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“Pensei que podia enlouquecer”

A médica endocrinologista Isabel do Carmo foi um dos presos políticos da ditadura colocados na “solitária”, depois de ter sido detida em Oeiras, em 1970. O seu testemunho é o terceiro que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os “curros”, ou “segredo”

Um toque de campainha ao clarear do dia era suspeito. Isabel do Carmo sabia-o. Não se surpreendeu, por isso, quando numa madrugada de 1970 dois pides lhe invadiram a casa. Na altura, a médica ainda tinha um pé no Partido Comunista Português, embora já tivesse feito “um longo relatório” onde abordava a luta armada.

Os pides vasculharam tudo e encheram uns caixotes com o que lhes pareceu suspeito, levando ainda para a Rua António Maria Cardoso, sede da polícia política, a própria Isabel do Carmo, que dali seguiu, depois de alguns interrogatórios entremeados por insultos machistas, para uma cela de isolamento em Caxias: “Tinha uma janela que dava para o muro. Apenas via os sapatos dos guardas de ronda que passavam em cima do muro.”

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    Dos métodos que a polícia política da ditadura usava para vergar os presos (espancamentos, privação do sono, etc.), o isolamento foi uma arma sofisticada. A colocação na “solitária”, por vezes durante muitas semanas, pretendia quebrar o preso político entregando-o a si próprio, obrigando-o a uma luta com os seus pensamentos, as suas capacidades de autodomínio, os medos inconfessados. Iniciamos uma série de testemunhos de cinco personalidades que passaram pelas cadeias da PIDE e que estiveram confinados à solitária, o chamado ‘curro’, ou ‘segredo’. O primeiro é de Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público, detida aos 19 anos, num dia “cheio de sol” de outubro de 1973

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    O isolamento foi uma arma sofisticada usada pela ditadura, um método de tortura a que a PIDE recorria como complemento da privação de sono, dos espancamentos e das humilhações. O poeta e político Manuel Alegre, detido em Luanda, em abril de 1963, foi um dos presos políticos que foi colocado na “solitária”. É o segundo dos testemunhos que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os chamados “curros”, ou “segredo”