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“A condescendência é uma péssima maneira de abordarmos o passado”

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'HERÓI INDEPENDENTE' Após ter sido homenageado pelo IndieLisboa, Whit Stillman tem pela primeira vez uma estreia nos cinemas portugueses

GARETH CATTERMOLE/GETTY

Em conversa a propósito de “Amor & Amizade” (que chega às salas esta quinta-feira), Whit Stillman revela-se um patrício americano, educadíssimo e distante, cordial e irónico, esteta e pragmático. Um homem que discute filósofos alemães e que admira Will Ferrell. E que quer filmar Scott Fitzgerald, embora não o aconselhe à juventude

Finalmente reconhecido como 'herói independente', o americano Whit Stillman foi homenageado na penúltima edição do IndieLisboa, com uma retrospectiva das suas quatro longas-metragens (“Metropolitan”, “Barcelona”, “The Last Days of Disco” e “Damsels in Distress”). E na edição deste ano voltou a ser convidado, desta vez para apresentar “Amor & Amizade” (2016), a sua primeira estreia comercial em Portugal.

Adaptação de “Lady Susan” (1871), breve romance epistolar de Jane Austen, inacabado e invulgarmente 'amoral', a quinta longa de Stillman adequa o seu universo 'fora do tempo' a um 'filme de época' propriamente dito, sem abdicar de um gosto pela comédia cada vez mais patente.

Quando conversámos aqui em Lisboa, no ano passado, a última pergunta foi sobre aquela ideia segundo a qual as pessoas às vezes se sentem embaraçadas com a Jane Austen.
A sério?

Que se sentem embaraçadas com os comportamentos das personagens, mas que a Jane Austen é que se devia sentir embaraçada com os nossos comportamentos.
Ah, já sei, isso é de um diálogo do “Metropolitan”. Eles dizem que pensamos nos tempos de Austen como ridículos mas uma personagem comenta que ela também acharia o nosso tempo ridículo.
Estava escrito que mais tarde ou mais cedo iria adaptar um romance da Jane Austen.
Diria que sim. Mas há muitas coisas que 'estão escritas' e que nunca chegam a acontecer. Mas, de facto, era lógico. Andei em discussões sobre muitos outros projectos, e só quando encontrei esta história é que aquilo que 'estava escrito' se concretizou.

Escolheu este livro porque nunca tinha sido adaptado ao cinema?
Foram duas coisas. Por um lado, nunca tinha sido adaptado, e isso era bom. Mas também porque era um bom romance, e muito inacabado. Era bom material, tinha muitas coisas divertidas, mas permitia que eu acrescentasse outras.

E teve de mexer no texto, porque transformou uma novela epistolar numa história escorreita, com diálogos.
Isso era um desafio. Eu vi a versão inicial do argumento de “Sensibilidade e Bom Senso”, e a Emma Thompson começa logo com diálogos, e teve que dramatizar a narração mais descritiva do princípio. É muito tentador pegar nas cenas 'dramáticas' de um romance e simplesmente filmá-las, mas nós não podíamos fazer isso porque neste livro não há sequer 'cenas'. De vez em quando há uma espécie de cena, quando alguém descreve alguma coisa numa carta. Por exemplo, a cena de Sir James Martin a chegar a Churchill, que é bastante importante no filme, aparece numa das cartas de Catherine. Mas ela não descreve aquilo que ele diz.

De certo modo, a maneira como as pessoas escreviam cartas é semelhante à maneira como as suas personagens habitualmente falam: com uma linguagem formal e frases gramaticalmente completas.
Sim, havia muitas coisas com as que me sentia à vontade neste projecto. Por exemplo, em geral estou completamente de acordo com os pontos de vista de Austen, e por isso não tenho que a 'modernizar' de uma forma artificial. Um dos problemas é o facto de algumas personagens serem muito frias e amorais. Quisemos dar ao filme um pouco mais de calor humano e de humor, mas sem estragar a natureza deliciosamente amoral da história.

Gosta de outras adaptações da Austen?
Algumas nem consigo ver. Talvez sejam boas, mas não as suporto. Gosto da “Sensibilidade e Bom Senso”, e conversei com eles quando estavam a trabalhar nesse filme. E também me pareceu bastante boa a adaptação de “Orgulho e Preconceito” feita pela BBC, com o Colin Firth e a Jennifer Ehle.

Há sempre o perigo de fazer 'filmes de guarda-roupa'.
Há vários perigos. Um dos perigos é o filme se parecer demasiado com o material de origem. O outro é estar muito distante, e achar que é preciso acrescentar material mais moderno e controverso. Tenho pena que isso tenha acontecido com “Mansfield Park” [de Patricia Rozema, 1999], porque é um dos romances que mais admiro e do qual me sinto mais próximo, e até foi parar às mãos de uma boa cineasta, mas que me parece que não tinha empatia com o material.

Há por vezes uma tendência de nos acharmos mais 'modernos', e de nos sentirmos embaraçados.
E a condescendência é uma péssima maneira de abordarmos o passado.

É interessante, porque este é o seu primeiro 'filme de época', na medida em que os outros filmes eram sobre o passado recente.
Todos os meus filmes são de certo modo filmes de época. E isso meteu-me em apuros. Com o “Metropolitan” ainda me safei, porque fomos muito vagos e imprecisos, e porque as pessoas não se julgavam especialistas no universo dos debutantes em Nova Iorque. Foi uma sorte. No “The Last Days of Disco” já tive chatices, porque muitas pessoas embirraram com o filme, que era particularmente esquisito. “Damsels in Distress” foi muito criticado por estar fora de tempo, por não ser realista. Este filme pelo menos não recebeu essas críticas.

É muito diferente fazer um filme sobre uma coisa que aconteceu há dez anos ou sobre uma coisa que aconteceu há cem?
Acho que depende do facto de nos basearmos ou não em material escrito nessa época. Neste caso foi bastante fácil, porque o que ela escreveu é muito fácil de entender e de gostar mesmo hoje, e tem o charme de uma perspectiva diferente da nossa. Tem o charme mas não a opacidade. É encantadoramente diferente.

Voltemos à questão do ponto de vista da Austen. Considera-o 'amoral'.
Sim, ela de certo modo celebra duas heroínas amorais.