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Um candidato de mármore. De primeira qualidade

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HELLO. “Totally bananas” foi o título que um cronista deu ao seu relato do encontro informal de Donald Trump com o conselho editorial do seu jornal

REUTERS

Os encontros formais do candidato presidencial republicano Donald Trump com duas veneráveis instituições jornalísticas norte-americanas produziram resultados algo insólitos

Luís M. Faria

Jornalista

Agora que Donald Trump praticamente garantiu a nomeação como candidato às eleições presidenciais pelo partido republicano (ninguém duvida que ele terá a maioria – relativa ou absoluta – dos delegados eleitorais, e só manobras de bastidores, ou um acidente inesperado, poderão ainda afastá-lo), começam a acontecer alguns dos rituais que são habituais nestes casos. Um dos rituais é o encontro com os ‘editorial boards’ dos jornais mais importantes. Embora o termo se possa traduzir por conselho editorial, o significado português do termo não coincide com o americano.

Para compreender a importância desses órgãos nos EUA, há que ter em conta que os jornais desse país têm editoriais não assinados, e que esses editoriais, representando a posição oficial do jornal, apoiam expressamente candidatos concretos nas variadas eleições. Em princípio, um candidato tem interesse em conhecer os responsáveis pela página editorial e em responder às suas perguntas de um modo que os convença de que possui seriedade e profundidade suficientes para liderar uma nação com as responsabilidades dos EUA.

Assim terá pensado Trump, como muitos antes dele. Mas, no seu caso, o resultado foi diferente. Tão diferente que um colunista político do “The Washington Post” se sentiu legitimado para publicar uma transcrição anotada do encontro de Trump com o conselho editorial desse jornal, utilizando a expressão “totally bananas” no respetivo título.

Lealdade políticas à parte, pouca gente negará que há aspetos invulgares nas declarações do candidato. Logo à entrada, por exemplo, quando o editor da página editorial pergunta se quer ser ele a começar, Trump dá uma resposta algo insólita: “Não, a não ser para dizer que estamos a trabalhar duro, acho que estamos todos a tentar tornar o nosso país melhor, um lugar melhor, por isso temos algo em comum.

Fui tratado muito, muito mal pelo Washington Post, mas, sabe, eu acho - e sou vosso vizinho, sou vosso vizinho ali ao fundo da rua, na verdade vamos dar realmente uma conferência de imprensa lá daqui a pouco, acho que a vossa gente vai lá estar. E a propósito, Bob Costa é um excelente repórter, percebi que é um excelente repórter. Devo dizê-lo, porque tenho que vos dar o bom e o mau. Não é que ele me faça nenhuns favores, porque não faz, mas é um verdadeiro profissional.”

Trump prossegue: “Então, vamos ter uma conferência de imprensa hoje no novo edifício que está a ser feito, e o está muito à frente do prazo, porque era suposto abrir dois anos depois de setembro, e nós vamos abri-lo em setembro. Até o podíamos abrir mais cedo, mas vamos inaugurá-lo em breve, portanto vamos abri-lo em setembro, e está abaixo do orçamento, embora tenhamos aumentado a qualidade dos acabamentos substancialmente, acabamentos em mármore, qualidade muito alta de mármore, e estamos abaixo do orçamento e à frente do prazo. E eu, sabe, eu sou assim quando construo, sei como construir, sei como fazer as coisas. A GSA [a General Services Administration, que encomendou a empreitada], eu direi, a GSA tem sido muito profissional, foram muito, muito profissionais. Escolheram-nos em vez de – eu acho que tiveram mais de 100 candidatos, pode imaginar, devido à localização, mas tinham mais de 100 pessoas que se candidataram, e depois escolheram dez finalistas, e eu ganhei. Ganhei devido à força da minha declaração financeira e também por causa da força do que estávamos a propor. Temos uma conferência de imprensa hoje lá. Que horas são, Hope?”.

Trump acaba de se dirigir a Hope Hicks, porta-voz da sua campanha. Ela responde que são 2 e 15, e ele continua: “2 e 15. Consta-me que uma data da imprensa vai lá estar, vamos fazer-lhes um tour do edifício. Ainda está um pouco em bruto - por exemplo, uma data das superfícies de mármore ainda têm cobertura em gesso, e contrachapas de madeira por cima, portanto uma data de gente não vai poder ver tanto como julga. Será como um milagre, tira-se aquilo e explode, como se estivesse acabado, certo? Mas vai ser uma conferência de imprensa divertida.”
Mais tarde nesse dia, Trump ofereceu realmente aos jornalistas uma visita ao seu novo edifício. Como tantos outros aspetos da sua campanha, foi uma experiência inédita para os jornalistas que normalmente seguem a atividade política. Mas houve mais momentos da conversa com o “Washington Post” em que ele revelou a mesma tendência para ver os assuntos políticos à luz do imobiliário.

