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Devin Nunes: “Os russos só entendem a linguagem da força bruta”

Devin Nunes, em Lisboa

Foto José Carlos Carvalho

O político luso-descendente que chegou mais longe na hierarquia do Estado americano esteve em Lisboa para uma curta ronda de contactos. Fiel a Trump, o presidente do Comité dos Serviços de Informações da Câmara de Representantes dos EUA é um adepto da linha dura em política externa

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

O congressista Devin Nunes, o luso-descendente mais influente na política americana – e que agora está na ribalta por causa dos inquéritos à influência russa nos Estados Unidos –- é adepto do Presidente Trump desde a primeira hora, em cuja equipa de transição trabalhou. É um republicano e um duro.

Como estão as relações entre os Estados Unidos e a Rússia depois da abertura dos vários inquéritos sobre as alegadas ligações entre ela e a equipa de Donald Trump?
Não estou muito esperançado. Até certo ponto, Putin é um ditador desonesto. Há muitos anos que advirto sobre ele, o que foi completamente ignorado pela Administração Obama e duvido que possa haver trabalhar-se com ele. Todos os Presidentes sonham com isso, mas são só sonhos, nunca se tornam realidade.

Mas o grande problema no início desta nova Administração foram precisamente as relações com a Rússia – incluindo no seu caso.
Fui daqueles que avisou sobre a Rússia há um ano, e disse que tinha sido um grande falhanço desde o 11 de Setembro a nossa incapacidade para percebermos as intenções e os planos russos. O Governo Obama ignorou os meus avisos e eu fiz declarações públicas.

Porque não fizeram nada?
Porque estavam a tentar fazer um acordo com os russos, a propósito do Irão, da Síria... Há muito tempo que os russos são maus atores e vários Presidentes americanos, desde Bill Clinton, tentaram trabalhar com a Rússia e Putin e sempre sem sucesso. Palpita-me que o Presidente Trump também não terá êxito.

Mas de qualquer modo vai ter de lidar com a Rússia, é um grande país e uma potência nuclear.
Razões pelas quais todos os presidentes e secretários de Estado tentaram trabalhar com Putin.

Então como resolve o problema?
Pessoalmente sou a favor de sanções mais duras, de mandar armas para a Ucrânia, o que aliás o Congresso aprovou e a última Administração não fez. Temos vindo a avisar sobre a ingerência ciber que os russos têm feito desde há muitos anos, em 2013 fizemos avisos concretos e nada foi feito. Acho que os russos só entendem a linguagem da força bruta. Aplicar a força e não se estar disposto a aceitar que se pise a linha que foi traçada.

Mas a força bruta é bastante perigoso.
É tudo perigoso, mas é muito mais perigoso se eles forem até aos países bálticos. O que acontece então? Não sabemos até onde eles estão dispostos a ir. São tudo vários níveis de perigo. Mas é mais perigoso não vai fazer nada.

A acusação à Administração Trump é precisamente a contrária: que a equipa de Trump teria tido uma espécie de acordo com os russos antes das eleições para prejudicar a candidatura de Hillary Clinton.
Temos de nos basear em factos: não há prova disso. Há vários inquéritos a correr sobre esse assunto. Eu observo a Rússia de perto e há muitos anos, mesmo décadas, que eles se envolvem nas nossas eleições.

Quer dizer o quê? Como?
Há décadas, sim, e desta vez nós avisámos o Governo sobre a intrusão informática. Quer dizer o Comité de Intelligence advertiu sobre a Rússia e, mais uma vez, a Administração não fez nada. Até a um determinado ponto, os russos fazem propaganda em todo o planeta. A RT [um canal de televisão russo em inglês] é uma rede global e eles são muito bons em propaganda. Mas mudaram os resultados eleitorais nos Estados Unidos? Duvido. Não me parece que tenha havido acordo com a equipa de Trump. As pessoas dão desculpas para não ganharem eleições que não têm a ver com a realidade. Mas estamos a investigar e se encontrarmos alguma coisa todos saberão.

Mas como está a questão das escutas?
Fui o primeiro a dizer que não houve escutas na Trump Tower. Mas também que isso não significa que não tenha havido outros métodos usados durante a transição Trump. Houve. Se é ilegal, outros decidirão, há uma investigação sobre se os serviços secretos foram usados de modo impróprio.

