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Luis M. Faria
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17:01 Quarta feira, 19 de junho de 2013
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Muhamad Qatta
A frase é semelhante a uma que existe em português: nem que Jesus Cristo desça à terra. Para os muçulmanos, em vez de Cristo diz-se Maomé. A frase é usada para recusar ou negar muitas coisas.
Ao que parece, o que estava em causa no passado dia 9 era um empréstimo. Alguém tentava cravar um jovem chamado Muhamad Qatta, de 14 anos. Muhamad vendia café num quiosque em Alepo, a cidade síria conquistada pelos inimigos de Bashar Assad. Quando lhe pediram dinheiro, Muhamad terá dito que não, acrescentando a frase ritual: nem que Maomé desça à terra.
Alguém ouviu. Ou percebeu mal (inicialmente reportou-se que Muhamad garantira que jamais se tornaria crente) ou não gostou de ver o santo nome do profeta usado daquela maneira. Foi contar. Um grupo de islamitas apareceu e levou o rapaz.
Trouxeram-no de volta mais tarde, com a cabeça enrolada na sua própria camisola. O corpo apresentava sinais evidentes de tortura. Os islamitas, dirigindo-se às pessoas na estrada, explicavam que era aquele o castigo para os inimigos do profeta.
Em frente à mãe e a outros parentes do rapaz, deram-lhe vários tiros. Um na boca, outro no pescoço. Muhamad, que trabalhava há muito para sustentar a família, tornou-se um mártir. E um aviso: se o governo é mau, a oposição não é necessariamente melhor.
Algo que certamente será levado em conta por quem agora se prepara para a armar. Até porque as fontes da história - o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, baseado em Londres, e a própria mãe do rapaz - têm aparentemente credibilidade, e ainda ninguém desmentiu.
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Luis M. Faria
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14:13 Segunda feira, 17 de junho de 2013
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Eis uma história para nos dar ânimo nestes tempos negros. Em Nova Iorque, uma empregada de limpeza encontrava-se sozinha a trabalhar num apartamento quando se sentiu mal. Percebendo que era sério, foi buscar o telemóvel e ligou para as emergências. Mas já estava demasiado afectada para conseguir falar claramente.
A telefonista não conseguia descobrir para onde enviar a ambulância. Mas não desistiu. Manteve-se a falar com a mulher e pediu ajuda para a localizar. A companhia de telecomunicações determinou em que zona ela se encontrava. A polícia começou a ligar para endereços nessa zona (embora já se soubesse o nome da mulher, o facto de ela não se achar na sua própria casa dificultou as coisas).
Finalmente, ao fim de oito horas, acertou-se na morada. A doente foi socorrida, e ainda conseguiram salvá-la. Quanto à telefonista que nunca deixara de estar em contacto com ela, já lhe chamam heroína. E neste caso é mesmo.
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Luis M. Faria
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19:05 Sexta feira, 14 de junho de 2013
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Cecile Kyenge
A actual ministra italiana da Imigração (i.e. da Integração Racial), Cecile Kyenge, foi polémica desde o início. Assim que a nomearam, começou a ouvir insultos. Pela cor da pele e por ser oriunda do Congo. Embora viva em Itália desde a adolescência, tenha 48 anos e seja oficialmente italiana desde há muito tempo, há quem não lhe perdoe. Dizem que representa a tendência da esquerda para armar em boazinha.
Pela sua parte Kyenge faz questão de explicar que não é "de cor". É negra, ponto final. Uma afirmacão que não a torna mais estimada pelos racistas.
Agora o ódio atingiu expressão mais directa pela boca de uma autarca de Pádua. Escrevendo no seu blog, Dolores Valandro (da Liga do Norte, proto-fascista), lamentou: "MAS NÃO HÁ QUEM A VIOLE, PARA ELA PERCEBER?". Isto supostamente em reacção às notícias sobre um somali que terá tentado violar duas mulheres.
