Siga-nos

Perfil

Expresso

Diário

Abdessalam Tazi, líder da célula jiadista de Aveiro, ficou em preventiva em Monsanto

Marroquino de 63 anos estava detido na Alemanha por pequenos crimes de natureza económica. Foi extraditado e interrogado esta quinta-feira e ficou em prisão preventiva. O cúmplice tinha sido detido em Marselha há quatro meses. Ambos viveram em Aveiro durante alguns meses

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Rui Gustavo

Rui Gustavo

texto

Editor de Sociedade

Lucília Monteiro

Lucília Monteiro

foto

Fotojornalista

Dois marroquinos suspeitos de ligações ao terrorismo viveram num apartamento em Aveiro durante vários meses

Dois marroquinos suspeitos de ligações ao terrorismo viveram num apartamento em Aveiro durante vários meses

Foto Lucília Monteiro

“Eles gostavam de nos falar sobre o Deus deles”, contou ao Expresso uma vizinha do prédio no centro de Aveiro onde os marroquinos Abdessalam Tazi, de 63 anos, e Hicham El Hanafi, de 27 anos, viveram durante um ano até ao passado verão. O apartamento de 3º andar era alugado pelo mais velho, suspeito de recrutar jovens para o autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Não só em Aveiro como também em Lisboa, entre 2013 e 2016.

Tazi foi preso na Alemanha no início do verão, acusado de burla, assegurou ao Expresso fonte próxima da investigação. Cumprida a pena foi extraditado para Portugal e ouvido esta quinta-feira no Ministério Público, por suspeitas de ligações a organizações terroristas. Ficou em prisão preventiva na cadeia de alta segurança de Monsanto, em Lisboa.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) anunciou esta quinta-feira à tarde que “a sua detenção ocorreu em cumprimento de mandado de detenção europeu emitido pelo DCIAP, tendo as autoridades judiciárias alemãs determinado a entrega do detido às autoridades portuguesas”.

Em Portugal, Abdessalam Tazi seria o líder da célula de radicalização que operou entre 2014 e 2016, com centro em Lisboa, sede em Aveiro e ligações à Alemanha, Bélgica, Inglaterra, França e ao Daesh. Porém, “nunca foram recolhidas provas suficientes para o deter em território português”, acrescenta uma fonte oficial.

O jovem cúmplice de Aveiro

O jovem companheiro no apartamento de Aveiro, Hicham El Hanafi, foi detido em novembro do ano passado, em Marselha, França, suspeito de integrar um grupo de sete radicais, fiéis ao autoproclamado Estado Islâmico, que se preparava para realizar vários atentados naquele país no dia 1 de dezembro. Seria responsável por angariar o dinheiro necessário para a compra das armas a usar em vários alvos como a Disneylândia de Paris, o mercado de Natal dos Campos Elísios, o Palácio da Justiça na capital, a sede dos serviços secretos, a estação de metro de Charonne, uma igreja, esplanadas, entre outros locais.

O Expresso sabe que Hanafi continua detido em França.

De acordo com a Unidade Nacional Contra Terrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária, durante a investigação iniciada em 2015 foram colhidos “indícios que ligam dois homens, de nacionalidade estrangeira, ao terrorismo internacional”.

Abdessalam, bem vestido e com bom aspeto, andava sempre com uma mala de cabedal na mão. Circulava com à-vontade pelas ruas de Lisboa, mexia-se entre a pequena criminalidade da capital, dominava o Martim Moniz, os 400 metros da Rua do Benformoso, onde trabalham e vivem muitos cidadãos magrebinos. Demorava-se nos cafés e nas lojas à conversa, quase sempre com jovens da mesma nacionalidade e credo. Era como um professor a ensinar os alunos. Um líder a doutrinar. Muçulmano radical, propagandeava a necessidade imperiosa de se juntarem ao Estado Islâmico na Síria, levarem com eles as famílias, e aí lutarem em nome de Alá e do califado.

