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ESCRITOR Os livros de Karl Ove Knausgård tornaram-se um acontecimento literário nos EUA

FOTO DAVID SANDISON/EYEVINE

Nos Estados Unidos é uma estrela pop. Na Escandinávia devoraram-no. Karl Ove Knausgård tornou-se o herói da sua própria vida, roubando a Hitler o título “Mein Kampf”, a Proust a empreitada. Em seis volumes e milhares de páginas de confissões, esvaziou-se na memória. No final, sobre a sua vida e a da sua família,foi pouco o que este norueguês deixou por dizer e poucas são as hipóteses de escaparmos à sua escrita (entrevista publicada originalmente na Revista E de 9 de maio)

Por alguma razão imaginei uma estação grande, fechada, mas ao colocar o pé na cais de Ystad deparo-me com um deprimente apeadeiro. A visão espraia-se de tal modo sobre a praça que o primeiro ser ao qual dirijo o olhar é um homem alto que atravessa uma passadeira. “Seria sorte a mais ser ele”, inquieto-me. Inspeciono o resto da praça. Não é o único homem, mas não tenho dúvidas. Presumo que foi o facto de ele ser muito alto, de o cabelo ser branco e de ter um certo modo de andar que instintivamente me levou a olhar para ele. Estou meia hora atrasada. Para início de conversa posso dizer-lhe que do lugar de donde venho é difícil imaginar que os comboios suecos não são pontuais. Ele entra no cais, pernas altas, passos largos, as costas encurvadas, como sempre são as das pessoas muito altas. Sei que procura uma desconhecida. Sorrio-lhe. Funciona, porque de imediato me devolve o olhar. Levanto o queixo, olho para cima, o rosto é acolhedor, e a voz calma anuncia-me que já decidiu tomar conta da situação: “Vamos no meu carro até um café junto ao mar que não é longe do lugar onde vivo. Sempre fica a conhecer a região!” Tenho de confessar que tudo neste acolhimento é mais do que eu esperava de um homem que imaginava esquivo e até misantropo. E é, nesse preciso momento, que me assusto. Recordo-me de tudo o que ele já escreveu sobre outros jornalistas e percebo que a partir daí não estou a salvo do seu escrutínio. A pergunta que se segue, “Tem filhos?”, revelará a curiosidade de Knausgård e uma certa habilidade para a conversa de circunstância que nem o próprio reconhece. Ate ao café ainda me falará dos campos agrícolas de Ystad, onde os suecos gostam de passar o verão, das praias com águas de temperaturas superiores a 20 graus, da filha mais nova e do equilíbrio que esta veio estabelecer entre os irmãos. Percebo que, por mais páginas que leia, e já li pelo menos duas mil, não saberei quem é este homem que ora me enfada com longas descrições sobre a vidinha, o quotidiano das fraldas e das esfregonas, sem fuga nem elipses, ora me eleva no doce prazer do desafio intelectual... Com ele tenho dado voltas num carrossel, oscilado entre reflexões sobre a arte, a procura desesperada de uma identidade, o sentido da vida, a inaceitabilidade da morte, o amor e as constatações mesquinhas e inconfessáveis que, em nossa defesa, seria melhor nem as articular. Karl Ove Knausgård é o homem que não guarda segredos. O escritor que renuncia à possibilidade de ter uma vida dupla para se colocar a contas com a infância, o pai alcoólico, a mulher bipolar, as quatro crianças pequenas. A família de onde vem. A família que está a construir. É aquele também que está pronto a desafiar a norma social que nos sugere discrição e que não dá qualquer crédito à vergonha. Com ele, “a vida como ela é” desfila à nossa frente em seis volumes.

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