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Winston Churchill. A falta que ele nos faz

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Reacionário, racista e chefe militar desastrado? Ou mente visionária, estadista destemido e irredutível defensor da liberdade? A história de Winston Churchill não tem uma só dimensão. Mas há lições a retirar do seu desempenho político, 50 anos depois da sua morte. São lições a reter por políticos ou por quem tem ambições políticas. Mas são, sobretudo, lições a reter por si, caro eleitor - texto publicado na Revista do Expresso no dia 10 de janeiro deste ano

FILIPE RIBEIRO DE MENESES

Fez este ano 50 anos que morreu Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que em 1940 desafiou Hitler, recusando-se a aceitar - perante o espanto e a incompreensão de grande parte do mundo - a inevitabilidade de uma vitória nazi.

Terá a longa carreira de Churchill, que passou mais de meio século na Câmara dos Comuns, servindo em inúmeros governos, alguma lição para os políticos de hoje? Numa altura em que a Europa sofre - ouve-se dizer praticamente todos os dias - os efeitos de uma terrível crise de liderança, onde estão os herdeiros de Churchill?

Onde estão os homens e mulheres visionários, cultos, corajosos e generosos capazes de nos arrancar a uma crise que mina a confiança nos destinos do continente e da nossa civilização comum? Este género de especulação nasce, em grande parte, de uma tremenda simplificação da vida e obra de Churchill, através da qual uma longa carreira política é reduzida a um instante, sem dúvida sublime, mas breve: o da resistência a Hitler no período entre a queda iminente da França, em maio de 1940, e a invasão alemã da União Soviética, catorze meses mais tarde.

Quando muitos governantes britânicos - começando por Lord Halifax, outro possível sucessor de Neville Chamberlain em 1940 - se mostravam tentados pela oferta de paz de um Hitler aparentemente invencível, Churchill ousou resistir, contando, por um lado, com a proteção oferecida pelo Canal da Mancha, a armada e a RAF, e, por outro, com a ambição desmesurada do líder nazi, que o levaria inevitavelmente a criar novos inimigos.

Churchill mobilizou os recursos do Império Britânico e pô-los ao serviço da metrópole britânica e, através dela, de grande parte da humanidade; empolgou os seus concidadãos, graças a um talento literário indiscutível, que lhe permitiu compor alguns dos discursos mais brilhantes do século XX, que ainda hoje nos comovem; defendeu a sua ilha e, quando possível, e por todos os meios ao seu dispor, atacou, até que, lado a lado com a URSS e os Estados Unidos, a Grã-Bretanha triunfou sobre a Itália, a Alemanha e o Japão.

Porém, a Segunda Guerra Mundial representa, no cômputo geral da biografia de Churchill, apenas um episódio (recheado ele também de dissabores). Os outros são menos abonatórios - e custa a crer que um político, no mundo de hoje, lhes sobrevivesse.

DESCONTRAÍDO. Sem charuto, sem sapatos e sem meias, Winston Churchill caminha com a mulher na praia, em Hendaia, no país basco francês, dias antes da conferência de Potsdam, em julho de 1945, na qual seria decidido o futuro da Alemanha

DESCONTRAÍDO. Sem charuto, sem sapatos e sem meias, Winston Churchill caminha com a mulher na praia, em Hendaia, no país basco francês, dias antes da conferência de Potsdam, em julho de 1945, na qual seria decidido o futuro da Alemanha

BETTMAN/CORBIS

Churchill mudou de partido político duas vezes, passando de conservador a liberal ainda antes da Primeira Guerra Mundial e voltando atrás durante os anos 20. Nas duas ocasiões pensou que o partido que servia estava prestes a desaparecer; enganou-se da primeira vez mas não da segunda. Enquanto ministro da Marinha, em 1914-15, foi o grande impulsionador da campanha dos Dardanelos, uma hecatombe militar da qual resultaram o afundamento de vários couraçados e a morte de centenas de milhares de soldados britânicos, irlandeses, australianos e neozelandeses.

Para se redimir regressou à sua profissão original - oficial do exército - e partiu para a frente de combate, munido de uma banheira e largos estoques de brandy, mas permaneceu apenas alguns meses nas trincheiras, tendo decidido voltar ao palácio de Westminster e ao seu lugar de deputado, a partir do qual, explicou sem um pingo de modéstia, poderia contribuir melhor para a vitória. Regressou ao Governo pela mão de David Lloyd George e, uma vez terminado o conflito, foi promovido a ministro da Guerra e do Ar.

