As notícias de arrastões em lojas, roubo de carros e vandalismo no parque de estacionamento tornaram amargo o arranque do Dolce Vita Tejo, o maior centro comercial da Península Ibérica e um dos dez maiores da Europa, inaugurado há dois meses no concelho da Amadora.
Logo na primeira semana, seis adolescentes entraram na Worten e fizeram uma verdadeira 'limpeza' à loja de electrodomésticos. Acabaram por ser identificados e obrigados a devolver todo o material roubado. Mas o incidente deu que falar e ajudou a "colar" ao gigantesco centro comercial uma imagem de insegurança que a administração garante não corresponder à realidade. E que a própria PSP rejeita.
Nestes primeiros dois meses de actividade foram registados seis roubos no interior de lojas e cinco furtos de objectos transportados por clientes, como carteiras, telemóveis ou máquinas fotográficas. Os dados são da polícia.
O número de ocorrências é muito baixo comparativamente com outros centros comerciais. Houve notícias empoladas e outras puramente especulativas", assegura Manuel Henriques, director-geral do Dolce Vita Tejo, frisando que o nível de incidentes é até inferior ao registado noutras grandes superfícies da mesma cadeia.
No entanto, ainda há duas semanas foram noticiados alegados "arrastões" praticados por gangues compostos por dezenas de jovens dos bairros desfavorecidos que rodeiam o centro. A administração do Dolce Vita e a polícia desmentiram o incidente e até a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial veio a público comparar o caso ao "pseudo-arrastão da praia de Carcavelos".
Objectivo: 18 milhões
Certo é que as notícias e os comentários a que deram origem em blogues e salas de conversação na Internet acabaram por "afugentar" potenciais clientes.
"As pessoas deixaram de vir por causa disso. Há pouco movimento, o que vai obrigar muitas lojas a despedir funcionários ou a transferi-los para outros centros comerciais, se continuar assim", lamenta Gonçalo Silva, funcionário da Clínica Informática do Jumbo, praticamente "às moscas" na passada terça-feira à tarde. O hipermercado a funcionar no Dolce Vita é o maior do grupo Auchan, mas em vendas não vai além de uma tímida quinta posição. "Teremos de reduzir o staff", adianta.
Também na loja da Optimus o cenário não é muito mais animador: as vendas são inferiores às dos restantes grandes centros comerciais e só superam o comércio de rua, segundo disse ao Expresso um funcionário que pediu para não ser identificado.
Já a administração do Dolce Vita garante que o projecto "está a corresponder plenamente às expectativas". Em média, 40 mil pessoas visitam o centro por dia, um número que quase duplica aos sábados e domingos. A continuar assim, não será difícil atingir a ambicionada meta de 18 milhões de visitantes por ano.
O recorde foi batido no fim-de-semana que se seguiu à inauguração, quando 150 mil pessoas visitaram o centro em cada um dos dois dias, quase o triplo de toda a população de cidades como Faro, Évora ou Castelo Branco, por exemplo.
Mas há espaço para mais. No total, são 122 mil metros quadrados, distribuídos por apenas dois pisos. Percorrer todo o centro pode mesmo ser um exercício fisicamente exigente. Por isso não faltam sofás ao longo dos amplos e arejados corredores, que chegam a atingir os 200 metros de comprimento. Além das 300 lojas e dos espaços de entretenimento como os cinemas, que chegam aos três mil lugares, há também serviços a funcionar em permanência como uma clínica de medicina dentária.
Inovar o conceito de centro comercial e diversificar ao máximo a oferta é o objectivo da direcção, que quer alargar o leque de serviços para abranger, por exemplo, escritórios de advogados. "É como se fosse uma mini-cidade", resume o director-geral. Se é que o termo "mini" pode ser aplicado ao mega Dolce Vita.
Sucessos e fracassos
Brasília
Inaugurado em 1976 junto à Rotunda da Boavista, no Porto, foi o primeiro centro comercial de grande dimensão da Península Ibérica. Com seis pisos e 250 lojas, tornou-se num ex-líbris da cidade e motivou romarias de todo o país e até de Espanha. A decadência começou há mais de uma década após a abertura do Arrábida e do Norteshopping. Em 2004, o Brasília registava 15 mil visitas/dia. Hoje, são menos de metade e quase um terço das lojas estão de portas fechadas, assim como o cinema Charlot.
Dallas
Construído na década de 1980, o complexo do Dallas nunca foi legalizado. Situado na Avenida da Boavista, o shopping foi encerrado há 10 anos por questões de segurança. Está desde aí enredado num gigantesco imbróglio jurídico, uma confusão que desencoraja qualquer potencial investidor. Em Fevereiro deste ano, o condomínio do Edifício Dallas apresentou à Câmara uma exposição em que requer "a aprovação do plano de pormenor indispensável ao licenciamento". Mas precisará de muitas obras.
Apolo 70
Foi o primeiro centro comercial a abrir no país, em 1971. A sala de cinema, as pistas de bowling e os modernos snack-bares garantiram sucesso imediato. Hoje, está longe de ser uma referência mas conseguiu adaptar-se, transformando-se num centro comercial de proximidade, diariamente visitado por cerca de 2500 pessoas, na sua maioria trabalhadores dos muitos serviços instalados na zona do Campo Pequeno. Mesmo com a concorrência das grandes superfícies, nenhuma loja fechou portas e a facturação chega aos €5,5 milhões por ano.
Fonte Nova
É provavelmente o maior caso de sucesso entre os centros comerciais de pequena e média dimensão. Mesmo com a concorrência do gigante Colombo, a poucos metros de distância, o Fonte Nova, em Benfica, conseguiu resistir e recebe todos os dias mais de 10 mil visitantes. Inaugurado em 1985, conta com 90 lojas e três salas de cinema. Alvo de várias obras de modernização, nunca se deixou entrar em decadência, ao contrário de outros shoppings da mesma idade.
7.ª Avenida e Galerias Sottomayor
São os casos mais flagrantes de fracasso. Inaugurados já esta década em pleno centro de Lisboa, com ar moderno e lojas sofisticadas, nunca conseguiram vingar. O 7ª Avenida, perto das Amoreiras, vai dar lugar ao centro de escritórios "Espaço Amoreiras". As Galerias Sottomayor, no Saldanha, encerraram há cerca de seis meses, sucumbindo à concorrência dos outros três centros comerciais da zona.
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de Julho de 2009