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Um catálogo de relíquias e aquela sequência final: crítica ao novo Star Wars

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STAR WARS Han Solo (Harrison Ford) e o seu fiel companheiro Chewbacca (Peter Mayhew), de regresso ao Millenium Falcon

FOTO FILM FRAME

“O Star Wars de J.J. Abrams é tão fiel aos primeiros filmes da saga que redunda numa cópia. É a tal ponto fetichista e reverencial em relação à trilogia original que se assemelha ao trabalho de um monge copista que se deixou fascinar pelo caráter sacrossanto do texto que transcreve.” Crítica de Vasco Baptista Marques ao filme que estreia esta quinta-feira em mais de 150 salas de cinema do país

Foi com um pé atrás que, esta quarta-feira de manhã, entrei na sala onde decorreu a projeção de imprensa do novo – e sétimo – episódio da série “Star Wars” (“O Despertar da Força”, de seu nome). Comigo, transportava duas penosas memórias: a da histeria mediática que em torno do filme se foi gerando ao longo das últimas semanas (pronto, agora já chega) e, sobretudo, a da aberração na qual redundou aquela que foi – de um ponto de vista cronológico – a segunda trilogia da saga (1999-2005).

De facto, os filmes que compunham essa tríade foram a tal ponto falhados (eram vagos esboços de histórias pastosamente narradas e situadas num universo digital de caráter assético) que o melhor que deles se pode dizer é isto: que serviram apenas como rampa de lançamento para uma operação de merchandising à escala global (e, claro está, para aumentar a conta bancária de George Lucas).

Dito isto, que fique claro: se havia alguém capaz de devolver um mínimo de dignidade à epopeia de ficção científica com a qual eu próprio fui crescendo, esse alguém era, decididamente, o realizador que a Walt Disney escolheu para dirigir o novo “Star Wars”. Falamos aqui de J.J. Abrams – o cocriador das séries de televisão “Lost” (2004-2010) e “Fringe” (2008-2013), mas também o realizador de um par de blockbusters revisionistas que atestavam da sua capacidade de revisitar o passado sem atraiçoar os seus códigos. Assim foi com “Star Trek”, de 2009 (que ressuscitou uma saga que desde há muito se encontrava mumificada), e, em primeira linha, com “Super 8”, de 2011 (que recuperava o imaginário do cinema fantástico do início dos anos 80).

Do “Star Wars” de J.J. Abrams esperávamos, então, não que – por impossível – ele nos devolvesse à nossa infância, mas que, pelo menos, respeitasse a memória que dela guardamos. Ora, nessa ótica, “O Despertar da Força” peca não por defeito, mas por excesso. Entenda-se: o filme é a tal ponto fetichista e reverencial em relação à trilogia original que se assemelha ao trabalho de um monge copista que se deixou fascinar pelo caráter sacrossanto do texto que transcreve. Melhor: a um catálogo arqueológico que, passo a passo, vai enumerando peças de memorabilia (até o tabuleiro de xadrez virtual do Millenium Falcon é aqui recriado…). Com efeito, Abrams parece ter tanto medo de trair a memória dos primeiros filmes da saga que acaba por ficar cativo dele, limitando-se, ao longo do filme, a recriar as marcas e os traços de um universo que nos é familiar.

Estamos aqui em presença de uma ‘atitude’ que se pressente longo nos planos iniciais (com os seus intertítulos deslizantes escritos a letras amarelas, com uma panorâmica vertical descendente em tudo idêntica àquela com a qual, em 1977, George Lucas inaugurara a sua space opera…). Percebe-se a necessidade de fazer a vénia, mas a verdade é que ela acaba por cristalizar “O Despertar da Força” numa pose de rígida homenagem formal. Aqui, tudo é, por assim dizer, demasiadamente reconhecível: desde os efeitos de ligação que encadeiam os planos, passando pelos décors e pelo desenho das sequências de ação (que, socorrendo-se embora das 3D, se destacam pelo uso ainda assim moderado que fazem das CGI).

PERSONAGEM. A nova heroína do novo "Star Wars": Rey (Daisy Ridley), fugindo do lado negro da força

PERSONAGEM. A nova heroína do novo "Star Wars": Rey (Daisy Ridley), fugindo do lado negro da força

FOTO FILM FRAME

No entanto, se a herança deixada pela trilogia original se faz sentir nos aspetos formais do filme, ela sufoca uma narrativa que – há que dizê-lo – constitui um best of: são as mesmas canções, cantadas por novos intérpretes. Sobre a história (cuja ação decorre 30 anos depois do momento em que “O Regresso de Jedi” nos havia deixado), pouco diremos. Apenas que ela segue, em primeira linha, uma espécie de Luke Sywalker no feminino (Daisy Ridley) que, graças ao renascimento do lado negro da força, será obrigada a abandonar o desértico planeta onde vive sozinha (sobrevivendo como sucateira), para embarcar numa aventura intergaláctica que a levará a ir de encontro ao seu destino.

Haverá novas personagens (que, na maioria dos casos, são velhas personagens com novos rostos) e haverá – mais do que qualquer outra coisa – um reencontro: o do espectador com os três atores principais dos episódios que George Lucas realizou entre 1977 e 1983 (Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hamill). É de resto um deles que oferece ao filme o seu mais justo momento: aquela sequência final em que – por intermédio da sua heroína – Abrams oferece a Hamill (ator que se deixou devorar vivo pelo sucesso da saga) a possibilidade de ressuscitar. À falta de mais, saímos da sala com esse belo gesto na memória.

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