Interveio sem proveito na guerra civil russa e enviou forças paramilitares para a Irlanda - os tristemente célebres black and tans - cuja independência tentou (sem sucesso) impedir. Perdida essa batalha, tentou defender o resto do império com unhas, dentes e sarcasmo.

Gandhi foi, muito mais do que Hitler, o grande inimigo de Churchill. Para este, o império não podia ser de forma alguma beliscado, sobretudo por alguém que, educado na metrópole, lhe virasse decisivamente as costas. Alguns dos comentários mais reacionários, racistas e retrógrados de Churchill foram destinados ao Mahatma.

Nos anos 20, enquanto ministro das Finanças, Churchill reconduziu a libra esterlina ao padrão-ouro, atribuindo-lhe o mesmo valor que tinha antes de 1914. Esta medida resultou numa tremenda sobrevalorização da moeda. Incapaz de competir nos mercados externos, a indústria britânica retraiu-se e o desemprego aumentou assustadoramente. A greve geral de 1926 foi uma consequência direta desta decisão errada de Churchill.

Nos anos 30 Churchill remou contra a maré do apaziguamento, uma política profundamente popular num país ainda em luto depois da Primeira Guerra Mundial. Tinha razão Churchill, sabemo-lo hoje, mas a sua atitude prolongou-lhe o isolamento político, quer dentro dos Comuns (e do próprio partido Conservador) quer junto da população em geral. Regressou ao Governo no início da Segunda Guerra Mundial, voltando a sobraçar a pasta da Marinha, como fazia em 1914. Os dissabores não tardaram. Ao afundamento do "Graf Spee", couraçado de bolso, na Batalha do Rio da Prata, respondeu a Alemanha com o afundamento, por um submarino, do couraçado "Royal Oak", na própria base naval de Scapa Flow, na Escócia.

ELEIÇÕES PERDIDAS

Historiadores e biógrafos de Churchill esforçam-se por relativizar os erros de Churchill (quer culpando outros intervenientes quer tentando demonstrar que boas ideias foram mal aplicadas por subordinados) e atenuar-lhe a falta de popularidade, mas em geral ignoram um ponto crucial: esta capacidade de sobrevivência política, que nos parece hoje em dia invulgar, senão mesmo incompreensível, deveu-se em grande medida ao facto de Churchill pertencer a uma elite liderante muito mais restrita do que a atual, sobretudo no partido Conservador.

Não selecionar como candidato a deputado Winston Churchill, primo do duque de Marlborough, com toda a sua experiência, a sua projeção nacional e as suas ligações sociais era impensável para a liderança do partido, por muito que desconfiassem dele.

Pôde Churchill assim eternizar-se nos Comuns, fazendo a sua travessia do deserto nos anos 20 e 30 sem que a sua relevância fosse questionada publicamente. Nenhum líder partidário hoje em dia agiria da mesma forma para com um deputado rebelde.

Talvez não seja por isso surpreendente que, uma vez a guerra ganha, em 1945, o partido Conservador, apresentando-se ao país pela primeira vez sob a batuta de Churchill, tenha perdido as eleições. Uma população agradecida mas exausta quis virar a página e construir um Reino Unido mais solidário, não vendo em Churchill a figura capaz de conduzir essa tarefa.

Este sobreviveu politicamente a mais uma derrota, assistindo assim à derrocada do domínio britânico na Índia e no Médio Oriente a partir das bancadas da oposição. Assistiu também ao nascimento do que ele apelidou de "cortina de ferro", a barreira ideológica que dividiu em dois a Europa. Conseguiu regressar ao poder em 1951, opondo-se então a outras rebeliões nacionalistas num império já em plena desagregação. Reformou-se a tempo de evitar a crise do Suez, que destruiu a carreira do seu sucessor, Anthony Eden.

Por outras palavras, a popularidade corrente de Churchill resulta em grande medida de uma ignorância da totalidade de uma carreira cujos baixos, merecidos ou não, foram pelo menos tão numerosos quanto os altos. Resulta essa popularidade da ideia de que Churchill esperou pacientemente a sua vez, falando verdade a uma nação que não o quis ouvir até que, de costas contra a parede, a espada nazi apontada ao pescoço, lhe foi dada a oportunidade de intervir decisivamente, revelando todo o seu génio.

