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Copo meio cheio ou meio vazio?

OTIMISMO Andamento da economia e confiança em Bruxelas animam governo. Mas há sempre alguns 'ses' que Duque e Ferreira Leite analisam

As reações de Manuela Ferreira Leite e de João Duque aos números do PIB no terceiro trimestre e à luz verde dada por Bruxelas ao Orçamento português

A economia portuguesa teve um crescimento acima do esperado no terceiro trimestre, revelou ontem o INE, e a Comissão Europeia suspendeu o agravamento do Procedimento dos Défices Excessivos a Portugal e deu luz verde ao Orçamento do Estado para 2017. Várias boas notícias que, no entanto, podem ter diferentes leituras. Dois dos colunistas regulares do Expresso - Manuela Ferreira Leite e João Duque - analisam os últimos desenvolvimentos. Entre a surpresa e a expectativa para o quarto trimestre, ambos relativizam o entusiasmo com o turismo.

Para Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças e ex-líder do PSD, o crescimento do PIB no terceiro trimestre do ano não pode deixar de ser visto como positivo. “Estamos perante um valor que não era expectável, mas ainda não conhecemos a composição dos elementos que contribuíram para este resultado”, sustenta. “Sabemos que teve a ver com o turismo, na componente de exportação, mas não se sabe qual foi o comportamento da importação e do consumo”, argumenta, salientando a importância de saber o porquê.

É que para Manuela Ferreira Leite, este um número é sustentável dependendo dos aspetos que o suportam, tendo em conta que “há aspetos esporádicos que podem influenciar”.
Questionada sobre se isto confirma que a estratégia do Governo está a funcionar, refere que “para atingir determinado objetivo há vários caminhos”.

Quanto à decisão de Bruxelas de não suspender os fundos europeus, a ex-ministra das Finanças considera que demos uma grande ajuda à Comissão Europeia. “Nunca se me atravessou que fossem suspender fundos sem ser um enorme descrédito para as instituições europeias”, defende considerando que “esta história dos fundos sempre foi uma fantasia”.

Expectativa para o 4º trimestre

“Foi bom, mas está dentro do que devia sair para cumprirmos. Faço parte de um grupo de estudos do ISEG e a nossa projeção estava entre 1% e 1,3%”, reage João Duque.

O economista e professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) reconhece que o turismo mudou o panorama económico, mas salienta que a expectativa é se no quarto trimestre o PIB se mantém em 1,6%. “O turismo é sazonal e estes números são ajustados à sazonalidade, mas são grandes números porque, por exemplo, num supermercado não há uma tecla para definir se o cliente é turista ou não é”, argumenta João Duque, mostrando-se entusiasmado mas preocupado com “o entusiasmo geral de que isto é a nossa salvação”.

O professor universitário refere que Portugal e o turismo estão na mão de dois operadores, a Ryanair e EasyJet. “Se decidirem que o que está a dar já não é Portugal, ou se acharem que já não têm as condições que precisam, páram de fazer voos e é um rombo brutal”, sublinha, ressalvando que este número é bom “na expectativa de que vamos continuar a acarinhar os turistas e se os portugueses não se fartarem de os receber. Se não, os turistas vão-se embora”, sustenta o economista, rematando que o crescimento a dois dígitos no turismo não é eterno.

Para João Duque, este número confirma que a estratégia do Governo não está a funcionar porque a procura interna teve uma variação negativa. “O modelo anunciado não está a funcionar, mas está a andar. Temos mais dinheiro na algibeira e o consumo não está a reagir. Funciona uma coisa boa do Governo que é cumprir as obrigações impondo restrições”, graceja, acrescentado que o Governo faz bem a gestão desta informação.

Em relação ao facto de Portugal se ter livrado de qualquer sanção por não cumprir o défice até 2015, João Duque considera que se não tivesse sido assim teria sido uma pouca vergonha. “Portamo-nos bem e eles mantêm o dinheiro para continuarmos a cumprir. Era um descaramento se não fosse assim, somos bons alunos”, conclui.