A personagem começou a ser notada, falada dentro da comunidade, até que alguém decidiu denunciá-lo ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “É um velho perigoso”, disseram; um radical que “lava a cabeça aos jovens”, garantiram. Entre os jovens radicalizados estava Hicham El Hanafi.

Foi assim que, no início do verão de 2015, começou a investigação à célula de recrutamento e radicalização. Enquanto as suspeitas de ligações terroristas ainda eram ténues — só a Polícia Judiciária (PJ) pode abrir inquéritos por terrorismo —, a equipa da Direção Central de Investigação (DCINV) do SEF continuou no terreno a recolher dados. A Unidade de Coordenação Antiterrorismo (UCAT), que integra elementos de todas as forças de segurança e serviços de informações, acompanhava o processo.

Abdessalam Tazi chegou a Portugal em outubro de 2013, com identificação falsa, fugido (justificou ele à chegada ao aeroporto de Lisboa) dos que o perseguiam no país natal, onde era polícia e opositor do regime. Detetado durante o controlo documental, pediu asilo evitando o retorno imediato. No mesmo voo TAP, rota Casablanca-Bissau-Lisboa, viajava Hicham El Hanafi, também com passaporte falso, também a requerer, à chegada, asilo por questões ideológicas, enquanto elemento do revolucionário Movimento 20 de Fevereiro.

Se não se conheciam até aí (não foi possível provar o contrário) passaram a ser amigos no centro de acolhimento para refugiados, em Lisboa, para onde foram transferidos enquanto decorria o processo de asilo (os requerentes de proteção internacional são autorizados a permanecer em território nacional até à decisão).

De acordo com várias fontes da investigação ouvidas pelo Expresso, Abdessalam Tazi terá começado aqui a sua função de recrutador do autodenominado Estado Islâmico, entre os magrebinos do centro. E também, fora, no coração de Lisboa. Aveiro torna-se um polo da célula terrorista com a transferência dos dois, decidida pela Segurança Social, para a Fundação CESDA (Centro Social do Distrito de Aveiro) e, mais tarde, para um apartamento no centro da cidade. Aí o recrutamento continua, tanto por Abdessalam Tazi, como pelo discípulo Hanafi. No terreno e no Facebook.

No final do verão de 2015, o SEF concluía que Abdessalam Tazi era “um radicalizador” e Hicham El Hanafi “um futuro operacional” e passou a investigação para a Unidade Nacional contra Terrorismo da PJ, que abriu oficialmente um inquérito. O SIS também ficou de olho neles. Hanafi não foi, porém, o único recrutado.

Nem o primeiro. O Expresso sabe que “vários jovens, todos de nacionalidade marroquina”, foram radicalizados pelo ex-polícia e já não se encontram em Portugal. Em Aveiro ainda vivem alguns dos rapazes que frequentavam o apartamento do 3º andar mas, dizem os investigadores, “esses que ficaram são os espertos, os que rejeitaram a lavagem” do islamita.

Asilo só para ajudar investigação

Os dois marroquinos obtiveram asilo em Portugal, mas o ok definitivo do Ministério da Administração Interna foi calculista, destinado a permitir a continuação da investigação dos requerentes, sem que estes se apercebessem que estavam a ser monitorizados.

Por não terem meios de subsistência (não trabalhavam), eram apoiados pela Segurança Social.

Ainda com a autorização de residência provisória começaram a viajar, dentro e fora do país. Durante 2015 passaram grandes temporadas na Bélgica - onde terão “intensificado a radicalização” -, na Alemanha e em França. Há também registos da tentativa de entrada de Hanafi em Inglaterra com documentação falsa.

No Sistema de Informações Schengen chegaram a coexistir pedidos para as autoridades germânicas e francesas de vigilância discreta relativa aos dois cidadãos. Mais recentemente, a PJ e o SIS avisaram as congéneres francesas para a presença de Hanafi no território e, sabe o Expresso, os serviços de informações portugueses “tiveram um papel definitivo” na semana que precedeu a detenção do marroquino.

Em Aveiro, o apartamento esteve durante meses sob vigilância da PJ e do SIS. Hoje, vive lá um homem divorciado, que nada sabe dos anteriores inquilinos.