Churchill, empregando a terminologia típica da direita radical norte-americana, foi assim um maverick, um lobo solitário, um espírito livre e indomável que resistiu à tentação da popularidade ou do que é, em cada época, politicamente correto, constituindo, por si só, uma reserva da qual a nação beneficiou quando mais ninguém lhe pôde acudir. Daí, por exemplo, o mais recente livro sobre Churchill, "The Churchill Factor", ter sido escrito por um (alegado) maverick britânico, Boris Johnson, o despenteadíssimo mayor de Londres, antigo diretor da revista "Spectator" e candidato não-assumido à liderança do partido Conservador.

Para Johnson, a vida e carreira de Churchill demonstram que um homem, por si só, é capaz de fazer a diferença: sem Churchill a Grã-Bretanha ter--se-ia rendido em 1940 e Hitler teria ganho a guerra.

Deixando de lado o desejo de Johnson de se apresentar como um herdeiro de Churchill, posicionando-se na corrida à sucessão de David Cameron como um outsider intelectual, carismático e capaz de falar sem rodeios, quer à imprensa quer ao homem comum, devemos simplesmente aceitar esta visão redutora, hoje em dia tão arreigada, de Churchill?

Custa aceitar quer o valor intrínseco do conceito de maverick quer o retrato de Churchill que esta direita populista tenta fazer - um retrato que, afinal de contas, o jovem Churchill, oficial e jornalista, começou ele próprio a compor, através dos seus escritos.

Não foi o único a fazê-lo; a empresa colonial favoreceu sempre os ambiciosos capazes de se autopromoverem (veja-se, por exemplo, o caso de Francisco Franco y Bahamonde, que publicou o seu "Diario de Una Bandera", sobre as campanhas militares espanholas em Marrocos). A propaganda de Churchill a si próprio foi intensa, beneficiando ainda das relações da poderosa família a que pertencia, sobretudo as estabelecidas pela mãe, uma beldade norte-americana.

Garantiram-lhe estes laços sociais colocações nas várias expedições militares asiáticas e africanas que ele, através dos seus escritos, reduziu a veículos para a criação e divulgação de uma imagem heroica de si mesmo. Vale a pena lembrar as garantias solenes de que esses livros e artigos nunca seriam empreendidos - garantias dadas a oficiais superiores, desconfiados de um jovem colega que não se coibia de criticar publicamente a condução das campanhas em que participava.

O desejo de autopromoção, porém, foi sempre mais forte do que a palavra dada, quer nesta face inicial da vida adulta de Churchill quer mais tarde, quando se tornou deputado e ministro.

FACETAS. Churchill, o político, com Truman e Estaline para o retrato dos vencedores

FACETAS. Churchill, o político, com Truman e Estaline para o retrato dos vencedores

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Mais do que um maverick isolado, norteado exclusivamente por princípios inflexíveis de justiça e virtude, deve Churchill ser encarado como o mais importante, influente e precoce dos resistentes europeus à "Nova Ordem" nazi.

Homens como ele, alguns lembrados ainda, muitos mais esquecidos, surgiram por toda a Europa nesta época sombria. Comparemo-lo rapidamente a, por exemplo, Charles de Gaulle. O que os separa? Ambos decidiram não baixar os braços e continuar a luta contra Hitler, mobilizando para tal todos os recursos de que dispunham.
Quando a França real, prostrada perante a Wehrmacht e minada por conflitos internos e pelo horror à guerra legado pelo conflito de 14-18, deixou de servir os propósitos de De Gaulle, este inventou outra nação, a França Livre (mais tarde Combatente), que conquistou uma base territorial em partes do império colonial francês, trazendo os seus recursos humanos e materiais para a contenda.

Tal como Churchill, De Gaulle encontrou na pena e no microfone armas poderosas; os seus apelos à resistência, lançados a partir de 1940, não ficam atrás dos de Churchill. Churchill, no fundo, teve de fazer o mesmo, forjando pelo gesto e pela palavra um novo Reino Unido. O horror à guerra depois da hecatombe de 1914-1918 não era menor na Grã-Bretanha do que em França, nem o eram as desigualdades sociais, a incapacidade de se bater, em terra (e até certo ponto no ar) com a Alemanha e, por fim, o número de figuras influentes (incluindo membros do Governo) que viam Hitler como um estadista racional, que serviria, uma vez as suas ambições territoriais satisfeitas, de tampão contra o "verdadeiro" inimigo: o comunismo.

