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“Pode dizer-se que está tudo feito, que já existe igualdade de género, mas não é assim de forma nenhuma”

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Um pouco acima da média da União Europeia, 29% dos portugueses consideram que há situações em que é justificável forçar alguém a ter relações sexuais. Este é um dos dados do Eurobarómetro sobre violência de género, estudo que “não surpreendeu” a psicóloga Sónia Soares, técnica de apoio à vítima ligada à UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) e ao Observatório de Mulheres Assassinadas

Os dados deste Eurobarómetro são uma surpresa ou vão ao encontro da realidade que conhece?
Infelizmente vão ao encontro do que encontramos no nosso dia-a-dia e das discriminações que as vítimas nos contam. Não fico muito surpreendida.
Pode dizer-se que está tudo feito, que já existe igualdade de género, mas não é assim de forma nenhuma. As desigualdades persistem e numa lógica que traduz um entendimento, uma ‘naturalidade’ quanto a homens e mulheres não terem os mesmos direitos. Repito que há coisas positivas a registar, e que incluem algumas políticas públicas, mas repito que não é suficiente.

Olhando para os dados do Eurobarómetro, há um dado positivo - 96% dos 27.818 inquiridos consideram “inaceitável” a violência contra as mulheres - que é contrariado pelos 27% que também consideram que em certas situações é justificável forçar alguém a ter relações sexuais. Ainda não é evidente do que se fala quando se fala de violência de género?
O que eu sinto é que a mediatização de temas como a violência doméstica e outras situações de violência contra as mulheres permitiu desenvolver todo um discurso em torno da criminalização e do reconhecimento desses factos, mas continua a faltar ir além do discurso ‘politicamente correto’. Falta passar a agir em consonância com a teoria. orque independentemente do que se conseguiu - e muito foi feito -, há números que, mesmo descendo, continuam a ser alarmantes, como o facto de em Portugal terem sido assassinadas 22 mulheres este ano e outras 23 terem sofrido tentativas de homicídio. A questão da violência sexual ainda me deixa mais preocupada não só pelos dados conhecidos sobre a violência no namoro e a sua frequência, mas também pelo facto de, quando exercida nas relações de intimidade, ficar mais escondida. Há depois a ideia da vítima como provocadora, que aparece também neste Eurobarómetro [17% dos inquiridos concordam que os atos de violência são frequentemente provocados pela vítima, 11% no caso dos portugueses]. Esta é uma das razões que inibem as vítimas de pedir ajuda.

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