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“Vai e Põe uma Sentinela”: publicação em exclusivo do primeiro capítulo do novo livro de Harper Lee

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Romance de Harper Lee chega a Portugal em outubro. Leia aqui o primeiro capítulo, em primeira mão

Desde a partida de Atlanta que olhava pela janela da carruagem-restaurante com um deleite quase físico. Sentada à mesa do pequeno-almoço, bebia o café enquanto observava as últimas elevações da Geórgia a ficarem para trás e a darem lugar à terra vermelha e, com ela, às casas de telhado de zinco plantadas nos pátios de terra varrida e nos quintais, onde crescia a inevitável verbena dentro dos pneus pintados de branco. Esboçou um sorriso largo quando avistou a primeira antena de televisão erguida no topo de uma casa de negros, sem pintura, e a sua alegria aumentou ao verificar que se multiplicavam.

Jean Louise Finch costumava fazer aquela viagem de avião, mas na quinta deslocação anual para casa decidiu ir de comboio de Nova Iorque até ao ramal de May-comb. Por um lado, apanhara um susto de morte da última vez que andara de avião, pois o piloto decidira voar pelo meio de um tornado. Por outro lado, ir de avião significava que o pai tinha de se levantar às três da manhã e conduzir cento e cinquenta quilómetros para a ir buscar a Mobile, ao que se seguia um dia normal de trabalho. Ele tinha setenta e dois anos e já não era justo obrigá-lo a tal.

Estava satisfeita por ter decidido ir de comboio. Os comboios haviam mudado desde a sua infância, e a novidade da experiência divertia-a: qual génio anafado, um bagageiro materializou-se quando ela carregou num botão da parede; com uma ordem sua, uma bacia de aço inoxidável destacou-se de outra parede, e havia uma sanita onde se podia apoiar os pés. Decidiu não se deixar intimidar pelos vários avisos impressos em redor do compartimento — designado por couchette —, mas, quando se fora deitar na noite anterior, conseguira ficar entalada contra a parede porque ignorara a indicação de PUXAR ESTA ALAVANCA SOBRE OS SUPORTES, situação remediada pelo funcionário para seu embaraço, pois tinha o hábito de dormir apenas com a parte de cima do pijama.

Felizmente, o homem patrulhava o corredor quando aquela armadilha se fechara com ela lá dentro. «Eu tiro-a daí, miss», disse em resposta às pancadas que se ouviam lá de dentro. «Não, por favor», respondera ela. «Diga-me só como faço para sair.» «Consigo fazê-lo de costas voltadas», afiançara o homem e assim fora.

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