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Secretas tinham uma fonte paga com o nome de código Panda

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nuno botelho

Ex-super-espião Jorge Silva Carvalho revela em julgamento que funcionário da Ongoing recebia como informador dos serviços secretos

Na segunda sessão do julgamento do caso das secretas dedicado a ouvir Jorge Silva Carvalho, o arguido principal, voltou a fazer revelações esta quinta-feira, quebrando mais uma vez o segredo de Estado, com a autorização do tribunal.

O antigo diretor-geral do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) afirmou perante o coletivo de juízes que Fernando Paulo Santos, um funcionário da Ongoing, era uma fonte paga das secretas antes de ele próprio ter ido trabalhar em janeiro de 2011 para aquele grupo privado, detido e presidido por Nuno Vasconcellos, também arguido no processo. Segundo Silva Carvalho, Fernando Paulo Santos era identificado dentro dos serviços com o nome de código “Panda”.

Informações produzidas pelas secretas e entregues por Silva Carvalho a Paulo Santos no período de transição do ex-diretor do SIED para a Ongoing fazem parte dos elementos de prova reunidos contra Silva Carvalho, que está pronunciado por violação do segredo de Estado, abuso de poder, acesso ilegítimo a dados pessoais e corrupção passiva. E que justificaram a pronúncia por corrupção ativa contra Nuno Vasconcellos.

De acordo com a acusação, entre as várias informações que Silva Carvalho terá feito passar ilicitamente do SIED para a Ongoing estavam dados recolhidos pelo oficial de ligação que os serviços tinham em Moscovo, Heitor Romana, sobre dois cidadãos russos envolvidos num projeto de construção de infraestruturas num porto na Grécia, Astakos, com quem o grupo para onde o ex-espião foi trabalhar estava interessado em estabelecer uma parceria.

Esses dados recolhidos pelos serviços sobre os dois russos foram enviados por Silva Carvalho a Fernando Paulo Santos, que os fez circular depois entre os administradores da Ongoing. O ex-diretor do SIED explicou que Paulo Santos trabalhava há muito tempo para os serviços secretos como um informador pago, afirmando que na altura desconhecia que ele tivesse qualquer relação profissional com aquele grupo privado. “Só em fevereiro ou março de 2011 é que me apercebi disso, quando ele foi chefiar a Ongoing África.”

Silva Carvalho contou que Paulo Santos foi beneficiado pelo SIED com remunerações e outras contrapartidas pelos serviços que prestava. “Era uma fonte gerida diretamente por mim”, admitiu, adiantando que, além da correspondência apreendida pelo Ministério Público durante as buscas do caso, havia outros e-mails que ele próprio apagou, por receio de expor informações sensíveis.

Os “canais negros” em Angola

O ex-espião justificou os pagamentos regulares a Paulo Santos pelos acessos que ele tinha a algumas figuras em África. “Chegou a trabalhar para o Mobutu, no Zaire, e foi sócio de um ministro do Estado angolano. Era usado pelos serviços para fazer passar mensagens à nomenclatura de Angola através daquilo que designamos como canais negros, que são paralelos aos canais diplomáticos.”

Silva Carvalho disse que sempre que Paulo Santos viajava por África, onde passava a maior parte do tempo, havia conversas entre os dois e o ex-diretor do SIED perguntava aos responsáveis do Departamento de África “se havia alguma coisa que precisassem de saber”. E que acontecia a fonte reunir com outras pessoas dos serviços, inclusive com o oficial de ligação em Luanda.

Questionado sobre que interesse estratégico o SIED poderia ter nos dois cidadãos russos ou no porto grego de Astakos, o principal arguido do caso das secretas alegou que a Rússia “estava na primeira linha” das matérias que mais relevantes para os serviços de informações portugueses. E que Astakos “era um porto militar usado pelos Estados Unidos para operações encobertas de envio de armas para o Médio Oriente”, relacionando-se com o conflito de interesses entre a NATO e a Rússia.

A juíza contrapôs que foi Paulo Santos que pediu informações a Silva Carvalho e não o contrário. O arguido alegou, no entanto, que “muitas vezes os serviços desencadeavam operações que permitiam recrutar fontes”, acrescentando: “Quando fui confrontado com os dois russos, a primeira coisa que pensei foi na forma como poderíamos chegar à fala com aquelas pessoas, para as ter a trabalhar para nós.”

Alegadamente, o ex-diretor-geral do SIED forneceu estas informações à Ongoing a troco de um emprego como administrador. Há ainda mais três réus no caso. João Luís, o antigo diretor operacional do SIED, que terá ordenado a um espião para obter uma lista de chamadas de um jornalista; Nuno Dias, o espião que, obedecendo a João Luís, conseguiu esses registos telefónicos através da sua mulher, Gisela Teixeira, uma funcionária da Optimus. Que também é arguida.