Os protestos surgiram logo, veementes como se esperaria. Entre eles, o do primeiro-ministro Enrico Letta e de outras sumidades dentro e fora de Itália. Valandro pediu desculpa - relativamente. Explicou que estava enervada, e quando se enerva fala assim.
Pelo menos teve o mérito de pôr à vista, uma vez mais, o que anda pela cabeça de gente como ela.
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Luis M. Faria
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11:21 Sexta feira, 14 de junho de 2013
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A estrutura que ruiu
O que torna esta história insólita, em especial para um leitor português, é o facto de alguém assumir responsabilidade por uma tragédia pública. Ainda por cima alguém cuja actuação, provavelmente, teve pouca ou nenhuma influência no caso.
A tragédia aconteceu no passado dia 5, em Filadélfia. Paredes de um prédio que estava a ser demolido ruíram para cima de um pequeno edifício ao lado. Seis pessoas morreram, outras treze ficaram soterradas e tiveram de ser salvas. Poucas semanas antes, alguém se queixara de que o nome da empresa de construção não era visível no local, e que os operários não usavam o equipamento de segurança que deviam.
Na altura, o inspector chamado ao local, Ronald Wagenhoffer, deu a queixa por injustificada. Era um homem com décadas de experiência, e o seu veredicto baseava-se nas regras oficiais (subsequentemente alteradas). Mas quando a estrutura caiu, como se terá sentido? Talvez lhe passassem pela cabeça imagens de um desastre muito pior que houve recentemente no Bangladesh. Aí os mortos já ultrapassam os mil, mas ninguém quis ou quer assumir responsabilidade.
Em Filadélfia foi diferente. Embora a única pessoa formalmente acusada e presa seja o operador de uma máquina escavadora que estava completamente pedrado (marijuana, comprimidos...) aquando do acidente, Wagenhoffer era um funcionário consciencioso. Não pela primeira vez, uma pessoa com essas características atribui-se culpas que nada têm a ver consigo. Assim, Wagenhoffer matou-se ontem com um tiro no peito.
A câmara lamentou a perda de um excelente funcionário. E reiterou que ele não desempenhou qualquer papel naquilo que se passou no dia 5.
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Luis M. Faria
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11:57 Terça feira, 11 de junho de 2013
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Era uma vez um empregado bancário que estava cheio de sono. A certa altura, tinha de fazer uma transferência de €64,20, mas adormeceu. Um dos seus dedos ficou a carregar na tecla 2, dando ordem para transferir uma soma bastante maior - muitíssimo maior - em que o número 2 aparecia vezes sem fim.
O erro foi detectado, a situação corrigida. Mas o supervisor do empregado, que aprovara a transação sem reparar, foi despedido. Agora um tribunal alemão (isto passou-se na terra de Schauble, onde os erros com dinheiro têm sempre de ter castigo, e os chefes até assumem responsabilidade...) decidiu que o despedimento foi injustificado. Uma simples repreensão teria bastado, dizem os juizes do estado de Hesse.
Afinal, só naquele dia o supervisor tinha verificado pessoalmente mais de oitocentos documentos, entre outras tarefas. E os seus quase trinta anos de casa devem valer para alguma coisa. Mesmo na Alemanha.
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Luis M. Faria
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12:10 Sexta feira, 7 de junho de 2013
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Sonali Mukherjee
Em 2003, Sonali Mukhrejee era uma jovem de 17 anos. Vivia no estado indiano de Danbad. Filha de um vigilante e de uma doméstica, estudava na universidade. Boa aluna, de aparência agradável, não era raro que tentassem cortejá-la. Mas a insistência de certo colega em ser seu namorado tornou-se demasiado insistente. Ela rejeitou-o, e esse gesto mudou a sua vida.
Esse colega e dois amigos começaram a chamar-lhe arrogante e a persegui-la. Ela contou ao pai, que se queixou às famílias dos jovens. Pouco tempo depois, deu-se o crime. Um noite em que Sonali dormia no telhado da sua casa - como é habitual na sua zona, por causa do calor - os três jovens despejaram-lhe ácido sobre a cara. Ela acordou sem perceber o que lhe estava a acontecer. Sentia apenas uma dor horrível a espalhar-se pelo corpo todo.
