No consultório médico de Ermesinde, os olhos de Carolina, dois anos feitos em Janeiro, brilham de entusiasmo. Corre para os brinquedos com o irmão gémeo, Alexandre. Não sabe por onde começar, experimenta todos. Tem a energia das outras crianças e só a máscara com bonecos da Disney denuncia um problema de saúde. Carolina recebeu um coração há pouco mais de dois meses, no Hospital de Santa Marta (Lisboa), após quase sete de internamentos. "Disseram-nos muitas vezes que poderia não resistir", recorda o pai, Fernando Cruz. Foi no Verão passado que a bebé foi infectada por um parvovírus (a chamada quinta doença). Geralmente afecta a pele e a recuperação é rápida e sem complicações, mas neste caso atingiu o coração. "Durante demasiado tempo pensou-se que era uma bronquiolite", recorda a mãe, Olga Ribeiro. Depois de se identificar a origem dos problemas respiratórios, foi internada nos cuidados intensivos pediátricos do Hospital de São João (Porto), durante cinco meses.
O vírus diminuiu-lhe a função cardíaca "até aos 40%", lembra Fernando, emocionado. Em Novembro, e em estado muito grave, Carolina foi transportada para Santa Marta num helicóptero do INEM para ser submetida a um tratamento. Sem êxito. Esgotadas todas as alternativas, o transplante de coração foi feito em meados de Dezembro. "Não havia outra solução e agora estou contente. Pensei várias vezes que ela não resistia", confessa o pai, que encara "com naturalidade" o facto de o coração que devolveu qualidade de vida a Carolina ter pertencido a uma criança que morreu. "Eu e a minha mulher queríamos que a nossa filha fosse dadora se as coisas não tivessem corrido bem". Agora, o pequeno corpo de Carolina absorve 32 comprimidos por dia e "mal ela tem um pouco de febre, ficamos assustados", diz Fernando. "Com uma situação destas, passamos a ter um só problema na vida. Todos os outros desaparecem".