Dispunha Churchill, porém, de um trunfo geográfico com que De Gaulle podia apenas sonhar: o Canal da Mancha. Mais uma vez a geografia veio ao socorro da Grã-Bretanha. A Batalha de Inglaterra frustrou a liderança nazi, levando-a a cometer erro após erro, sendo o mais importante a decisão de travar o bombardeamento de aeródromos para concentrar esforços na destruição de cidades e centros industriais britânicos, tarefa para a qual a Luftwaffe, arma tática e não estratégica, não estava vocacionada. A resultante trégua permitiu à RAF recompor os seus esquadrões de caça e levou ao adiamento sine die da projetada invasão alemã.

Não conheceu assim o Reino Unido o colaboracionismo: nunca saberemos quem seriam os Pétain, Laval, Darlan, Déat, Doriot e Darnand britânicos; não sabemos quem seriam as figuras menores, banais, dispostas a organizar primeiro o cadastro, depois a segregação e, finalmente, a remoção da população judaica; em vez da Milice a caçar judeus e resistentes, o Reino Unido conheceu apenas a inofensiva Home Guard, binóculos varrendo os céus à espera dos paraquedistas alemães que faltaram ao ajuste de contas prometido por Hitler. Graças à Mancha, à marinha de guerra e à RAF, garantiu Churchill em maio de 1940, o país poderia ainda resistir, se conseguisse salvar o que restava do exército cercado em França. Foi-lhe por isso confiado o Governo pelo rei Jorge VI - mas custa a crer que, na ausência de Churchill, a corrente antiapaziguamento não teria encontrado, no final dos anos 30, outro campeão, capaz, naqueles dias críticos, de herdar o poder e de manter o seu país na guerra.

A IMPORTÂNCIA DA SORTE

Voltemos ao nosso ponto de partida. Haverá, tendo em conta a natureza idiossincrática da vida e da carreira de Churchill, lições que possam servir a político atuais e futuros? Sim, mas são ou pouco práticas ou pouco adequadas ao mundo de hoje. A primeira, fundamental, é ter sorte. Não sorte às cartas (este tipo de sorte que Churchill, que perdeu grandes somas em casinos e jogando ao póquer - inclusivamente na Casa Branca, com o Presidente Truman - não tinha), mas uma sorte constante, que nos faça nascer num berço de ouro, que nos proteja das balas em inúmeros campos de batalha, que nos acuda quando o avião em que viajamos se despenha, que nos torne invulneráveis a cancros e cirroses apesar de fumar e beber constantemente.

Churchill tinha esta sorte, extensível à sua vida política. Apostou o pouco prestígio público que lhe restava em 1936, quando defendeu o direito do rei Eduardo VIII de se casar com quem bem entendesse, mesmo que a sua escolhida fosse uma norte-americana divorciada. Todo o Reino Unido se ergueu contra o monarca, que se viu forçado a abdicar para se poder casar com a mulher que amava. Churchill perdeu a aposta e mais uma vez se ouviram vozes a dizer que - finalmente! - ele fora longe demais, isolando-se a tal ponto que a sua carreira parlamentar chegara ao fim.

Mas Churchill sobreviveu e em 1940, em vez de lidar com Eduardo VIII, cuja atração pelo fascismo era já indiscutível, encontrou no trono o irmão, Jorge VI, com quem partilhava o desejo de continuar a combater, e que o ajudou a instalar-se no nº 10 de Downing Street. Mais ainda: o primeiro-ministro, Neville Chamberlain, estava doente, e mais tarde ou mais cedo teria de se retirar; mas a crise política que o forçou a demitir-se nasceu da invasão alemã - por via naval - da Noruega. Churchill, ministro da Marinha, teve responsabilidades políticas no caso, mas foi Chamberlain a cair. Tanta sorte é desconcertante. A fasquia, está visto, é impossivelmente alta a este respeito.