O senhor autossuspendeu-se da presidência do inquérito sobre a investigação russa e há outro inquérito a respeito da sua conduta.
Os meus inimigos políticos, e tenho muitos, fazem toda a espécie de alegações, mas eu tenho um longo historial de ser ético e confiável. O que fiz foi: se querem fazer acusações, ok. Eles tentaram fazer de mim o rosto desta investigação, no que têm tido êxito, mas eu não podia deixar que prejudicassem a investigação. Por isso autossuspendi-me e estamos a passar à fase dois, em que os procuradores fazem as entrevistas, até todas estas supostas acusações serem completamente esclarecidas.

São feitas alegações de que o disse aos jornalistas que Donald Trump tinha sido escutado.
Há muita confusão sobre o que aconteceu. Resumindo, havia várias investigações relativamente ao uso dos nossos serviços de informações para fins políticos e eu estava a par muito antes do tweet de Trump sobre isso. Quando as provas já eram esmagadoras, percebi que tinha um grande problema entre as mãos, resolvi falar à imprensa e dizer que ia à Casa Branca dar a conhecer o que tinha descoberto. Foi uma conferência de imprensa! Quando saí da Casa Branca, voltei a falar à imprensa. Fui completamente transparente e acusaram-me de estar a fazer fugas de informações! Há muita propaganda misturada.

Então como encara as declarações dos seus colegas republicanos, como o senador McCain?
Temos muitos congressistas que gostam de aparecer nas notícias.

Então para si isto é uma não-história?
Pessoalmente é, mas a verdade é que ela tem sido difundida por todo o país e o mundo. Penso que na origem está o facto de as pessoas não aceitarem estes resultados eleitorais.

Foto José Carlos Carvalho

Basicamente está à espera da decisão do Comité de Ética do Congresso?
Isso não vai dar em nada. O que eu não quero é que a investigação sobre a Rússia que o meu Comité lidera fique prejudicada. Eu não estou envolvido, mas está a cargo do meu Comité porque somos os que temos acesso à informação. Eu também tenho acesso, mas não estou encarregado do inquérito e não vou fazer entrevistas. Mas há muita coisa a fazer, temos muitos problemas, desde a Coreia do Norte, a Síria, o Norte de África, a China, o Médio Oriente.

A situação na Coreia do Norte é realmente muito perigosa ou pensa que há também uma componente de provocação e show?
De cada vez que a Coreia do Norte testa uma arma atómica ou qualquer tipo de tecnologia míssil fica melhor apetrechada, e assim continuará a aumentar as suas capacidades. A Coreia do Norte é um regime pária perturbador e tornar-se-á muito perigosa, não só para a Coreia do Sul, como cada vez mais para o Japão.

Mas para conter Pyongyang, os Estados Unidos precisam também que a China use a sua influência.
Sempre foi um problema. A China não o está a fazer. Não sei o que discutiram os presidentes chinês e americano, quando aquele visitou recentemente os EUA, mas o que veio a público foi positivo. Eu, por mim, sei que não podemos continuar a deixar a ditadura coreana testar essas armas.

O que é que os Estados Unidos estão dispostos a fazer, se a Coreia do Norte fizer outro teste?
Uma coisa de que gosto no Presidente Donald Trump é que ele não diz o que vai fazer, nem o que não quer fazer.

Já aconteceu.
Ele tem sido muito bom nisso, mas é uma decisão inteligente não dizer o que vai fazer do ponto de vista militar. Até o fazer.

Mas está pronto a agir, se houver mais algum teste?
Temos uma força militar significativa naquela região.

Os chineses pediram acesso à baía de Welvis Bay, na Namíbia.
Eles estão em São Tomé, no Djibuti, têm presença militar no Sri Lanka e em quatro ou cinco outros locais. Estão a criar bases em todo o mundo.

Como explica a atividade da China até tão longe, no Atlântico?
Eles já têm presença militar em São Tomé, e sabemos que eles estão há muitos anos a olhar para os Açores, para as Lajes. Sabemos o que eles fizeram nos outros sítios e estão a preparar-se para fazer o mesmo nos Açores.

Mas EUA também estão em São Tomé.
É uma pequena presença, não uma base, não temos pessoal.

Mas a China e a Rússia querem estar no Atlântico por causa dos EUA, porque querem controlar?
A China irá tão longe quanto puder com os seus navios, e instalar capacidades para intercetar sinais de informações. Desde 2013 o nosso Comité tem a informação de que a Huawei e a ZTE [empresa de tecnologia chinesa] poderiam globalmente ser usadas para recolher informações.