi com essa humildade que se apresentou, já o Papa estava no Rio de Janeiro, para o almoço em que estariam presentes jovens representantes dos cinco continentes. Francisco entrou na sala e não fez o que os outros esperavam que fizesse: “Ele deu à volta à mesa, cumprimentando-nos um a um”. “Eu sei que a santidade, que é aquilo que cada cristão ambiciona, não tem patamares”, concede Filipe. “A misericórdia de Deus não é light ou mais pesada – é amor total. Mas ali, quase sou tentado a perceber que há um nível diferente. Estamos perante um santo”.

Filipe não consegue recordar a ementa, mas lembra o ambiente informal em que os jovens dirigiram perguntas ao Papa. Filipe falou a Francisco dos jovens portugueses no desemprego. “Ele respondeu que não podemos permitir que os jovens percam a esperança. Temos suicídios, gente que se fecha à vida, muitos jovens em idade de ânimo e de ir para as ruas, e o que eles perderam foi a esperança. Ele dizia: temos uma sociedade virada para os critérios economicistas, e o maior desprezo por esses critérios fica nas pontas, nos jovens e nos mais idosos”.

Um dos presentes perguntou a Francisco sobre a burocracia que tantas vezes afasta as pessoas da Igreja. “Ele acompanhou um grupo de gente que se dedicava a dar alimento aos sem abrigo. E a maior parte não eram batizados. O objetivo dele nunca foi que eles fossem batizados. Mas eles acabaram por entrar na Igreja!”. Outro participante perguntou sobre encontrar a vocação de cada um. Francisco respondeu: “O Papa também precisa de uma direção espiritual. Eu não sou o Mister Papa!’”.

Antes do fim da hora e um quarto de encontro com o Papa, o momento que relatámos no início do texto – o abraço inesperado, acompanhado das ofertas que os participantes quisessem fazer ao Papa. Filipe pensara longamente na questão, até lhe ocorrer uma ideia adequada: “Eu tinha visitado no Peru, cerca de um mês antes, um colégio para crianças com deficiência física. Dali vinha o único grupo que ia participar na JMJ de crianças descapacitadas”.

“Nessa viagem vi um caso de uma criança que nasceu sem um braço, e durante anos houve várias tentativas de instalar uma prótese, que nunca resultou. Desde que começou a ensaiar o musical que iam apresentar nas JMJ, começou a comer com a prótese e ainda se dedicou a ajudar os outros que não conseguiam comer sozinhos! Ofereci ao Papa uma carta que eles me deram, com as fotografias deles, a dizer ‘obrigado’”.

O terceiro encontro em Fátima

“O Papa Francisco é um homem de carne e osso, é verdade, e não vai durar para sempre. Mas ele tem consciência plena de que isto vai para lá dele, da pessoa dele”, explica Filipe. No dia em que Francisco chegou ao Rio para aquelas Jornadas, o carro que o transportava, de janelas abertas, virou para uma rua que não estava no percurso previsto, sendo rapidamente engolido pela multidão. “Os jornalistas perguntavam se não tinha medo e ele respondeu: ‘Eu não tenho medo porque venho visitar as pessoas, não posso vir dentro de uma caixa de vidro. Conheço o risco e de hoje para amanhã alguém me pode dar um soco, mas ninguém morre de véspera’”.

Cerca de um ano depois do encontro, Filipe conseguiu entregar ao Papa, em mãos, o produto mais palpável daquela experiência – o livro “A jornada em que almocei com o Papa – uma revolução do coração”, cujos direitos de autor revertem para o mesmo colégio de meninos com deficiência, no Peru. “Até há uma foto dele a receber o livro, espantado, porque se lembrava do almoço. Aconteceu numa audiência em Roma”.

O terceiro encontro, ainda que de longe, entre Filipe e o Papa está marcado para este fim de semana, altura em que o veterano das Jornadas se desloca a Fátima. Entre risos, admite que desta vez nem a sonhar com um novo encontro se permite, porque “é daquelas coisas que acontecem uma vez na vida”. Na verdade, a Filipe aconteceu duas – uma no almoço de cuja ementa se esqueceu, e outra quando foi altura de entregar ao Papa um livro em que assume “uma escrita acidentada, como a Igreja acidentada que o Papa quer”.

Perguntamos-lhe, já a preparar-nos para nos encaminharmos para fora das paredes do mosteiro, que Igreja acidentada é essa. “O Papa tem comparado muitas vezes a Igreja a um hospital de campanha. Isto quer dizer que o perfeccionismo é inimigo da misericórdia, da bondade”, lembra Filipe. “É um pouco isso que o papa Francisco deixa transparecer da Igreja acidentada: é preferível uma igreja acidentada do que uma igreja muito certinha e fechada em si mesma”.