Siga-nos

Perfil

Expresso

Diário

O homem que mudou o jogo que amamos

  • 333

Há 20 anos, o futebol mudou para sempre: acabou-se o limite para os estrangeiros e apareceram as transferências a custo zero

O MARCO DE MARC. Jean Marc-Bosman na altura em que levou o caso ao Tribunal Europeu

O MARCO DE MARC. Jean Marc-Bosman na altura em que levou o caso ao Tribunal Europeu

REUTERS

Há quem atribua a Cruijff a invenção do futebol moderno, se por futebol moderno entendermos o futebol que se joga na velocidade e no passe, na tabela e na desmarcação, sempre ou quase sempre ao primeiro toque. É bonito dizer-se isto e fica bem dizê-lo - e, lamento, não é verdade. O inventor do futebol moderno não foi o holandês genial, elegante e bem falante, mas um belga canastrão, comum e sem charme chamado Jean-Marc Bosman. Neste texto, Jean-Marc será tratado por Bosman ou pelo nome pouco original que deram ao caso que ele originou: "O Caso Bosman".

E, bom, isto foi "O Caso Bosman":

Em 1990, o contrato de Bosman com o RFC Liège estava a acabar e o patrão chegou-se ao empregado para lhe dizer o que este iria receber para continuar: 30 mil francos belgas, um terço do que ganhara entre 1988 e 1990. Bosman, que não tinha muito jeito e já tinha 26 anos, achou que não devia aceitar a proposta, porque do USD Dunkerque, da segunda divisão francesa, chegara uma oferta simpática. Acontece que, naquele tempo, um tipo sem contrato não podia pular de um clube para outro clube sem que o segundo pagasse uma indemnização ao primeiro. O Liège, claro, exigiu dinheiro ao USD Dunkerque; e o USD Dunkerque, claro, não quis dar esse dinheiro. Bosman foi à luta e interpôs uma ação contra o Liège num tribunal belga - e perdeu. Bosman, depois, levou o caso para o Tribunal de Justiça da Comunidade Europeia - e ganhou.

 GANHÁMOS! Bosman (à direita) e o seu advogado, Jean-Louis Dupont, depois de o Tribunal Europeu de Justiça lhe ter dado razão, no histórico acordão de 15 de desembro de 1995

GANHÁMOS! Bosman (à direita) e o seu advogado, Jean-Louis Dupont, depois de o Tribunal Europeu de Justiça lhe ter dado razão, no histórico acordão de 15 de desembro de 1995

reuters

A 15 de dezembro de 1995, Bosman saiu porta fora daquele edifício cor de tijolo no Luxemburgo e disse: "A lei da selva acabou de ser abolida." A partir daquele dia, deixou de haver limite para estrangeiros nos planteis dos clubes europeus e os futebolistas tornaram-se livres para assinar com quem querem a partir do momento em que o contrato deles acaba.

E esta foi a maior invenção do futebol moderno, que veio a render muitos milhões (já lá iremos) ao jogo e aos jogadores, mas muito pouco ao seu criador: Bosman passou o resto da sua carreira em clubes menores, até da Ilha da Reunião, tornou-se alcoólico, esteve preso e cumpriu serviço comunitário por ofensas corporais, e é recordado para entrevistas em datas redondas, como esta, em que se celebram 20 anos sobre o este caso. O seu caso.

O QUE MUDOU?

Há vários jogos que mostram o que é o futebol pós-Caso Bosman, mas nenhum deles é tão paradigmático quanto a final da Liga dos Campeões de 2010. Porquê? Porque quem a venceu foi o Inter de Milão, que é de Itália, mas que naquela noite se apresentou em campo sem um futebolista italiano: Júlio César, Maicon, Lúcio, Samuel, Chivu, Zanetti, Cambiasso, Sneijder, Eto'o, Milito e Pandev. Quatro argentinos, três brasileiros, um holandês, um macedónio, um romeno e um camaronês; e um treinador português.

