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“A hipótese de um atentado em Portugal não deve alarmar a sociedade, mas também não pode ser descartada”

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MITOS. O jurista Alexandre Guerreiro lançou o livro “Islão, o Estado Islâmico e os Refugiados” para travar a desinformação

d.r.

Alexandre Guerreiro esteve sete anos na secreta portuguesa. A propósito da publicação do seu livro “Islão, o Estado Islâmico e os Refugiados” (Quimera), e dos três atentados mais recentes, na Turquia, Bangladesh e Iraque, falou ao Expresso de terrorismo, da ameaça a Portugal e das lacunas dos serviços de informação

O livro já estava pronto, impresso. O lançamento programado para o dia seguinte, no El Corte Inglès, em Lisboa. E por volta da hora do jantar surge a notícia de mais um atentado. Triplo, na Turquia, no aeroporto Ataturk, em Istambul. Cerca de 40 mortos, perto de 250 feridos. Aos órgãos de comunicação social e às conversas de rua regressam as discussões em torno do terrorismo, do Daesh, das migrações. Misturam-se conceitos e mitos, os mesmos que Alexandre Guerreiro quer esclarecer e quebrar nas 174 páginas de “Islão, o Estado Islâmico e os Refugiados”, apresentado a 29 de junho.

É uma espécie de bê-à-bá do terror. “Percebi que a desinformação que grassa em torno destes temas, principalmente na televisão, não tem qualquer conteúdo que permita às pessoas confrontarem a má informação que recebem. Ora, sendo o público em geral quem ajuda a construir e a reproduzir mitos e preconceitos, entendi que estava na hora de publicar um livro que concentrasse estes temas, sem os aprofundar em demasia mas com escrita simples capaz de, pelo menos, fazer refletir quem o lê”, explica o jurista, durante sete anos oficial de informações no SIED (Serviço de Informações Estratégicas de Defesa).

A obra está há uma semana nas livrarias. O mundo sofreu entretanto mais dois grandes atentados, no Bangladesh e no Iraque. Mais 233 mortos. O terror tornou-se mundial. Já não há países imunes, seguros, Portugal incluído. A conversa com o Expresso começou por aqui.

Portugal pode ser alvo de um atentado terrorista?
Até ao momento, Portugal não é um alvo privilegiado de grupos terroristas, apesar de ser referido em alguns discursos destas organizações. Por regra, os terroristas definem como alvos principais os Estados que consideram agressores, que possam ameaçar o cumprimento da sua agenda ou que lhes deem maior visibilidade. Esse é o caso das principais potências, onde se destacam, na Europa, a França, a Alemanha e o Reino Unido. Contudo, uma forma indireta de atingir estes alvos também pode passar por atacar os seus aliados, enquanto “alvos colaterais”. Aqui, países de segunda linha, como Portugal e Bélgica, assumem uma importância de relevo para a agenda terrorista. Neste quadro, a hipótese de ocorrência de um atentado em Portugal não deve alarmar a sociedade, mas também não pode ser descartada, sobretudo se considerarmos fatores passíveis de aumentar a exposição e a atração do nosso país para a realização de um atentado terrorista, como a colaboração em missões militares no estrangeiro com vista ao combate ao terrorismo.

Pertenceu ao SIED durante sete anos. Considera que as secretas têm os meios necessários para detetar ameaças terroristas em Portugal?
A ausência de fontes é uma das evidências que mais me preocupa. Em matéria de recursos humanos, considero que os serviços de informações são compostos por um conjunto de funcionários com competências e qualidades profissionais que os destacam e contribuem significativamente para o êxito da missão. Mas isto não basta, nem mesmo é suficiente dispor de recursos financeiros ou logísticos. Em terrorismo, o acesso a pessoas com acessos verdadeiramente privilegiados é uma tarefa bastante morosa e sensível que implica uma avaliação extremamente cautelosa do ambiente onde se encontram. Movimentam-se em meios que, por regra, são fechados ou onde a introdução de terceiros é difícil e é provável que se verifique a resistência natural das comunidades e dos grupos visados. E em Portugal o leque de alternativas é proporcional à dimensão do país, ou seja, manifestamente reduzido. Finalmente, não podemos esquecer que não é qualquer profissional de informações que tem perfil para quebrar todas estas barreiras e conseguir garantir uma fonte que interesse manter, até porque mesmo conseguindo-a há que perceber se a informação é verdadeiramente relevante ou se os serviços não correm o risco de ser intoxicados por desinformação. Casos há em que as fontes mudam o seu comportamento e deixam de colaborar de forma honesta com os serviços. No entanto, para avaliar a verosimilhança da notícia, muitas vezes, é fundamental ter outras fontes que permitam confrontar dados. Se a dificuldade em aceder a uma já é elevada, dispor de mais do que uma é, sobretudo em matéria de terrorismo, mais difícil ainda. E se a isto juntarmos os erros cometidos na orientação das fontes ou mesmo por vícios profissionais que se desenvolvem em quem tem responsabilidades de coordenação e direção, mais difícil se torna a missão dos serviços de informações. O excesso de confiança, a ingenuidade e a necessidade de apresentar resultados merecem preocupação, mais que não seja pela tentação de aceitar um rumor como facto.

Como se previnem atentados sem informação privilegiada?
As deficiências evidentes nos serviços de informações acabam por impedir e condicionar a atividade que incumbe ao SIS e ao SIED prosseguir, acabando por deixar os serviços consideravelmente reféns da partilha de informações com serviços congéneres. Fala-se bastante, nos mais diversos meios, do instituto da “cooperação”, por vezes de forma exageradamente elogiosa. A cooperação, na sua teoria e em abstrato, é uma solução ideal para quem não tem essa capacidade de acesso à informação privilegiada. Contudo, o problema prende-se com o facto de, apesar dos estímulos e dos pedidos que possam ser feitos por Portugal, a partilha das informações acabar por depender da vontade do serviço que a providencia e que a partilha no momento e com o conteúdo que bem entender. Não raras vezes, percebe-se que a informação partilhada por serviços congéneres visa mais estimular o serviço recetor a trabalhar em benefício do de origem do que propriamente responder e contribuir para as pretensões do serviço que necessita da informação. No fundo, o que pode acabar por acontecer é a colocação de um serviço de informações ao serviço de terceiros. Assim, a deteção atempada de atividade terrorista em Portugal acaba por estar dependente, muitas vezes, de informações de congéneres que, por via das suas fontes, se terão cruzado, de uma maneira ou de outra, com algum elemento com acesso a informação envolvendo Portugal. Se isto será suficiente para detetar atempadamente uma ameaça terrorista numa sociedade cada vez mais global que potencia a livre circulação de pessoas e bens, dependerá da capacidade dos congéneres e da sua boa vontade em cooperar com os nossos serviços.