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Fotografar a ausência

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VESTÍGIOS. Félix Mula trabalha sobre os restos do passado

FOTO CORTESIA DO ARTISTA E MUSEU COLEÇÃO BERARDO

O moçambicano Félix Mula é o vencedor do Novo Banco Photo 2016, com um trabalho à volta das antigas cantinas rurais que rodeiam a cidade de Maputo, hoje transformadas em ruínas

Não me preparei para ganhar, mas fiquei muito feliz.” Assim reage o moçambicano Félix Mula à notícia que ontem ao fim do dia lhe foi comunicada: tinha ganho o Novo Banco Photo 2016. Logo ele, que não se assume fotógrafo e sim artista plástico, e que não quis ter formação superior em fotografia. As suas imagens são mais do que imagens. São a camada exterior, visível, de uma história que o tempo enterrou. Lá está a parede semidesfeita, o edifício ruído, a vegetação a devorá-lo. A ruína a persistir obstinadamente no mesmo local décadas e décadas depois de ter servido para alguma coisa.

“O que me fez ir por este caminho é o ciúme, a inveja da história que não vivi e que aconteceu. De todo um tempo que já passou. Aquilo é algo que nos diz que ali houve qualquer coisa, que ali viveram pessoas”, diz ao Expresso Félix Mula. Os espaços captados nestas fotografias — expostas até 2 de outubro no Museu Coleção Berardo, em Lisboa, junto ao trabalho das outras duas finalistas do prémio, Mónica de Miranda e Pauliana Valente Pimentel — não foram escolhidos ao acaso. São as antigas cantinas rurais, lojas onde se vendia o que vinha de Maputo porque a produção local não abarcava, sabão, óleo, fósforos, roupa. Félix passava por elas, uma e outra vez, perguntando-se o que seriam. Até que um dia parou.