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A vida de fraudes do homem que aumentou um comprimido para a sida de 13,5 para 750 dólares

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O QUE É QUE EU FIZ? Martin Shkreli aquando da primeira comparência no tribunal federal, esta quinta-feira

reuters

As acusações têm a ver com uma fraude anterior, mas é possível que o ato que levou Martin Shkreli a ser odiado na internet tenha a ver com as suas dívidas pessoais

Luís M. Faria

Jornalista

O Daraprim é um medicamento usado para tratar as infeções ditas parasitas, em especial ligadas à sida, mas também à malária. Para os fins a que se destina, parece que é o mais eficaz no mercado. Cada comprimido custa cerca de um dólar a produzir, e era vendido por 13,50 até setembro. Nessa altura, a companhia que o fabrica foi vendida, e o Daraprim passou a custar 750 dólares por comprimido. O responsável por esse aumento foi um homem de 32 anos chamado Martin Shkreli. Pelo seu espantoso ato de ganância, e sobretudo pelo modo como o justificou no Twitter, dizendo que tinha de olhar pelos acionistas da Turing Pharmaceuticals e insultando toda a gente que o criticava, tornou-se uma das pessoas mais odiadas na internet. Esta quinta-feira foi preso pelo FBI.

Os crimes de que é acusado não têm a ver com a Turing. Há anos, Shkreli foi CEO (chief executive officer, ou presidente executivo) de um fundo de investimentos de risco à custa do qual terá enriquecido mediante esquemas fraudulentos. Um dos esquemas seria a utilização de contratos fictícios de consultoria em benefício de acionistas noutro fundo a que ele estava ligado onde também havia cometido vigarices que sairam caras a gente que confiara nele. No fundo, tratava-se de um típico “esquema Ponzi”, envolvendo informações falsas sobre os ativos que de facto possuíam as empresas na qual ele tentava convencer os investidores a meter dinheiro. Uma das especulações agora feitas é que o aumento de preço do Daraprim teve justamente a ver com a necessidade premente de liquidez em consequência da situação nas companhias anteriores de Shreli, que haviam resultado em dívidas enormes para ele.

Infelizmente para o seu próprio bem, não foi discreto. Além dos seus posts desagradáveis no Twitter, deu nas vistas com a aquisição, extremamente 'high profile', da única cópia de um álbum de um conhecido grupo musical. Essa indulgência custou-lhe dois milhões de dólares. Também anunciou que ia gastar milhões a pagar a fiança de um artista rap que se encontrava preso. E enquanto fazia gala do seu estilo de vida faustoso na internet, multiplicava as práticas criminosas na sua empresa, incluindo pagamentos não declarados e faturas com datas falsas.

Um vigarista precoce

Os esquemas já vinham de longe. Logo no seu primeiro emprego, na Cramer Berkowitz & Co, Shkreli sugeriu que se apostasse contra o valor das ações de uma determinada empresa de biotecnologia, e as ações desceram. Nessa altura ele tinha 19 anos. As autoridades suspeitaram de acesso a informação confidencial, mas não conseguiram apurar nada. Anos depois, após terminar a universidade, Shkreli criou o seu próprio fundo de investimentos e os truques continuaram. Em 2011, por exemplo, fez descer as ações de outras duas empresas contra as quais tinha apostado mediante o estratagema de solicitar às autoridades que não licenciassem determinados medicamentos que elas propunham. Os medicamentos acabaram por ser aprovados, mas nessa altura as empresas já tinham passado um bocado difícil e perdido valor

RÉU. Desenho da primeira audiência de Martin Shkreli (ao centro) no tribunal de Nova Iorque

RÉU. Desenho da primeira audiência de Martin Shkreli (ao centro) no tribunal de Nova Iorque

reuters

A má fama do jovem estava a crescer, também por causa de antigos empregados que o acusaram de lhes ter roubado as contas de email e Facebook e de os assediar, bem como às suas famílias. Agora sabe-se que ele omitiu os seus problemas prévios, fazendo declarações falsas, quando registou o seu segundo fundo. O importante eram as aparências. Para esse filho de emigrantes (pai albanês, mãe croata) que cresceu pobre em Brooklyn antes de atravessar o rio para Manhattan, nenhuma publicidade era de mais e a fuga era sempre para frente.

Acima de tudo, ele confiava no seu brilhantismo intelectual, que era real. Uma das primeiras pessoas a investir no seu fundo explicou ao diário "New York Times": "Deem-lhe um manual de química e ele devolve-o ao fim de nove meses e memorizou tudo. É uma esponja para informação". Já hoje, Shkreli compareceu num tribunal federal, tendo pago uma fiança de 5 milhões de dólares (4,6 milhões de euros) para aguardar em liberdade o desenvolvimento do seu processo.