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Acidentes com avionetas em Portugal fizeram 35 mortos em oito anos

tiago miranda

Contam-se 51 acidentes com avionetas desde 2010, inclusive, segundo as estatísticas do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves. O pico de acidentes registou-se em 2010, com 13 ocorrências, mas foi em 2012 que morreram mais pessoas. 84% dos acidentes com ultraleves ocorridos entre 2008 e 2014 “estão relacionados com voos de lazer”

Desde 2010, morreram 35 pessoas em Portugal em resultado de acidentes com avionetas, segundo os dados do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), analisados pelo Expresso. As estatísticas mostram que, nos últimos oito anos, houve também 36 feridos num total de 51 acidentes com este tipo de aeronave – numa média de seis por ano.

Nestes números contabilizam-se já as cinco vítimas mortais e os três feridos que resultaram da queda da avioneta em Tires, esta segunda-feira. Este foi o primeiro acidente aéreo mortal desde o início deste ano. Em março tinha ocorrido outro acidente, no aeródromo de Ponte de Sor, que provocou um ferido e que ainda está a ser investigado.

As estatísticas do GPIAAF contabilizam anualmente todo o tipo de acidentes e incidentes com aeronaves em Portugal. É considerado como “acidente” todas as ocorrências em que a aeronave fica destruída ou nas quais há registo de mortos ou feridos graves. As outras ocorrências são designadas “incidentes”. Nas estatísticas gerais deste gabinete, atualmente sob alçada do Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, estão incluídas ocorrências com pequenas aeronaves, como o caso desta segunda-feira, além de outros casos com aviões comerciais ou helicópteros a operar no combate a incêndios. Estas 51 ocorrências contabilizadas incluem apenas os casos de acidentes com ultraleves e outro tipo de pequenas avionetas.

Imagens do acidente em Tires, esta segunda-feira. Queda de avioneta em zona habitacional, junto a um supermercado, fez cinco mortos e três feridos

Imagens do acidente em Tires, esta segunda-feira. Queda de avioneta em zona habitacional, junto a um supermercado, fez cinco mortos e três feridos

marcos borga

21 acidentes e 11 mortos em 2014 e 2015

Se durante todo o ano passado apenas se contabilizou um acidente com uma avioneta em Ferreira do Alentejo, provocando um morto e dois feridos, o retrato muda de figura quando se olha mais para trás.

Só em 2014 e 2015 registaram-se 21 acidentes, provocando 11 mortos e 15 feridos. Tomar, Paços de Ferreira, Benavente, Mira, Viseu, Trafaria, Beja, Coruche ou Santo Tirso são algumas das localizações dessas ocorrências, traduzindo assim um retrato muito variado dos aeródromos onde esses acidentes aconteceram.

Dois dos 10 acidentes de 2015 ocorreram logo nos três primeiros dias do ano – um em Beja e outro em Tomar – resultando num morto e em três feridos e ficando ambas as aeronaves destruídas. Nos dois casos – como, aliás, na maioria deste tipo de acidentes –, as avionetas foram usadas em situações de lazer.

É essa uma das conclusões de um relatório do GPIAAF, com uma análise dos acidentes e incidentes com ultraleves entre 2008 e 2015 (“Aviação Ultraleve em Portugal (2008-2015) – Análise e Advertências”): 84% dos acidentes com ultraleves ocorridos entre 2008 e 2014 “estão relacionados com voos de lazer”.

“Os pilotos envolvidos em acidentes fatais, a baixa altitude e acrobacias eram, geralmente, muito experientes. Os pilotos em acidentes fatais também eram tipicamente muito experientes. Provavelmente acreditaram que a sua experiência permitia-lhes voar com segurança em condições que os outros são aconselhados a evitar”, conclui o relatório.

“Mais de metade dos voos a baixa altitude e acidentes com manobras acrobáticas envolveram uma ‘audiência’ – geralmente amigos no terreno, mas às vezes passageiros a levar para um voo. A tentação de ‘mostrar’ para impressionar aqueles que estão a assistir foi fatal em muitos dos casos.”

Imagens do acidente em Tires, esta segunda-feira. Uma moradia ficou danificada

Imagens do acidente em Tires, esta segunda-feira. Uma moradia ficou danificada

marcos borga

2010 e 2012 foram anos negros

O pico no número de acidentes com avionetas deu-se em 2010 (com 13 ocorrências), embora 2012 tenha sido o ano em que se registaram mais mortos – dez, no total, segundo os dados. Nesse ano, entre abril e agosto houve quatro acidentes com dois mortos em cada ocorrência – Benavente, Colares (Sintra), São Domingos de Rana e Braga foram as localizações.

O documento explica que o crescimento deste sector “se deve a características muito específicas, nomeadamente o custo das aeronaves, a necessidade de pequenas pistas para operarem e a existência de condições climatéricas propícias à atividade, ao longo de todo o ano”.

“No que concerne às fases de voo, os processos de acidente, no período compreendido entre 2008 e 2014, ocorreram na sua maioria na descolagem e na aterragem, com uma representação expressiva de 68%”, acrescenta o relatório, concluindo que 60% das aeronaves envolvidas ficaram destruídas. Nesse mesmo período, mostra o relatório do GPIAAF, “cerca de um quarto das aeronaves envolvidas nos acidentes possuíam matrícula estrangeira”.

O gabinete conclui que em Portugal existem 550 aeronaves registadas como ultraleves e cerca de 4002 pilotos que utilizam este tipo de aeronave.