Os efeitos do ácido seriam catastróficos. Sonali perdeu a vista e praticamente sem audição. Ficou com a cara desfeita e sem cabelo. Até hoje já fez cerca de trinta operações. A tragédia arruinou a família. A sua avó morreu de um ataque cardíaco, a mãe entrou em profunda depressão. Só o pai se manteve firme - porque a família precisava dele, explica. Após venderem tudo o que tinham, incluindo a casa, um velho terreno da família e todas as jóias, encontravam-se arruinados. E continuavam a lutar por justiça.
Pediu ao Estado que a deixasse cometer eutanásia
Os três criminosos foram presos e condenados a nove anos, mas o estado soltou-os ao fim de dois. (Isto aconteceu muito antes de haver uma lei que pune expressamente os ataques com ácido. Ela só seria finalmente aprovada já em Abril deste ano). Neste momento o processo continua à espera de resolução nos tribunais. Na miséria e desesperada, Sonali decidiu acabar com tudo.
Como o estado lhe negava ajuda, pediu-lhe autorização para se matar. O estado negou - a eutanásia é ilegal na Índia - mas o gesto teve eco na opinião pública. Sonali começou a ser objecto de atenção. Vários media entrevistaram-na. Um cirurgião ofereceu os seus serviços gratuitamente. Algumas empresas fizeram doações. E surgiu um convite para ir ao programa televisivo Quem Quer ser Milionário.
Sonali foi lá acompanhada por uma famosa actriz de Bollywood. Para resumir a história, acertou nas respostas e ganhou o concurso. Recebeu o equivalente a quase 31 mil euros, que usará nos tratamentos substanciais que ainda tem de fazer.
Quanto a justiça nos tribunais, continua à espera. Tal como espera pelo emprego que o Estado lhe prometeu expressamente. Ainda há dias lhe comunicaram que falta mais um papel qualquer. Mas agora, pelo menos, ela quer viver.
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Luis M. Faria
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12:10 Quarta feira, 5 de junho de 2013
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Ora aqui está uma boa solução para a crise da habitação. Um jovem chamado Steve DeCaprio, baterista num grupo anarco-punk, descobriu uma casa abandonada em Oakland (California). O dono e o seu filho (e único herdeiro) tinham morrido. Vai daí, Steve ocupou a casa.
Ao fim de cinco anos, a propriedade tornou-se sua. Bastou-lhe pagar as taxas municipais em dívida. É o que resulta da lei local sobre o assunto. Uma bela casa, sem gastar um tostão a comprá-la. Steve acha que fez exactamente o que devia. A Constituição garante o direito à habitação, ele concretizou esse direito. Como censurá-lo?
O diário El País, que conta a história, esclarece que Steve aprendeu a ser okupa em Barcelona. E como não há iniciativas deste género sem um discurso legitimador, já criou uma associação chamada Land Action, cujo fim é ajudar outros cidadãos a lidar com os múltiplos problemas que a ocupação de casas envolve.
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Luis M. Faria
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12:22 Segunda feira, 3 de junho de 2013
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O Supremo Tribunal espanhol condenou o banco BBVA a indemnizar em 291.448 euros um casal a quem vendeu acções "preferentes", um produto de alto risco. O argumento do tribunal foi simples. Embora o contrato com os clientes desse ao banco margem mais ou menos discricionária para gerir a carteira de investimentos, ele não cumpriu o seu dever de adequar o tipo de produtos (e o respectivo nível de risco) ao perfil dos clientes.
Está longe de ser a primeira acção deste tipo em Espanha, e poderá ter importância como precedente. Já há semanas o Supremo lamentou que um outro banco, o Santander, ao desistir de uma acção, lhe retirasse a oportunidade de fazer jurisprudência sobre um assunto tão actual. Agora houve esta, e haverá muitas outras oportunidades, num sinal claro de falta de paciência para as manhas nocivas dos operadores financeiros.
