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São Jorge: a crise financeira derrotou-nos fisicamente

Jose Ventura

“São Jorge”, filme que se estreia esta quinta-feira, é um mergulho abissal no coração dilacerante dos anos da crise e dos que mais sofreram com ela. Para dar corpo ao filme, Marco Martins não se fechou em casa a escrever, foi conhecer a realidade. Entrevista a um cineasta que sentiu a responsabilidade intelectual de não ficar calado

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

entrevista

Jornalista

Marco Martins quis fazer um filme sobre a crise e Nuno Lopes, seu ator desde "Alice” (2004), deu-lhe a ideia do boxe. O realizador acabou por mudar a forma como o seu cinema aborda o real quando sentiu “a responsabilidade de contar a história daquelas pessoas”.

A pergunta mais estúpida que se pode fazer a um autor é inquirir de onde é que lhe vêm as ideias. Mas, neste caso, quero começar mesmo pelo princípio dos princípios, porque me parece que quando partiu para este filme, sabia que queria fazer um filme, mas não sabia exatamente sobre o quê. É verdade?
Eu tinha uma ideia do tema, daquilo sobre que queria falar, sobre o que me interessava naquele momento, no fundo, qual a pulsão para fazer um filme. Nasci numa geração em que as coisas estavam muito estabelecidas, já tinha havido uma revolução, os privilégios sociais estavam conquistados — o impacto da crise de 2009, da crise americana do 'subprime', para mim, foi muito novo. E pela primeira vez, aquilo que se passava à minha volta fez-me sentir a pulsão de falar sobre um tema social.

Mas sentiu a crise pessoalmente, nas pessoas das suas relações?
Não, não — foi uma coisa mental, intelectual. Mesmo antes do “São Jorge” fiz um espetáculo nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que me marca muito. Pela primeira vez estive a trabalhar com não-atores, com os próprios trabalhadores. Estavam há dois anos parados, sem trabalhar, eram pagos para não produzir. Muitos atravessavam depressões profundas, estavam muito medicados — e, para mim, essa experiência foi muito marcante. Os trabalhadores viram, no espetáculo, um meio para falar deles próprios, dos seus problemas, do que estavam a atravessar — e foi um encontro muito feliz, muito celebratório, em que o teatro assumiu quase a natureza de um ritual.

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