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Acolher, expulsar ou empatar?

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BUDAPESTE As forças de segurança dispersam os passageiros frustrados que foram impedidos de embarcar em direção à Alemanha e Ásustria

LASZLO BALOGH / REUTERS

Reina a confusão entre as atitudes dos diferentes países da União face à chegada de tão grande número de refugiados. A Alemanha apela ao acolhimento e acolhe, a Hungria expulsa e outros tentam evitar a entrada. Cidadãos na Alemanha e Áustria organizam-se para dar as boas vindas a quem desespera por uma vida melhor

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Depois de resistirem por todos os meios - incluindo um muro de quatro metros de altura que virá a ter 175 quilómetros de comprimento na fronteira com a Sérvia -, as autoridades da Hungria deixaram partir quatro comboios cheios com centenas de migrantes da gare oriental da cidade em direção à Áustria e à Alemanha. As pessoas que se encontravam no exterior da estação à espera há semanas foram subitamente autorizadas a viajar sem vistos. Depois, mandaram encerrá-la, sem avançar mais pormenores além de que a companhia nacional de comboios - MAV - comunicaria quando fosse retomada a normalidade na circulação de comboios. Ao que tudo indica, a medida foi tomada para evitar a confusão que se seguiu àquela autorização.

As forças de segurança - em muitos casos usando máscaras sobre o nariz e boca e luvas de plástico - apressaram-se de seguida em fazer dispersar as centenas de pessoas que ainda aguardavam embarcar, enchendo os vários cais da gare da capital húngara. E a estação foi encerrada de seguida.

Segundo a agência Reuters, à chegada dos comboios à capital austríaca, as autoridades em Viena desistiram de tentar dividir os migrantes e refugiados - na sua maioria vindos do Médio Oriente - para aplicar as leis europeias separando dos outros aqueles que já tivessem requerido asilo na Hungria. O mesmo site reporta que a maioria das 500 pessoas que seguia no comboio que chegou a Viena vindo de Budapeste correram para o comboio que dali seguia em direção à Alemanha.

“Alemanha, Alemanha!”, “Obrigado Alemanha!”, ouvia-se gritarem os passageiros à medida que desembarcavam dos comboios, na segunda-feira ao fim da noite, reagindo aos cartazes empunhados por cidadãos reunidos à sua espera na estação central de Munique. Nos cartazes liam-se expressões de boas-vindas, reporta o site da Al Jazeera.

Houve também cenas caóticas, com a polícia a ser obrigada a escoltar os passageiros chegados nos comboios da Áustria (e, antes, da Hungria) para os conduzir aos centros de receção onde eram aguardados em vários locais da Baviera, como se lê no site do diário britânico “The Guardian”. A maioria destas pessoas vindas originalmente da Síria, Iraque, Afeganistão e Eritreia, chegaram exaustas e desidratadas após longas viagens.

MUNIQUE. Um voluntário distribui fruta fresca aos aos passageiros dos comboios de migrantes chegados à estação central de Munique

MUNIQUE. Um voluntário distribui fruta fresca aos aos passageiros dos comboios de migrantes chegados à estação central de Munique

LUKAS BARTH / REUTERS

A onda de solidariedade naqueles dois países da Europa central tem crescido nos últimos dias. Em particular na Alemanha, grande número de cidadãos reage aos protestos dos grupos de extrema-direita que assaltaram alguns centros de acolhimento de refugiados no leste do país, em cidades como Haidenau. Em particular na Áustria desde que 71 pessoas foram encontradas mortas depois de terem sido transportadas de forma inumana num camião frigorífico de matrícula húngara, abandonado à beira de uma estrada alguns quilómetros a sul da capital. Na sequência deste caso, as autoridades prenderam cinco pessoas suspeitas de envolvimento no caso e de pertencerem a redes de tráfico de seres humanos.

“Nenhuma pessoa é ilegal”
Nesta segunda-feira, cerca de 20 mil pessoas participaram numa manifestação pró-refugiados em Viena. Os manifestantes marcharam pacificamente pelas ruas do centro de Viena empunhando cartazes onde se liam slogans como “Os direitos humanos não têm fronteiras” e “Nenhuma pessoa é ilegal”.

A chanceler alemã tem liderado desde segunda-feira uma campanha para levar os Estados-membros da União Europeia a aceitarem mais refugiados nos seus países, contribuindo desse modo para absorver o grande aumento dos fluxos migratórios em fuga para países mais ricos que se tem verificado nos últimos meses.

PARTIR. Júbilo e desorganização na partida de Budapeste em direção ao ocidente

PARTIR. Júbilo e desorganização na partida de Budapeste em direção ao ocidente

BERNADETT SZABO / REUTERS

Depois de Berlim ter anunciado que a Alemanha acolheria 800 mil refugiados até ao final de 2015, o equivalente a 1% da sua população e muito mais do que qualquer outro Estado-membro, Angela Merkel declarou que os estados da UE têm de “partilhar a responsabilidade pelos refugiados que procuram asilo” sob pena de traírem os valores do bloco, insistia nesta terça-feira.

“Se a Europa falhar relativamente à questão dos refugiados será destruída esta relação íntima com os direitos humanos universais e não será a Europa que nós queremos”, disse a chanceler numa conferência de imprensa em Berlim, nesta segunda-feira, citada pela Reuters. Até agora, só a França cedeu aos apelos de Merkel, cujo governo declarou que aceitaria todos os pedidos de asilo de cidadãos sírios em vez de os reenviar para o ponto de entrada em território comunitário, como exige a lei comunitária. A Hungria, a Eslováquia, a República Checa e a Polónia têm continuado a tentarconter o fluxo de refugiados.

Até agora, os 28 Estados-membros em articulação com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) comprometeram-se a realojar 22.504 pessoas de fora da Europa que já tenham estatuto de refugiadas, provavelmente na sua maioria sírios que aguardam saírem dos campos de refugiados na Jordânia, Líbano e Turquia.

Segundo a revista britânica “The Economist”, estes números são insignificantes quando comparados com as pessoas que chegaram à Grécia em busca de asilo só no mês de julho: 50 mil. No total, 270 mil migrantes chegaram à Europa desde o início do ano, mais do que ao longo de todo o ano de 2014, que foi, por si, um ano recorde de chegadas.