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Nove em cada 10 alunos que chumbam são de famílias mais carenciadas

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ATRASOS. Portugal é o país onde mais se chumba no início do percurso escolar

nuno fox

Estudo mostra que Portugal é o país da Europa em que existe maior associação entre reprovações e o estatuto socioeconómico das famílias. Mas a situação lá fora demonstra que essa relação não é uma inevitabilidade

Que em Portugal se chumba mais do que na média dos países da OCDE já se sabia. Que as retenções, regra geral, não fazem os alunos melhorar também, pelo menos avaliando pelo desempenho dos estudantes nos testes internacionais do Programme for International Students Assessment (PISA).

O que talvez não se soubesse e agora fica bem demonstrado no estudo “Chumbar melhora as aprendizagens?” é que Portugal é de todos os países da Europa aquele em que o chumbo mais está associado a dificuldades socioeconómicas dos agregados familiares.

Os números falam por si: 87% dos que reprovaram pelo menos uma vez ao longo do seu percurso no ensino básico vêm de famílias de estratos sociais, económicos e culturais abaixo da média do país, acontecendo assim uma dupla penalização. Podia pensar-se que esta relação é quase uma inevitabilidade. Mas os dados também mostram que a situação varia de país para país.

Na Holanda, por exemplo, as taxas de retenção até aos 15 anos são igualmente elevadas: 28% lá, 34% cá. No entanto, o fenómeno afeta todos quase de igual forma e existe praticamente uma paridade de chumbo entre classes sociais mais e menos abastadas. Já em Espanha, a situação está mais próxima da de Portugal, com cerca de 75% dos estudantes que ficam retidos a apresentar rendimentos abaixo da média. Mas, ainda assim, abaixo do valor recorde de 87% em Portugal.

Ou seja, concluem os investigadores do aQueduto, projeto de investigação conjunto entre o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Portugal “chumbar o ano está fortemente associado ao estatuto socioeconómico e cultural das famílias”. E “as escolas parecem estar a ser incapazes de fazer um trabalho de nivelamento de oportunidades, principalmente se nos lembrarmos que é até ao 6º ano que a maioria dos chumbos acontecem”.

Este estudo está hoje em debate no Conselho Nacional de Educação, em Lisboa, a partir das 18h00.

Maioria dos que chumba não recupera

Partindo dos dados da retenção e cruzando com os resultados que os alunos obtiveram a Matemática no PISA 2012 (o maior estudo internacional na área da Educação, que se realiza de três em três anos e testa a literacia dos alunos até aos 15 anos), também se constata que os chumbos não fazem os alunos recuperar os atrasos que evidenciam.

As classificações que os estudantes obtiveram no PISA 2012 são inferiores à média de referência (500 pontos) e inferiores à média nacional, que é de 487. Ainda “mais preocupante”, notam os autores, é verificar que dos alunos portugueses que chumbam apenas 14% mostram “sinais de recuperação”. Quer isto dizer que 86% não conseguem ir além dos níveis 0, 1 e 2 nos testes PISA na componente relativa à literacia matemática, permanecendo muito atrás dos seus colegas que nunca chumbaram.

Na verdade, em todos os países analisados, os alunos que repetiram pelo menos um ano têm sempre, em média, piores resultados do que os colegas que nunca chumbaram. Só que em Portugal essa diferença atinge os 100 pontos na escala usada pela OCDE, o que equivale a mais de dois anos de atraso na escolaridade.

“Os países que melhor conseguem mitigar essa diferença são a Irlanda e a Holanda, onde a diferença entre os resultados dos que chumbaram e não chumbaram é de cerca de 50 pontos”, assinala-se no estudo. Na Holanda, em particular, 50% dos que repetem um ano atingem pelo menos o nível 3. Em Portugal acontece com 14%. Há outros países onde os níveis de recuperação ainda são mais baixos. Mas como têm taxas de retenção baixas, os efeitos a nível global são menores.

Portugal lidera retenções

De resto, os dados do PISA mostram uma divisão clara entre os sistemas educativos onde repetir um ano é prática mais ou menos corrente ou rara. Portugal não só integra o primeiro lote, como é líder. “Portugal é o país onde mais se chumba no início do percurso escolar: 23% dos alunos repetiram pelo menos uma vez até ao 6º ano e 20% chumbaram no 3º ciclo”. No total, até aos 15 anos, chumbar é uma realidade para um em cada três alunos portugueses.

A questão dos chumbos tem sido muito debatida, também pelos custos que representa para o sistema manter um aluno mais um ano na escola. “A despesa direta é de cerca de 7000 dólares (6.500 euros). A este custo devemos somar o custo indireto que provém de perdas a nível de salários, maior tempo de dependência da segurança social ou outros”, lembram os autores do estudo.