Haverá outras lições, quiçá mais úteis, para os políticos de hoje? Abstraindo-nos de países e arquiteturas constitucionais, a mais importante é a necessidade de preservar a independência. Em primeiro lugar, independência financeira: não depender da política para ganhar a vida. Nascer no palácio de Blenheim ajudou, claro; mas foi a carreira jornalística e literária de Churchill, que nunca parou de escrever, ao longo de toda a sua vida, que lhe permitiu viver onde e como queria, podendo por isso encarar com normalidade qualquer derrota eleitoral.

Depois, independência partidária: Churchill é hoje, lado a lado com Margaret Thatcher, um pin-up do partido Conservador, mas abandonou--o poucos anos depois da sua estreia parlamentar, mudando-se para os liberais. Só regressou aos tories depois da grande hecatombe do partido Liberal nos anos 20, quando este foi dizimado pelo rival Trabalhista.

Tal dança partidária deixou-o mal visto dentro do partido: se, em 1940, a bancada parlamentar conservadora tivesse sido consultada sobre a ascensão de Churchill a primeiro-ministro, dificilmente a teria aprovado. Porém, estas mudanças de partido permitiram a Churchill manter-se no Parlamento sem deixar de defender as causas que lhe eram queridas, denunciando os erros (reais ou imaginários) de sucessivos ministérios e liderando o que era, na realidade, um agrupamento parlamentar próprio.

Por fim, independência intelectual: Churchill era por natureza conservador, reacionário, até: mas tinha uma enorme curiosidade teórica e prática; queria entender o mundo que o cercava, desde os grandes fenómenos sociais que o enquadravam às máquinas que lhe transformavam a vida. Entendia ele que a força da Grã-Bretanha lhe advinha da indústria; que o desenvolvimento dessa indústria provocara uma enorme transformação social; e que era necessário, para que o país continuasse à cabeça da Europa, que as novas classes sociais nascidas dessa transformação não se sentissem alienadas, mas comungassem antes de um patriotismo suficientemente forte para resistir a tentações revolucionárias.

Significava isto que o Estado teria de desenvolver uma componente social enquanto, simultaneamente, ajudava a preservar o avanço tecnológico que separava a Grã-Bretanha das demais potências. Churchill, que ao lado de David Lloyd George lançou as bases da previdência social no seu país, patrocinou igualmente o desenvolvimento da aviação civil e militar; feriu interesses económicos estabelecidos ao insistir na adoção do petróleo como combustível dos navios da armada, em detrimento do carvão (o que a conduziu ao interesse ocidental no Médio Oriente); e apadrinhou - embora fosse na altura ministro da Marinha - o desenvolvimento do tanque. Em vez de recear o futuro, Churchill procurou sempre acautelá-lo.

Em seguida, um político precisa de um credo próprio, que se sobrepõe, já o vimos, a qualquer disciplina partidária. Tem de estar disposto a sacrificar o acessório para preservar o essencial. Para Churchill, este essencial era, inicialmente o império; em maio de 1940 era extensível a França, nação que respeitava e amava: para a salvar, propôs, in extremis, uma união política entre ela e o Reino Unido.

Mais tarde, confrontado por uma Europa controlada por potências totalitárias, o essencial tornou-se para Churchill o legado político, histórico e cultural que, cria, era partilhado por todos os povos de língua inglesa, incluindo os Estados Unidos. Meio-americano, convém não esquecer, Churchill foi o pai da special relationship entre Londres e Washington, forjada durante a Segunda Guerra Mundial. Viu no poderio da grande república norte-americana a garantia da sobrevivência desse legado, fim mais importante, concluiu, do que a sobrevivência do império, incompatível com a identidade estado-unidense.

Dedicou-se, a partir de 1940, a trazer os Estados Unidos para a guerra, iniciando uma notável operação de charme que, apesar de muitas contrariedades e não menos sacrifícios materiais para o Reino Unido acabou por resultar. Tão próximos estavam já os dois países que, após o ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, foi a Alemanha a declarar guerra aos Estados Unidos e não o contrário. Dias depois do ataque japonês Churchill estava já em Washington (onde sofreu um ataque de coração). Discursou perante uma sessão conjunta do Congresso e perguntou "What kind of people do they think we are?", selando assim, acreditou, a união indissolúvel entre as duas grandes potências democráticas.

Mais tarde, ao abandonar o poder, aconselhou os seus sucessores a nunca permitir que se cavasse um fosso entre os dois países. Pelo caminho, recomendou ainda a criação de uns Estados Unidos da Europa, hesitando, porém, sobre o papel do seu próprio país em tal construção.