Quando lhe perguntaram sobre a China, por exemplo, disse: “Conheço a China muito bem, porque faço negócios com eles a toda a hora. Saí-me muito bem (…) Tenho o edifício do Bank of America, tenho feito alguns grandes negócios com a China. Faço negócios com eles a toda a hora, sabe, vendendo apartamentos, e, sabe, as pessoas dizem ‘oh, não é a mesma coisa ‘. O nível de… uh, o maior banco do mundo, 400 milhões de clientes, é um inquilino meu em Nova Iorque, Manhattan. O maior banco da China. O maior banco do mundo.”

“Abrir” a lei sobre difamação

No resto do seu longo encontro com o Post (foi igualmente publicada há dias uma entrevista com o New York Times), Trump reitera alguma das suas posições problemáticas em matéria de política internacional. Além de ser contra o acordo nuclear com o Irão, diz que os EUA não deviam ter devolvido o dinheiro desse país que tinham congelado. Que deviam ter ficado com muito petróleo do Iraque quando invadiram esse país (antes nós que os iranianos, é o seu argumento). Que poderão deixar de comprar petróleo à Arábia Saudita se esse país não fornecer tropas para combater o Daesh. Que o Japão e a Coreia do Norte devem poder construir os seus próprios arsenais nucleares para não dependerem dos EUA. Que usará o poder do comércio internacional para obrigar a China a fazer o que ele quer.

Algumas das suas ideias são apresentadas de forma ambígua ou confusa. Ele fala da Nato como algo bom, mas que não é assim tão bom, e do envio de 20 a 30 mil soldados americanos para combater o Estado Islâmico como uma possibilidade, mas “muito, muito difícil”. A ambiguidade será em parte intencional, pois Trump acha que não convém a um presidente ser muito previsível, e aí estará justamente uma das principais falhas de Obama.

Um assunto em que os jornalistas o pressionam é a sua proposta de “abrir” as leis sobre difamação. “Olhe, tenho tido histórias escritas sobre mim – pelo seu jornal e outros - que são tão falsas, que são escritas com tanto ódio”, explica. “Eu não sou uma pessoa má, só estou a fazer a minha coisa – estou, sabe, a concorrer, quero fazer algo que seja bom. Não é uma coisa fácil de fazer. Eu tinha uma vida boa até fazer isto, sabe. Isto é uma coisa muito difícil de fazer. Na verdade, sempre ouvi que quando se é uma pessoa muito bem sucedida não devemos candidatar-nos a um cargo. E posso compreender isso. Faz-se uma centena de negócios, e faz-se um ou dois maus – e tudo o que se lê são os maus. Não leem sobre os cento e cinquenta ótimos que tivémos. E mesmo sobre alguns que são bons, fazem-nos parecer maus.”

“Vozes treinadas, ou qualquer coisa”

Trump esclarece que não se trata de ofender a Primeira Emenda. “Não quero impedir a liberdade de imprensa, claro. A última coisa que quero fazer é isso. Mas só posso falar por – provavelmente tenho mais – quer dizer, não tenho mais publicidade do que qualquer ser humano na terra? Okay? Quer dizer, [Trump aponta para Ruth Marcus, colunista do jornal] Ela mata-me, esta – tudo okay, boa mulher.”

Reuters

A seguir dá um exemplo concreto daquilo que, no seu entender, é cobertura injusta por parte da imprensa: “Sabem que tenho multidões enormes de pessoas, e temos manifestantes. Estes manifestantes, honestamente, são gente muito má. Em muitos casos, são profissionais. Profissionais altamente qualificados. E eu alugo um pavilhão de 20.000 lugares e eles entram - porque não há realmente forma – como havemos de dizer – alguém disse ‘oh não deve deixá-los entrar’ – como é que vamos saber, sabe?”

Conta a história de um comício no Arizona onde os manifestantes começaram a protestar (“era tão alto que tivemos de parar – são tão ruidosas, estas pessoas, não sei o que fazem, têm vozes treinadas ou qualquer coisa”) e um apoiante dele se irritou. O apoiante era “um afro-americano, que acho que era da Força Aérea, li que teve uma vida impecável até agora. E ficou furioso”. Segundo Trump, o homem só reagiu fisicamente, esmurrando um manifestante, depois de ter sido insultado. Mas a televisão não mostrou a provocação, apenas mostrou a agressão, o que ele considera “cobertura muito, muito injusta”.

Garante que não defende a violência, embora reconheça que por vezes diz nos comícios que gostaria de esmurrar pessoalmente os manifestantes, e se tenha oferecido para pagar as despesas judiciais dos apoiantes que o fizerem. Ele esclarece que apenas prometeu considerar essa possibilidade, mas ainda não decidiu.

Em relação a um manifestante que o irritou especialmente, diz que “tinha uma voz como Pavarotti“. “Eu disse que se fosse o seu manager ter-lhe-ia dado muito dinheiro a ganhar, porque ele tinha a melhor das vozes. Quer dizer, o gajo era incrível, falava tão alto. E estava a bater em pessoas. Estava a dar murros e a gritar – tínhamos de o parar.”