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Quando o tempo é vazio

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CRUZADA. Carlos Cruz escreveu 1300 páginas à mão

antónio pedro ferreira

Há uma ilusão atrás das grades. Tudo é feito de modo a que tudo seja igual para todos. A rotina, a comida, as visitas, as regras. Mas os reclusos não são todos iguais. Seis vidas que a prisão mudou
(ao longo dos próximos dias vamos lançar um conjunto de textos da Revista do Expresso que foram originalmente publicados no último ano - esta reportagem foi publicada a 1 de maio)

Cá fora o tempo corre, lá dentro não anda. Cá fora não há tempo para nada, lá dentro não há nada para o tempo. Cá fora há pouca disponibilidade para estar com familiares, lá dentro fazem muita falta. Cá fora a comida caseira cansa, lá dentro cansa não a ter. Nos últimos anos, as cadeias portugueses tiveram, têm e admite-se que venham a ter cada vez mais presos de origens sociais muito distintas. A igualdade que não existia em liberdade continua a falhar na reclusão. Seja por os crimes que os levaram à cadeia serem bem diferentes ou por as medidas de segurança de que necessitam serem muito distintas, o certo é que o cárcere não é igual para todos nem custa o mesmo a todos. Mas a desigualdade que se vive do outro lado dos muros e do arame farpado é menor do que no exterior: por norma, o dinheiro conta menos, o poder não se mede da mesma maneira e a ascendência social não assegura privilégios.

A disciplina impõe-se. O refeitório é comum, a família está mais ausente, as viagens e os espetáculos desaparecem. Pior: surge um regulamento, que é preciso cumprir e que a todos (embora a uns mais do que a outros, ou não é sempre assim?) é imposto. A verdade é que viver com regras não é prática universal, assim como gozar de comodidades e mordomias várias não é para todos. A prisão aproxima uns e outros. E a quem faz sofrer mais: aos que perdem muito, aos desprotegidos e que tudo receiam, ou aos que pouco apoio têm do exterior?

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