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“O postigo: um quadrado de onde se via o céu, o azul, o azul do lá fora, todo o azul, o azul da vida”

O isolamento foi uma arma sofisticada usada pela ditadura, um método de tortura a que a Pide recorria como complemento da privação de sono, dos espancamentos e das humilhações. O poeta e político Manuel Alegre, detido em Luanda, em abril de 1963, foi um dos presos políticos que foi colocado na “solitária”. É o segundo dos testemunhos que estamos a publicar esta semana de oposicionistas enviados para os chamados “curros”, ou “segredo”

Cristina Margato

Cristina Margato

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Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Foi o inspetor da Pide Coentrão que deu a ordem: “Fecha! Este não tem direito a postigo.” Manuel Alegre foi preso em Luanda a 17 de abril de 1963, um ano depois de ter sido mobilizado para a guerra em Angola. Chegou como oficial miliciano, e rapidamente se envolveu numa conspiração de golpe contra o regime que não se concretizou.

A gravidade do ato, ainda mais em plena guerra, fê-lo acreditar que tudo lhe podia acontecer: “Uma tortura violenta, até mesmo uma tentativa de me liquidarem.” Dar ordem, como fez o inspetor da Pide logo no primeiro dia, para fechar o postigo, aquele pequeno quadrado na cela parecia-lhe, por isso, um pormenor, provavelmente o menor das castigos: “Olhei, e achei que aquilo não tinha importância.”

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  • Encurralados: “Se uma pessoa está disposta a morrer, resiste a tudo”

    Dos métodos que a polícia política da ditadura usava para vergar os presos (espancamentos, privação do sono, etc.), o isolamento foi uma arma sofisticada. A colocação na “solitária”, por vezes durante muitas semanas, pretendia quebrar o preso político entregando-o a si próprio, obrigando-o a uma luta com os seus pensamentos, as suas capacidades de autodomínio, os medos inconfessados. Iniciamos uma série de testemunhos de cinco personalidades que passaram pelas cadeias da PIDE e que estiveram confinados à solitária, o chamado ‘curro’, ou ‘segredo’. O primeiro é de Maria José Morgado, magistrada do Ministério Público, detida aos 19 anos, num dia “cheio de sol” de outubro de 1973