O ESTRATEGO. Churchill com um oficial a seu lado, em Itália, em 1944

O ESTRATEGO. Churchill com um oficial a seu lado, em Itália, em 1944

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AGRESSIVIDADE CONSTANTE

Precisa ainda um político de saber incutir lealdade aos seus subordinados: através do seu génio, da sua produtividade, da firmeza das suas convicções e, claro, do seu charme. Foi graças a essa lealdade, forjada nos anos bons e maus de Governo, de 1908 até 1926 que, nos anos 30, Churchill recebia as informações secretas sobre o estado das forças armadas alemãs que lhe permitiam, nos Comuns, desmentir ministros (do seu próprio partido, note-se) sobre o crescente poder militar nazi e apontar a situação cada vez mais perigosa em que a Grã-Bretanha, com as suas obrigações globais, se encontrava. Por fim, um político precisa de combatividade e sangue-frio.

Churchill recusou-se sempre a encarar as guerras contra a Alemanha como conflitos meramente defensivos. Impôs aos seus generais e almirantes a obrigação de atacar o inimigo, sempre que possível.

O ataque à esquadra francesa, praticamente indefesa, em Mers El Kébir, a 3 de julho de 1940, que custou a vida a 1300 marinheiros até há meses aliados da Grã-Bretanha, demonstrou a frieza de Churchill, valendo-lhe o seu primeiro triunfo inequívoco nos Comuns: deputados de todos os partidos uniram-se numa ovação que o levou às lágrimas.

Esta combatividade teve também resultados desastrosos (veja-se o sacrifício inútil dos couraçados "Prince of Wales" e "Repulse", ao largo da Malásia); mas os resultados foram, no cômputo geral, positivos, especialmente no que diz respeito a Itália, alvo preferencial. Para os seus navios não houve refúgio seguro, sendo afundados no mar alto ou torpedeados, num Pearl Harbor avant la lettre, na base de Taranto; para os seus exércitos África tornou-se um pesadelo humilhante.

Foram salvos pela chegada à Líbia de Rommel e o Afrika Korps, que impôs duras derrotas ao exército britânico - mas este nunca se remeteu à simples defesa do Egito. Os generais que, por cautela, hesitaram perante Rommel, foram sendo substituídos por Churchill até chegar a vez de Montgomery, que finalmente derrotou as forças do Eixo em El Alamein.

Churchill insistiu também em levar a guerra à população civil alemã. Bombardeiros pesados concebidos para atacar fábricas, de dia, foram empregues para zonas residenciais, de noite, numa campanha dispendiosa em tesouro e vidas que demonstrou ao resto do mundo que esta era uma guerra de vida ou de morte para o Reino Unido.

Esta agressividade constante - o desejo de nunca ficar quieto, de responder a cada derrota e desastre (Noruega, França, Grécia, Creta, Singapura) com uma nova e maior ofensiva - foi necessária para levantar o moral da população doméstica, encorajar ações de resistência e sabotagem na Europa ocupada e promover a ideia de uma intervenção no conflito nos Estados Unidos.

A mais importante de todas as lições a tirar da carreira de Churchill destina-se não aos políticos profissionais que nos governam, mas antes aos eleitorados a quem, em última análise, eles respondem, eleitorados esses que, hoje em dia, se revelam apáticos, descrentes ou hostis a todos os partidos: ninguém é infalível; a experiência acumulada ao longo dos anos conta para muito na vida pública; erros iniciais podem e devem ser perdoados. Não é esta uma mensagem popular, longe disso; mas homens e mulheres com a sabedoria, a visão e a tenacidade de Churchill não aparecem do nada - precisam de uma longa aprendizagem. Porém, quem hoje, em Portugal e por toda a Europa, está disposto a esperar, a avaliar e a perdoar? E em que sistema político poderiam tais figuras, alheias à disciplina partidária, singrar?

Filipe Ribeiro de Meneses é Historiador. Doutorou-se no Trinity College de Dublin e leciona no Departamento de História da National University of Ireland, Maynooth. É o autor, entre muitas outras obras, de "Salazar - Biografia Política", que o Expresso distribuiu no verão do ano passado. Vive atualmente em Dublin com a mulher e os dois filhos.