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Mesmo em tempos sem tempo para quase nada, o jornalismo vive

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PRÉMIO. Joana Beleza (à esquerda), Raquel Moleiro (ao centro) e Hugo Franco (à direita): três dos autores da reportagem multimédia “Matar e Morrer por Alá”, distinguida esta quinta-feira em Praga com o European Press Prize

JOÃO CARLOS SANTOS

Este texto pode parecer-lhe que é virado para dentro, a olhar para o umbigo. Não é. Explicaremos adiante porque não é. Mas vamos à premissa: três jornalistas do Expresso, que trabalharam em conjunto com uma larga equipa de programadores e gráficos, venceram um prémio europeu de jornalismo, o European Press Prize - distinção inédita em Portugal -, com o trabalho “Matar e Morrer por Alá: Cinco Portugueses no Estado Islâmico” (http://multimedia.expresso.pt/jihad). Venceram-no com uma reportagem multimédia que é longa, que é dura, que demora muito a ver e a ouvir e a ler, e fizeram-no no tempo dos gatinhos e dos vestidos e dos pandas do Facebook e das notícias supérfluo-virais . E isto é motivo de orgulho: do Expresso (que erra, sim, mas que também se supera) mas igualmente para quem acredita no jornalismo e no dever de servir melhor a profissão - que é sinónimo de servir melhor todos nós. E porque às vezes temos de abrir o coração, foi isto que aconteceu: o editor pediu aos jornalistas um texto de fé no ofício deles. Que é ainda um texto de fé em si, que nos lê-vê-e-ouve: porque acreditamos que mesmo que queira divertir-se com os gatinhos do Facebook e partilhar os pandas, e o mundo não ruirá se for o caso, é aqui, no jornalismo denso e também inovador, que encontrará os factos verdadeiramente importantes para as nossas vidas. É por isso que isto não é virado para o nosso umbigo - o texto que aí vem é de fé no jornalismo, de fé nos leitores, de fé no mundo. Porque acreditamos em nós e em si

Na época das notícias imediatas, do fait-divers, do acontecimento relatado no momento em que acontece, do tempo escasso, da primeiramão disputada ao segundo por todos os media, de exclusivos cada vez mais difíceis, o Expresso fez da descoberta dos jiadistas portugueses uma história própria, alimentada e aprofundada ao longo de mais um ano. O tempo do jornalismo de investigação é outro, é longo, não se adapta facilmente a deadlines apertados. E por isso escasseia. Mas aqui existiu. Persistência e teimosia misturou-se com cumplicidade editorial e produziu dezenas de notícias e reportagens, publicadas no semanário de papel e nos digitais Diário e Expresso online. “Matar e morrer por Alá” é a súmula de tudo: a história contada por inteiro e em todas as plataformas. Texto, vídeo, áudio, fotos.

O trabalho de terreno incluiu duas viagens aos arredores de Londres e muitas pelos arrabaldes de Lisboa, numa procura quase às cegas pelos caminhos percorridos pelos jovens portugueses que escolheram o Estado Islâmico como destino de vida e de morte. Mas a maioria da investigação fez-se em ambiente fechado: na redação, no computador, no telemóvel, ao telefone. Houve muitos dias em que as horas perdidas deram em nada. Outros de histerismo, quando mais um nome era confirmado, quando do outro lado do chat ou do WhatsApp, em Raqqa ou Alepo, alguém respondia à interpelação de Lisboa.

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