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“Há uma enorme desconfiança dos políticos em relação aos professores, partilhada por todas as equipas ministeriais dos últimos 15 anos”

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PROFESSOR. Paulo Guinote é um dos auores do manifesto

ANA BAIÃO

Entrevista ao professor Paulo Guinote, autor de “O Meu Quintal” e um dos 12 bloguistas que escreveram o manifesto em Defesa da Escola Pública ontem publicado

Doze autores de blogues na área da Educação publicaram na terça-feira, dia 21, nas suas páginas um manifesto em Defesa da Escola Pública. Se os contratos de associação têm marcado o debate nos últimos tempos, o tema está longe de ser o mais importante, consideram. O pior, diz Paulo Guinote, professor de História no 2º ciclo do ensino básico e um dos subscritores, é a "permanente instabilidade em quase tudo", a "manutenção do controlo burocrático sobre o trabalho dos professores" e a falta de autonomia das escolas.

Autor do entretanto extinto “Educação do Meu Umbigo”, que chegou a ser um dos mais seguidos da blogosfera, e agora do blogue “O Meu Quintal”, admite que estes e outros espaços virtuais acabaram por se tornar "locais de refúgio e catarse" para uma classe "entristecida", em "erosão simbólica e material" e em "quase em permanente tensão com a tutela".

O que levou os subscritores deste manifesto a avançar com a divulgação de um texto em defesa da escola pública?
A iniciativa partiu do Alexandre Henriques do blogue “ComRegras” que considerou que estamos num período em que os blogues poderão ter, de novo, algo a dizer em relação ao debate em torno da Educação Pública. No meu caso, aderi à ideia porque, apesar de algum ceticismo, achei interessante que se conseguisse apresentar uma espécie de plataforma comum a pessoas e projetos com bastantes diferenças, mas que encontram causas unificadoras nas suas preocupações.

No texto nunca fazem referência ao ensino privado nem à discussão em torno dos contratos de associação que tem marcado a agenda. Mas é inegável que é neste contexto que o texto surge.
O manifesto surge nesse contexto, mas não desse contexto. A ausência de qualquer referência procura sublinhar isso mesmo: a polémica em torno dos contratos de associação é um epifenómeno muito exagerado porque isso interessa a cada uma das 'partes' que se envolveram nesse conflito para unirem as suas fileiras. Em termos da Educação numa perspetiva mais ampla, há problemas muito mais importantes a tratar e o tempo não deve ser perdido em algo que, apesar do impacto mediático, não nos parece ser uma questão essencial.

No documento criticam os "cortes" no ensino público, a "deriva" de politicas educativas e a burocracia "doentia". O que é que de pior se tem feito à escola pública?
A permanente instabilidade em quase tudo, da avaliação dos alunos à contratação de professores, passando por detalhes tão pequenos mas massacrantes como procedimentos administrativos de registo do trabalho docente. A enorme diferença entre o discurso público e a ação concreta. Veja-se o que se passa em trono da promoção do sucesso escolar. Apesar da retórica dominante ser a do fim do predomínio das disciplinas 'estruturantes', no currículo a formação dada é centrada no sucesso nessas disciplinas; do mesmo modo, praticamente nada se alterou no currículo para efetivamente reforçar a área artística. A duplicação ou triplicação desses registos e manutenção de controlos burocráticos do trabalho docente, retirando-lhe praticamente toda a autonomia. O desaparecimento de uma prática de partilha na tomada de decisões ao nível da vida das escolas e agrupamentos, o que se agravou imenso com a concentração em mega-agrupamentos e a gestão baseada num modelo único e unipessoal.