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Era uma vez a filha do vigário

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CÁ ESTOU EU. Theresa May à saída do nr. 10 de Downing Street, sua morada a partir desta quarta-feira

reuters

Rigorosa e determinada, Theresa May vai ser a segunda primeira ministra do Reino Unido, após Margaret Thatcher

Luís M. Faria

Jornalista

Theresa May já era favorita na corrida para líder do Partido Conservador quando a sua rival, Andrea Leadsom, cometeu um erro crucial. Numa entrevista, insinuou que o facto de ser mãe lhe permitia compreender melhor os problemas das pessoas comuns, e, em especial, a fazia ter “uma parte (ou aposta) muito real” no futuro da Grã-Bretanha. Por implicação, caso bem diferente era o da sua rival, uma mulher casada mas sem filhos. Ela há de ter uma série de sobrinhos, explicou Leadsom sugestivamente .

É o tipo de afirmação baixa que em muitos países já não se tolera (não no nosso, onde ainda há uns anos um líder de esquerda pôde acusar um político de direita de não perceber a realidade da vida por não ter filhos, sem indignação pública minimamente comparável). Leadsom ainda tentou explicar que as suas palavras tinham sido citadas fora de contexto. A jornalista e vários comentadores responderam, com razão, que um político profissional tem obrigação de saber o sentido e o peso daquilo que diz.

Ao fim de uns dias, a reação pública inviabilizara na prática a candidatura de Leadsom. May, a única outra candidata presente na corrida após a desistência de Michael Gove - o antigo aliado de Boris Johnson, que lhe retirara o apoio quase no fim do prazo para a apresentação das candidaturas à liderança -, ficava com o caminho totalmente desimpedido. Nove semanas de campanha interna tornavam-se de repente desnecessárias. E assim, o primeiro-ministro, David Cameron, decidiu poupar os britânicos a uma nova espera, anunciando que May lhe sucederá na chefia do Governo já esta quarta-feira.

É uma decisão coerente com a tradição britânica, onde as passagens de poder se costumam efetuar rapidamente. Com três anos de mandato ainda por cumprir, os conservadores têm uma oportunidade renovada para trabalhar a sua relação com o eleitorado, após a crise provocada pelo recente referendo sobre a União Europeia. Como os trabalhistas, eles dividiram-se em torno do assunto, permitindo a vitória do Brexit e gerando uma contestação aos líderes que levou à demissão de Cameron e ainda poderá levar à de Jeremy Corbyn, o chefe trabalhista.

Para já, os conservadores resolveram o assunto da liderança. Não que as divisões internas vão terminar. May, ao contrário de Leadsom, defendeu a permanência na UE, mas diz que o veredcto do eleitorado é para cumprir, e ela cumpri-lo-á. Porém, há muitos anos que os conservadores andam à bulha em torno do assunto. Como não é de esperar que as negociações agora a iniciar com Bruxelas sejam pacíficas, as oportunidades para conflito vão ser numerosas, para mais quando a líder é alguém que se manifestou contra uma decisão agora forçada a aplicar.

“Chamam-nos o partido mauzinho”

Filha de um vigário da igreja anglicana, Theresa May cresceu numa zona rural. Foi educada em escolas privadas e em Oxford, onde estudou geografia. O seu primeiro grande trauma terá sido a morte do pai num acidente, a que se seguiu, um ano depois, a da mãe, por doença. Os seus primeiros empregos foram no Banco de Inglaterra e como consultora financeira. Politicamente, começou como vereadora do distrito londrino de Merton. Em 1997, após duas tentativas falhadas, conseguiu fazer-se eleger para o Parlamento. Foi o ano da primeira eleição de Tony Blair, isto é, de quase década e meia dos conservadores na oposição.