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Passos e Portas afastam ideia de Governo a prazo

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luís barra

Passos Coelho quer falar com António Costa antes mesmo de formar Governo e ontem deixou um aviso ao PSD: o compromisso da coligação é com a estabilidade e o diálogo; nem pensem em eleições antecipadas. Portas fez igual no CDS: “Faremos os compromissos necessários para garantir a estabilidade”. Estratégia? Ou tática?

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O aviso foi muito claro: é preciso afastar quanto antes a ideia de que vão governar a prazo. Pedro Passos Coelho foi ontem à reunião da Comissão Permanente do PSD dizer que o seu compromisso é com a estabilidade e o diálogo, para assegurar que a legislatura chega ao fim. Paulo Portas, perante a Comissão Executiva do CDS, deixou a mesma mensagem: “A nossa intenção é governar por quatro anos, e faremos os compromissos necessários para garantir a estabilidade”, disse o presidente centrista, segundo um dirigente do partido que esteva na reunião. O primeiro sinal disso será dado dentro de dias - antes de formar Governo e de fechar o seu programa, o líder da coligação de direita quer falar com o líder da oposição. A negociação (de princípios básicos para o programa, compromissos possíveis para a legislatura e nomeações para lugares) vai começar mesmo antes da tomada de posse. Com a fidelidade à Europa a servir de chapéu para as conversas do “centrão”.

“Há uma necessidade imperiosa de estabilidade, seja do ponto de vista económico, financeiro ou social e ninguém se pode autoexcluir da tentativa de encontrar soluções para garantir que os quatro anos da legislatura se cumprem”, afirmou ao Expresso Marco António Costa, o nº 2 de Passos no PSD. A curtíssima nota à imprensa que saiu da reunião da direção do partido não deixou margem para dúvidas: “A Comissão Política Permanente do PSD, hoje reunida, analisou os resultados eleitorais das eleições legislativas que conferiram uma vitória clara à Coligação e que responsabilizam os maiores Partidos Portugueses numa cultura de compromisso”.

Nas cúpulas da coligação, exibe-se, aliás, a experiência adquirida nos difíceis quatro anos da legislatura passada. A ideia é mais ou menos esta: “Governar em maioria relativa sem troika é mais fácil do que governar com maioria absoluta e com troika”. Passos e Portas usam os anos de chumbo das reuniões com os credores para passar a mensagem de que são capazes de chegar a bom porto. Negociar com António Costa não deve ser muito pior.

COMPROMISSO Paulo Portas defendeu a necessidade de estabelecer acordos com os socialistas

COMPROMISSO Paulo Portas defendeu a necessidade de estabelecer acordos com os socialistas

José Carlos Carvalho

“O Governo é para quatro anos, exceto se alguém cometer o erro de o derrubar com uma maioria negativa”, disse mesmo Paulo Portas perante o núcleo mais restrito da direção do CDS. O líder centrista defendeu a importância do Governo ser, desde o primeiro momento, “proativo” na busca de acordos com os socialistas e, para definir a postura do Executivo, inaugurou uma nova troika que marcará, seguramente, as suas intervenções daqui em diante: “política de abertura, política de compromisso, política de responsabilidade.”

Palavras de Medina confortaram PSD e CDS

As palavras do costista Fernando Medina, que ontem aproveitou as comemorações do 5 de outubro para lembrar que os resultados eleitorais trouxeram “a exigência do entendimento entre partidos para dar ao país uma solução de governabilidade estável e eficaz”, e mostraram que os eleitores querem um “compromisso com a Europa da moeda única” e “sem radicalismos”, confortaram PSD e CDS. Há no partido de Passos quem compare Medina ao papel que António Pires de Lima teve para pacificar Paulo Portas dentro do Governo, sobretudo na crise do verão de 2013. Se o sucessor de Costa na câmara de Lisboa diz o que disse (e até João Galamba e Isabel Moreira surgiram no Facebook a falar de compromisso), não pode ser a coligação a deixar minimamente desguarnecida essa frente.

ECONOMIA O crescimento económico pesará para o estabelecimento de compromissos entre a coligação e o PS

ECONOMIA O crescimento económico pesará para o estabelecimento de compromissos entre a coligação e o PS

Luís Barra

A economia vai ditar tudo

O exemplo do primeiro Governo de António Guterres é invocado na direita, por um lado porque a dimensão da maioria relativa do PS nessa altura era semelhante à que a coligação alcançou no domingo; por outro, porque embora Marcelo Rebelo de Sousa, líder do PSD à época, tivesse garantido a aprovação de todos Orçamentos da legislatura, o combate entre Governo e oposição foi duro e a negociação (incluindo com o CDS para aprovarem uma reforma da segurança social) foi sempre necessária.

Se em algum momento isso não for possível com António Costa (a instabilidade interna no PS não ajuda - e neste momento, não há sequer um interlocutor para falar com a coligação), Passos e Portas têm uma certeza: é vital que não seja a coligação a ficar associada à rutura, porque quem a provoca sai penalizado nas urnas.

O essencial para o futuro da legislatura, dizem à direita, será o desempenho da economia. Se continuar a descolar, beneficia o Governo e torna mais improvável uma crise política. “Com crescimento económico, o PS não arriscará derrubar o Governo, e até o Bloco de Esquerda pensará duas vezes antes de arriscar perder os 19 deputados que tem”, aposta um responsável da coligação.

A tentação de precipitar eleições antecipadas para chegarem à maioria absoluta que agora não conseguiram também existirá em alguns setores da maioria (no governo Guterres esse foi um debate que atravessou toda a legislatura, sempre à espreita de um pretexto para esticar a corda). Mas se alguém disser que alguém disse, todos negam.