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“Tenho medo da revolta. Mas a Grécia ainda é Europa, apesar de tudo”

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reuters

Apesar da instabilidade na Grécia, os turistas continuam a afluir em massa. Com as restrições aos levantamentos de dinheiro, chegam carregados de dinheiro. Temem os assaltos, mas não resistiram a vir assistir ao “momento histórico” que o país vive

A instabilidade política e económica na Grécia não parece estar a afetar o turismo, uma das principais fontes de receitas do país. Os aviões que aterram em Atenas continuam a chegar lotados de turistas de todo o mundo, animados com a ideia de acompanhar ao vivo o “momento histórico” que os gregos estão a viver. Mas à chegada não sentem apenas a excitação das férias. Muitos receiam que possa haver protestos e violência nas ruas e temem, sobretudo, ser roubados. Com medo de não conseguir levantar dinheiro, vêm carregados de notas no bolso.

O espanhol Andrés Martí Jimenez, de 43 anos, esteve até à última para cancelar a viagem, marcada desde o início do ano. Preocupados com a situação do país e com a possibilidade de ocorrerem manifestações violentas, os pais pediram-lhe para desistir da ideia. Mas, para ele, o receio de familiares e amigos só parece tornar as férias mais excitantes. “A minha família tem medo que haja revoltas nas ruas. Eu também tenho algum, mas apesar de tudo a Grécia ainda é Europa. Não creio que se passe nada de muito grave. De qualquer forma, é uma aventura. Muito emocionante”, conta ao Expresso, enquanto partilha no Facebook a fotografia acabada de tirar à placa do aeroporto de Atenas.

Antes de partir rumo à capital grega, o professor de línguas foi ao banco pedir informações sobre a situação no país quanto aos levantamentos e pagamentos com cartões de débito e crédito. Aconselharam-no a levar dinheiro vivo. E bastante. No bolso leva quase mil euros em notas. Nunca viajou assim. “Tenho algum medo de ser roubado. Não estou habituado a andar com tanto dinheiro no bolso. Habitualmente uso sempre os cartões. É uma experiência nova”, diz.

O Ministério do Turismo grego emitiu esta segunda-feira um comunicado com uma mensagem de tranquilidade aos turistas, garantindo que o controlo de capitais que vai vigorar durante toda a semana, com restrições ao levantamento de dinheiro, não se aplicará aos estrangeiros e assegurando que haverá reservas suficientes de combustível e normalidade na prestação de serviços. 

Ainda assim, a complicada situação no país, com a suspensão das negociações entre o governo grego e os credores e a convocação de um referendo para o próximo domingo, levou vários países europeus, como a Alemanha, a Holanda e o Reino Unido, a alertar os seus cidadãos que planeiam viajar para a Grécia para levarem dinheiro suficiente, tendo em conta o risco de colapso económico e as dificuldades que se preveem nos levantamentos e pagamentos com cartão de crédito.

Natural de Buenos Aires, Silvia Villaverde, de 58 anos, lembra-se bem do que é viver sem liberdade para levantar dinheiro, quando e quanto se quiser. Em 2001, a Argentina também teve um “corralito”, com restrições aos levantamentos  em numerário que se arrastaram ao longo de um ano. Por isso, entende bem o que os gregos estão agora a passar. “A sensação de ter dinheiro no banco e não o poder levantar é muito sufocante. O medo de vir a perder todos os depósitos e ficar sem nada de um dia para o outro é o pior de tudo. Mas é preciso manter a calma”, aconselha.

Apesar de ter alojamento pago e pensão completa nas ilhas de Mikonos e Santorini, Silvia, que viajou pela primeira vez para a Grécia, também se precaveu. Viaja com “algumas centenas de euros” na mala, espalhados por diferentes envelopes. 
Ao Expresso, funcionários de casas de câmbio do aeroporto, que pediram para não ser identificados, revelaram que os turistas de países de fora da zona euro estão a pedir para trocar quantias bem mais avultadas do que o costume. Em alguns casos, no entanto, não tem sido possível trocar o montante que desejam.

Os turistas carregam nos bolsos pilhas de notas. Muitos gregos guardam-nas em casa.  Areti, funcionária de uma empresa de handling, conta que na última semana levantou bastante dinheiro, com medo de que pudessem ser impostas restrições aos levantamentos, como acabou por acontecer. Os bancos estão fechados e até à próxima segunda-feira, pelo menos, cada grego pode levantar, no máximo 60 euros por dia. 

"Sabíamos que isto podia acontecer a qualquer momento. Por isso, muita gente foi levantando o que podia nos últimos dias. É uma situação muito difícil e angustiante. E é toda uma nova forma de vida", desabafa.