Explorar os pequenos clientes
Nos últimos dez anos, muitos bancos espanhóis, confrontados com a crescente resistência dos clientes grandes a arriscar o seu dinheiro, viraram-se para os mais pequenos. Aproveitando a boa fé e a ignorância deles, venderam-lhes produtos financeiros totalmente inadequados ao perfil conservador dos aforradores em causa. Quando as coisas correram mal - como era previsível que corressem - os aforradores perderam. Mas os bancos mantiveram os ganhos.
No mesmo dia em que foi publicada a sentença do Supremo, o organismo anti-corrupção espanhol admitiu que houve negligências nesta matéria e recomendou aos prejudicados que interponham acções cíveis. Mas disse que não existem crimes. Afinal, os produtos financeiros eram oficialmente reconhecidos e autorizados. A ter havido fraude, todo o sistema bancário espanhol teria de ser cúmplice nela.
Justemente. Numa altura em que, por esses e por outros motivos, há gerentes e funcionários bancários com medo de sair à rua nas terras pequenas (já vários foram agredidos e ameaçados), o apuramento de responsabilidades ainda mal começou. E o mais certo é cair sobre quem tem menos culpa.
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Luis M. Faria
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12:09 Sexta feira, 31 de maio de 2013
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Se este blogue fizesse a eleição das melhores histórias do mês, em Maio o primeiro lugar seria provavelmente ocupado por aquele caso noticiado há uns dias sobre um indivíduo que resolveu fazer umas massas à conta da avó. Ou mais precisamente, dos seus restos mortais.
O caso passou-se no Ribatejo, e envolvia um truque simples. Em combinação com o coveiro do cemitério, os ossos da falecida eram trocados pelos de um anónimo qualquer. Arranjava-se um pretexto para desenterrar a senhora e -surpresa e choque! - teste de ADN mostrariam que afinal não era ela que ali estava. Vai daí, pedia-se uma indemnização de 20 mil euros. Por danos morais, e quem sabe o que mais.
Parece que houve uns actos preparatórios. O coveiro chegou a aceitar dinheiro. Mas depois descaiu-se e foi contar tudo. Agora o Ministério Público entrou em cena. Poderão estar em causa vários crimes, desde a burla até à profanação de cadaver.
Os envolvidos chegaram a ser detidos, mas aguardam o julgamento em liberdade.
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Luis M. Faria
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12:13 Quinta feira, 30 de maio de 2013
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Ora aqui está uma boa ideia para os estudantes ocuparem o tempo, ou mesmo que este lhes falte (dada a importância da tarefa, justificam-se alguns sacrifícios). Na República Checa, onde os políticos mentem tanto como em qualquer outro lugar, há um grupo de jovens que se dedica a verificar se o que eles afirmam é verdade.
Um político, numa intervenção pública ou num debate, recorre a alegados factos para provar um ponto. Os factos têm poder, mas de onde vieram? Os estudantes entram em campo. Feita a verificação, apresentam os resultados.
Neste momento os estudantes já conseguiram vários resultados espectaculares, em relação a membros do governo e não só. Um candidato presidencial foi apanhado a mentir descaradamente sobre se havia dinheiro russo a financiar a sua campanha. O candidato insistiu que não, olhos nos olhos. Mas os estudantes provaram que sim, fazendo aquilo que por vezes nem os jornalistas fazem - consultar fontes publicamente disponíveis.
O grupo chama-se Demagoga, e é composto essencialmente por cientistas políticos. A Fundação Sociedade Aberta (de George Soros) e a União Europeia dão algum apoio, mas os estudantes estão mais ou menos por conta própria. Não lhes deve faltar trabalho.
O sucesso deles prova que aquilo que noutros países (por exemplo, nos EUA) é feito por organizações com muito mais recursos, pode igualmente ser feito por gente inteligente e bem motivada. Só é preciso que ainda acreditem no futuro do país onde vivem.
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