UM MARCO. Em 2010, o Inter, treinado por Mourinho, apresentou-se para a final da Liga dos Campeões sem ter um único futebolista italiano

UM MARCO. Em 2010, o Inter, treinado por Mourinho, apresentou-se para a final da Liga dos Campeões sem ter um único futebolista italiano

getty

Lembra-se do Arsenal 2003-04 que não perdeu um jogo? Tinha apenas dois ingleses no onze, Ashley Cole e Sol Campbell, e Campbell chegara aos gunners numa transferência livre, em 2001. E, como Sol Campbell, houve muitas estrelas a custo zero, como Pirlo (Juventus, em 2011) ou Ballack (Chelsea, em 2010). E, por cá, lembra-se do Benfica jogar em Instambul só com estrangeiros, em 2011? Ou daquele golo de André Gomes que o tornou no único português a marcar no clube que se sagrou campeão nacional em 2013-14?

Depois de Bosman, todas as regras se inverteram, porque deixou de haver limite para contratar estrelas. É um círculo e o ciclo da vida: as estrelas têm visibilidade, a visibilidade atrai a televisão, com a televisão vêm os patrocínios, os patrocínios trazem o dinheiro, e o dinheiro compra as estrelas. Para os espectadores e para os fãs, o beneficio foi extraordinário, porque apareceram equipas all-star, como os históricos Barcelona e Real Madrid, ou os novos ricos PSG e Manchester City, que juntam Neymar-Suàrez-Messi, Ronaldo-Benzema-Bale e Ibrahimovic-Cavani-Di María num mesmo lugar. Este é o lado bom desta história - mas há sempre um lado mau.

No reino dos ricos e do cada um por si

Só os ricos conseguem pagar salários milionários e a livre circulação trouxe a livre negociação, desorganizada e desenfreada, cada um por si, e o teto salarial continua a subir um andar a cada ano que passa - se querem um exemplo, reparem que Chris Sutton, em 1994, era o mais bem pago em Inglaterra, com 10 mil libras/semana (13.800 euros), e que, Roy Keane, apenas seis anos depois, multiplicou por cinco esse ordenado quando renovou pelo Manchester United [os dados são do “Guardian”].

Obviamente, os clubes ricos tornaram-se mais vencedores e os que vencem mais também enriquecem mais, na razão inversa de quem é pobre continuará pobre porque tenderá a perder cada vez mais.

Antes de Bosman, os emblemas menos capazes contavam que os seus miúdos crescessem para depois poderem vendê-los mais caros; e, sobretudo, contavam com a limitação de estrangeiros para que os seus melhores futebolistas não saíssem porta fora porque só havia lugar para três 'forasteiros' em cada equipa do Velho Continente. Agora, os mais pequenos têm de antecipar o futuro, 'forçar' contratos a cinco anos com cláusulas de rescisão astronómicas (ou puramente simbólicas) para não ficarem de mãos a abanar. E as conversas já não são como antes, frente a frente entre presidente e jogador; agora, há sempre alguém pelo meio.

O "Caso Bosman" também pôs em cena outra personagem, que é o do agente de futebol. Quantas vezes já se ouviu que Ronaldo, Messi ou Neymar estão descontentes ou abertos a um futuro fora do Real Madrid e do Barcelona? Algumas, e quase todas elas partem de alguém que conhece alguém que conhece o agente. E o agente sabe que no ano seguinte (ou daí a dois anos) o contrato com o clube acaba e é preciso valorizar o ativo, pô-lo no mercado.

Se o clube detentor do passe quiser renovar o vínculo, terá de ceder porque poderá perder o craque para outro lado qualquer a custo zero - isso é má gestão e ninguém quer ser o tipo que deixou fugir Ronaldo sem receber um cêntimo. Que é algo que nunca acontece ao agente, que recebe sempre alguma comissão, mesmo nas transferências a custo zero. Porque há um preço a pagar por se convencer um jogador a trocar de um sítio para outro - às vezes, quem paga é o futebolista que se vê fora da equipa quando se descobre que, no ano seguinte, seguirá para o clube rival àquele onde está empregado.