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Há mais portugueses com cancro tratados só no privado

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ANA BAIÃO

Os grandes hospitais privados de Lisboa estão a tratar, em média, um total superior a 3000 doentes oncológicos por ano. Comodidades e rapidez no acesso são alguns dos atrativos

Os hospitais públicos já não são a única opção para os portugueses que precisam de tratamento para doenças muito graves, como o cancro. Em Lisboa, por exemplo, as três maiores unidades privadas — CUF Infante Santo, CUF Descobertas e Hospital da Luz — recebem cada vez mais doentes e estão neste momento a concorrer à classificação como centros de referência para vários tumores ao lado do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Anualmente, em média, os dois hospitais CUF e a Luz tratam mais de 3000 doentes, incluindo particulares que pagam tudo do seu bolso. Nuno Miranda, médico do IPO de Lisboa e diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas da Direção-Geral da Saúde, reconhece a crescente opção por cuidados fora do serviço público de saúde. “Entre os seguros que cobrem estes cuidados, os doentes oncológicos tratados são significativos. Antigamente notava-se apenas nos casos que necessitavam de cirurgia, mas agora o número de tratamentos não é despiciente.”

Conforto e rapidez

Os privados ganham no conforto e na resposta mais célere, não só no acesso inicial ao médico como no intervalo entre consultas ou na realização de exames, por exemplo. Quanto à qualidade do tratamento propriamente dito, como a quimioterapia ou a cirurgia, Nuno Miranda não reconhece mais-valias significativas. “A maioria dos médicos que trabalham no privado também trabalham no setor público e não temos ideia de que os cuidados sejam muito diferentes, incluindo a inovação em medicamentos que, de facto, fazem diferença”, afirma o oncologista.

As unidades CUF na capital, “em média, tratam integralmente 1500 novos doentes por ano nas diferentes patologias oncológicas” e “com taxas de sobrevida alinhadas com as melhores referências nacionais e internacionais”, adianta Dirk Arnold, coordenador clínico estratégico da oncologia do grupo. “Por norma, os doentes procuram-nos para o seu tratamento integral e são geralmente pessoas que são acompanhadas desde sempre nas unidades CUF e que por isso conhecem a nossa qualidade”, explica o oncologista que trocou a Alemanha por Lisboa.

Entre os doentes oncológicos que vão à CUF, há ainda os que só recorre a este privado “por altura do diagnóstico e que optam por tratar-se connosco” e ainda quem “procura uma segunda opinião ou determinados procedimentos, nomeadamente para radiocirurgia de Gamma Knife, que oferece uma das mais avançadas técnicas de tratamento de lesões no cérebro, na região craniana e nas zonas altas da coluna cervical”, afirma Dirk Arnold.

O Hospital da Luz diz “diagnosticar por ano, em média, 1600 casos de cancro”, adiantando que “o Centro de Oncologia do hospital é procurado para todo o tipo de cuidados: diagnóstico, estadiamento, todos os tipos de tratamentos oncológicos para adultos e, naturalmente, o seguimento da sua condição de doença”, explica o gabinete de comunicação.

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SNS socorre quando o plafond esgota

Conhecedor da área oncológica, o responsável pela estratégia nacional para o cancro faz questão de salientar que nas unidades privadas não há a mesma acessibilidade para todos. Isto é, “não é igual ser beneficiário da ADSE ou de um seguro de saúde comum, e mesmo entre estes há diferenças nas coberturas e mesmos pequenas percentagens podem ser muito significativas num contexto de doença oncológica”.

A apólice de seguro ou a capacidade económica de cada doente acaba por ser decisiva e não raras vezes há necessidade de terminar no SNS o que se começou no hospital privado. “Continuamos a ter problemas significativos de doentes a quem se lhes acaba a capacidade financeira e vêm para o SNS, às vezes já em fases terminais”, afirma Nuno Miranda. Mas os privados garantem que o doente é informado sobre os custos esperados antes de iniciar o tratamento.

“Existe um procedimento estabelecido nos hospitais CUF de acordo com o qual é feita uma estimativa integral do tratamento da doença. Só nos casos em que os doentes estão suportados e confortáveis é iniciado o tratamento”, garante o coordenador clínico estratégico da oncologia do grupo. Nos restantes casos, “nós médicos CUF referenciamos o doente para um hospital do SNS e desta forma não existem alterações na estratégia terapêutica, interrupções em tratamentos de longa duração nem fragilização do doente e da família, que são muito relevantes em oncologia”, sublinha Dirk Arnold.

Garantia semelhante sobre a informação prévia do doente é assumida pelos responsáveis do Hospital da Luz. “Antes de iniciar os tratamentos oncológicos, o hospital fornece aos doentes uma estimativa compreensiva do custo do seu plano terapêutico, permitindo-lhes fazer atempadamente a escolha pelo tratamento na Luz ou noutra unidade hospitalar. A articulação, contacto e partilha de conhecimentos existentes entre os nossos profissionais e as várias entidades hospitalares desta área asseguram que, mesmo quando opte por não fazer o tratamento no Hospital da Luz, se procure que o doente seja orientado e a unidade que o vai receber devidamente preparada para o efeito.”

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Centros de referência por tumor

As duas unidades, CUF (com dois hospitais) e Luz, colaboram ainda com o SNS em outras áreas, fazendo até já parte do Registo Oncológico Regional do Sul (ROR-Sul), articulado com o IPO de Lisboa — Lisboa tem ainda outra unidade privada de elevada dimensão, o Hospital dos Lusíadas, mas não respondeu ao Expresso e ainda não disponibilizada números para a rede ROR. “Em certos campos é necessário cooperar de perto, como na qualidade do tratamento do cancro e nas atividades de investigação. Um exemplo disso, é a recente candidatura dos Hospitais CUF Lisboa a três Centros de Referência de Patologia Oncológica Diferenciada”, revela o responsável das unidades.

A criação de centros de referência teve início em julho do ano passado para um número limitado de neoplasias, por exemplo cancros do testículo, esófago, cólon, reto, entre outros. “São tumores, alguns raros, que exigem técnicas específicas, por exemplo de cirurgia, e para as quais é preciso ‘ter mão’”, diz a diretora do ROR-Sul, Ana Miranda.

Os números mais recentes disponibilizados pelo ROR-Sul, mostram que o IPO de Lisboa foi o hospital com mais processos recebidos relativos a doentes com tumores malignos do testículo (25), seguido pelas CUF (14), pelo Centro Hospitalar de Lisboa Norte, que inclui o Santa Maria (8); e pela Luz (5). No cólon, por exemplo, o Centro Hospitalar de Lisboa Central (que integra o São José) liderou com 256 casos e os privados chegaram a 161 e a 107, respetivamente nas CUF e na Luz. Ou seja, os privados têm já uma participação relevante no tratamento de doentes, pelo menos nestes tumores malignos.

O responsável pela programa nacional para o cancro explica que “a estratégia de ter centros de referência é indiscutível, necessária e fundamental”. Nuno Miranda sublinha que o modelo ainda está em aberto e pode passar pela existência de centros modelo, que dão apoio aos restantes, ou por centros de tratamento exclusivo, em que são eles os únicos a trata a patologia. Seja qual for o desenho final, “os centros vão ser sujeitos a avaliação periódica e a toda rede a criada pode alterar-se”.

Nuno Miranda garante: “Os nossos resultados são bons. E são bons em termos europeus.”