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Special One, Happy One, Fired Twice

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Andrew Couldridge / Reuters

Não havia falta de confiança no Chelsea, mas falta de pachorra. Mourinho foi mordido pelo monstro que criou - porque foi com ele que o Chelsea voltou a ser efetivamente grande. E depois entra a ironia suprema do futebol: o último desaire do técnico português acontece contra o Leicester de Ranieri, um tipo que o português desprezou e ridicularizou (e que substituiu no Chelsea em 2004). A análise de Pedro Candeias, editor de Desporto do Expresso

Diz que Mourinho foi despedido e que foi despedido pela segunda vez, e pela segunda vez pelo mesmo clube. O patrão não o dispensou. O patrão não decidiu que não lhe renovava contrato. O que o patrão fez foi despachar Mourinho com o campeonato a decorrer, e esta é uma história que se repete na vida deste treinador, o que nos leva à mãe de todas as morais: não deves voltar ao lugar onde foste feliz.

Sobretudo, se não foste tão feliz assim, porque não podes ser inteiramente feliz quando levas uma guia de marcha e te pagam €30 milhões só para correr contigo dali. É muito dinheiro e muita vontade de te ver pelas costas. Foi o que aconteceu a Mourinho em 2007, lembram-se?

Mourinho também se lembrava, mas decidiu regressar a Londres, à mesma casa, aos mesmos jogadores que o tinham conhecido quando nada tinham ganhado, e ao mesmo patrão. A reentrada de Mourinho em 2013, convenhamos, não foi pacífica, decidida democraticamente numa eleição administrativa onde mandam 5 pessoas - 3 pessoas votaram a favor, 2 contra.

reuters

Ainda assim, Mourinho quis o Chelsea e disse que estava feliz, que a partir dali não era o "Special One" mas o "Happy One". E o Happy One nada ganhou na primeira época, e foi criticado, mas conquistou o título na segunda, e foi-lhe oferecido um novo contrato porque estava ali o treinador certo, no clube certo, uma narrativa que Mourinho repetiu e repisou quando as coisas começaram a correr mal nesta época. "Não vejo ninguém melhor do que eu para este lugar."

O pior é que os jogadores viam além de Mourinho, que começou a ficar mal visto por eles no affaire Eva Carneiro, a confiante médica de Gibraltar que o desafiou: Hazard estava no chão, Mourinho duvidou que ele estivesse assim tão mal que precisasse de assistência, e chamou "filha da p***" a Eva.

Muitos, em Inglaterra, garantem que esse foi o primeiro sinal de que Mourinho estava a perder a autoridade - e todos nós sabemos e ouvimos episódios de como ele quer tudo controlado, que tudo se feche em torno de um objetivo comum. Os futebolistas gostavam de Eva, Eva gosta deles. Adão culpou Eva que não culpou a serpente, mas Adão. E Adão iria cair pelos seus pecados.

Clive Mason/ Getty Images

O arranque da época não foi mau, foi um desastre. Derrota contra o Arsenal de Arsène, com quem supostamente nunca iria perder, e um título que se foi: a Supertaça. Depois, no campeonato, três derrotas [Manchester City (ok), Everton (+ ou -) e Crystal Palace (??)], um empate (Swansea) e uma vitória (WBA). Logo aí começou a escrever-se que este era o pior Mourinho de sempre, mas o pior ainda estava para vir: esta quinta-feira, dia em que foi despedido, o Chelsea está um pontinho acima da zona de despromoção e tem nove derrotas. E é aqui que entra a ironia suprema do futebol: o último desaire de Mourinho no Chelsea acontece contra o Leicester, treinado por Claudio Ranieri, um tipo que o português desprezou e ridicularizou (e que substituiu no Chelsea em 2004).

Disse Mourinho sobre Ranieri, em 2008: "Ele tem quase 70 anos. Ganhou uma Supertaça e pequenos troféus e está velho demais para mudar a mentalidade. É velho e não ganhou nada." Mourinho é novo, ganhou muito, mas nunca mudou a mentalidade.

A tática de guerrilha, de nós contra eles, resultou no FC Porto e no Inter de Milão. Só que em Espanha, no Real Madrid, e à custa de querer arranjar inimigos para espicaçar o plantel, Mourinho traiu a cultura do madrilismo, aristocrático e bem falante - tivesse ele ido para o Barcelona (e ele quis, antes de Guardiola), estaríamos aqui a falar de alhos e não de bugalhos.

E no Chelsea? Bom, no Chelsea foi mordido pelo monstro que criou - porque foi com Mourinho que o Chelsea voltou a ser efetivamente grande. Basta recordar as palavras de Frank Lampard quando os blues venceram a Champions League com Roberto Di Matteo: "Foi com Mourinho que tudo isto começou".

E é com Mourinho que tudo isto acaba. Porque o Chelsea já não pode viver como se fosse um clube com zero quilómetros à procura de rodagem na alta roda da bola. Talvez Mourinho não tenha percebido isso e tenha optado insistir por jogar mind games com os seus adversários e os seus futebolistas, como se estes não tivessem ainda o gostinho do sucesso na boca. O plantel do Chelsea tem, por exemplo, espanhóis que já tudo venceram (Fàbregas e Pedro), um capitão lendário (John Terry) e o melhor futebolista da melhor seleção do ranking FIFA (Hazard). Não são uns zé-ninguém, uns aspirantes quaisquer.

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E ninguém gosta de ser tratado pelo nome que não tem, mas Mourinho insiste com bocas como esta: "Provavelmente, eu fiz um trabalho fenomenal e elevei o nível dos jogadores no ano passado. Elevei a um nível que talvez não seja o deles. Eles têm de pensar que não são as superestrelas, que não são os melhores do ano, que não são os campeões do mundo". O problema de Mourinho é que eles são tudo aquilo que ele acha que não são. A mensagem perde-se, a solidariedade também.

Mourinho perdeu o balneário e essa é a única resposta possível para um grupo de jogadores que corria e se matava a correr em 2014-15 e que agora fica à espera que a bola apareça para se mexer. Não há falta de confiança, há é falta de pachorra, de parte a parte, e a lesão estranha, na anca, de Hazard contra o Leicester é paradigmática. Aliás, não tanto a lesão mas a forma como Mourinho fala dela e de Hazard: "O que sei é que ele tomou uma decisão individual. Tem de ser uma lesão séria, porque ele abandonou o campo. Disse que queria ser substituído, depois que não queria ser substituído, e enfim deu uns passinhos e decidiu sair. Só pode ser sério".

É claro que Mourinho acredita que Hazard estava a fingir [nota mental: Hazard marcou 19 golos na época passada; este ano, nenhum] e essa insegurança traduz-se numa paranoia quando sente que as coisas lhe fogem das mãos. O "Times" desta quinta-feira escrevia que Mourinho achava que tinha um "bufo" no Chelsea e que esse "bufo" havia dado o onze ao FC Porto no jogo da Champions League, no Dragão. Onde é que já vimos isto antes? No Real Madrid, também na terceira época.

Há, portanto, um padrão de comportamento e assim é fácil prever o futuro, porque se há coisa que Mourinho tem de bom é a coerência das suas ações. Boas ou más.

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