Siga-nos

Perfil

Expresso

Diário

Quando os jornais dão orientação de voto

  • 333

reuters

É tradição anglossaxónica os principais jornais darem orientação de voto em eleições e referendos. Tentamos perceber se isso pode decidir uma votação que se adivinha renhida

Ana França

Ana França

Correspondente em Londres

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Enviado a Londres

Esta terça-feira de manhã entrou para o puzzle do referendo uma peça há muito aguardada: a posição do diário conservador “The Daily Telegraph” sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia. Apoiante, regra geral, do primeiro-ministro David Cameron (que defende a continuidade), o jornal confessa-se, num editorial, “desencantado com a forma como conduziu a sua campanha”, pelo que apoia o Brexit, ou seja, a saída. Logo na primeira página, numa proclamação a vermelho por cima do cabeçalho, o diário resume o seu pensamento: “Se o referendo de quinta-feira é uma escolha entre o medo e a esperança, então escolhemos a esperança”.

O jornal explica que há “um mundo de oportunidades à espera de um Reino Unido plenamente independente”, pelo que a sua orientação de voto não é um desejo de regresso a uma “era dourada britânica nas brumas do tempo” - acusação frequentemente feita aos eurocéticos -, antes o ensejo de “novo começo”. No mesmo dia, o “Guardian”, que já se sabia ser pela permanência, escreveu em idêntico cabeçalho, a branco sobre azul: “A UE encarna o melhor de nós enquanto povo livre numa Europa pacífica”. Corolário: “Votem por um país unido que estica a mão ao mundo. Votem contra uma nação dividida que se volta para dentro”.

Para continuar a ler o artigo, clique AQUI
(acesso gratuito: basta usar o código que está na capa da revista E do Expresso. pode usar a app do Expresso - iOS e android - para fotografar o código e o acesso será logo concedido)

  • Sabemos como o nosso Orçamento de Estado depende de vistos prévios de uma instituição não eleita. Como as regras são diferentes para cada Estado. Como burocratas que ninguém elegeu fizeram cair governos eleitos da Grécia e Itália para os substituir por “tecnocratas” mais mansos. Como as imposições vindas da União correspondem um programa ideológico que, apesar de não ter passado pelo crivo eleitoral, se sobrepõe aos programas dos governos. Tudo isto pode parecer normal porque nos habituamos a viver na anormalidade. Mas não é. E está a minar os alicerces das democracias europeias. Não havendo uma verdadeira democracia europeia, não aceito transferências de soberania que enfraqueçam a legitimidade democrática do poder. Muito menos quando esses poderes, por não dependerem do povo, impedem políticas sociais. E como ponho a democracia e a igualdade à frente da Europa, isso faz de mim um antieuropeísta ou, como está em voga dizer-se, um soberanista. Ao abandonarem a defesa da soberania os democratas entregaram essa bandeira à extrema-direita e à direita populista. O que quer dizer que em vez desta posição soberanista se basear na legitimidade democrática do poder, se passa a basear numa identidade nacional e étnica. E é por isso que o debate do Brexit se está a fazer em torno da imigração em vez de se fazer em torno da democracia