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Opinião

Discutamos a saída do euro

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
12:40 Quinta feira, 21 de outubro de 2010
Discutamos a saída do euro

A proposta de lei do Orçamento do Estado para 2011 é um violento soco no estômago. O rendimento dos portugueses vai reduzir-se significativamente no próximo ano por via fiscal. Mas também as pequenas e médias empresas sofrerão fortemente com as medidas anunciadas. E os reformados e pensionistas. E os que estão empregados. E os desempregados. Poucos escaparão à extorsão fiscal que vem a caminho.

Dir-se-á (e eu subscrevo): ao ponto a que as coisas chegaram, não há alternativa. Pelo menos, não há alternativa àquilo que os famosos mercados querem: corte nos salários, subida de impostos, congelamento das pensões, redução do investimento público. E o Governo serve-lhes numa bandeja a cabeça do povo português. Como consequência, os juros da dívida pública estão a descer. Lentamente, mas aproximam-se da fasquia dos 6%, afastando-se do valor (7%) que o ministro das Finanças considerou como aquele em que seria necessário recorrer ao fundo europeu de emergência e ao FMI.

Será suficiente? Não se sabe. Os desígnios dos mercados são insondáveis. Convém por isso olhar para as formas de sair da crise. Nos últimos dias a produção académica económica tem vindo num crescendo. E há algumas conclusões comuns. Uma delas é que o problema se resolveria se a Alemanha saísse do euro. A moeda comum europeia desvalorizaria de imediato, dando um balão de oxigénio às economias mais aflitas. Mas, como é óbvio, a Alemanha, fundadora do euro e motor da economia europeia, não aceitará tal sugestão. Há quem sustente que, então, a Alemanha tem de aumentar a sua procura interna, porque se na Europa há défices orçamentais é porque há quem dentro do mesmo espaço acumule excedentes (caso dos germânicos). A receita está no imprescindível livro agora lançado por Vítor Bento, "O Nó Cego da Economia", onde sustenta que para as economias com problemas reganharem competitividade no curto prazo o caminho será promover a sua deflação (através da redução de preços e salários). Mas para tornar o remédio menos amargo, seria importante que as outras economias, sem problemas, fossem inflacionadas.

Ou seja, e aí coincidem Vítor Bento e os economistas da Universidade de Coimbra José Reis e Júlio Marques Mota, a melhor solução para o problema europeu é coletiva. Por outras palavras, torna-se imprescindível uma política económica europeia, que imponha, por exemplo, que o Banco Central Europeu deve intervir no mercado primário de dívida soberana, financiando o défice dos países e não os bancos, que atualmente obtêm dinheiro junto do BCE a taxas de juro de 1% para depois emprestarem aos governos a 5%, 6% e 7%, um óbvio e escandaloso negócio que penaliza fortemente os cidadãos e contribuintes.

Internamente, Vítor Bento alerta para outra condição, a que a deflação relativa incida preferencialmente sobre os preços e os salários do sector não transacionável. Só que, como reconhece, "este é também o sector cuja proteção da concorrência internacional menos expõe às consequências da perda de competitividade da economia e que por isso menos se interessa e disponibiliza para a solução".

Por isso, "se não houver uma ação decidida das autoridades para forçar um ajustamento rápido naquele sector, não vejo como é que seja possível que estes países evitem um prolongado período de baixo crescimento, senão mesmo uma prolongada recessão".

É claro, contudo, que fazer depender o ajustamento da boa vontade do sector dos bens não transacionáveis e da generosidade da sra. Merkel é uma solução que está condenada ao fracasso. Por isso, parece evidente que vamos ter de suportar um longo e doloroso ajustamento, que se estenderá, com grande probabilidade, por toda a década até 2020. Mais complicado, o ajustamento no mercado de trabalho estender-se-á por um período que pode chegar aos 15 anos. E estes dados não são invenção do escriba. Há quem tenha feito as contas, definido cenários e chegado à conclusão que este é o mais provável. E há quem, em postos da mais alta responsabilidade pública, conheça exatamente isto.

Sair desta situação vai doer e não será pouco. Por isso, temos de nos interrogar se queremos ir resolvendo o problema ao longo de dez anos, com a famosa dor mansa, vegetal, de que falava O'Neill, ou tratamos disto à bruta, acabando com ele em dois anos. Como? Pois suspendendo a nossa participação no euro ou mesmo saindo da moeda única. Será dramático, certamente. Cairá o Carmo e a Trindade. Passaremos muitíssimas privações. Mas estaremos de volta ao fim de dois anos e de novo com vários instrumentos macroeconómicos para lidar com crises iguais. Como contrapartida, perderemos o guarda-chuva europeu, os juros baixos, os fundos, as vantagens da integração e corremos o risco de estarmos mais vulneráveis a novas indisciplinas orçamentais dos nossos políticos. Mas integrados na zona euro era suposto isso não acontecer e vejam o que se passou.

Daqui para a frente será diferente para quem estiver no euro? Talvez. Mas pelo menos devemos abrir uma enorme discussão pública em trono da nossa participação na moeda única.

Artigo publicado no caderno de Economia do Expresso de 16/10/2010

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Está bem posto o comentário
Rio Grande (seguir utilizador), 2 pontos , 17:07 | Sábado, 23 de outubro de 2010
No exterior, é como os especialistas estão pensando. O euro é um engessamento e matará, ainda que aos poucos, o combalido vivente. Sair será amargo, mas libertará a economia das regras draconianas e beneficiará a empresa nacional, que terá de trabalhar o dobro, mas em curto espaço de tempo, poderá respirar com certo alívio. É uma opção, ou somente a única viável. Rio Grande
 
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Mas que tem o "Euro" a vêr ?..
Fernando Torres (seguir utilizador), 2 pontos , 17:46 | Sábado, 23 de outubro de 2010
A moeda alguma..comum ou não..poder-se-ão assacar responsabilidades pelas más politicas e gamanços..

O problema não está no "Euro"..está nos politicos mamocráticos..

Discutir-se a manutenção ou não de termos o "Euro" como moeda é tão válido como a discussão sobre quem surgiu primeiro..o ovo ou a galinha (embora hajam mais animais que também botem ovos)..é uma discussão que apenas serve para distrair..

 
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Acordo de Regime para salvar portugal
Window P11 (seguir utilizador), 1 ponto , 17:54 | Quinta feira, 21 de outubro de 2010
Ajustamentos tão prolongados nos mercados dos bens não transaccionáveis e do trabalho referidos no artigo são, realmente, para aterrorizar qualquer cidadão. Acontece que as previsões são obtidas "torturando" as variáveis exógenas e endógenas. e ultimamente essas previsões têm ficado muito aquém da realidade.
O recurso às desvalorizações cambiais, desvalorizações, deflação, etc. são tudo receitas experimentadas no passado e quem tiver memória lembrar-se-á dos resultados.
Suspender a nossa participação no euro ?!. sair do euro ?!. já agora porque não sair da UE ?.
Procurem-se ideias novas para salvar o país.
Até lá talvez ajudasse se as forças políticas representadas no parlamento se entendessem e firmassem um acordo de regime. Não basta agitarem a bandeira das liberdades e gritar "viva a República" em cada 10 de Outubro.
 
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Antes de mais...
aitalan6750 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:11 | Sábado, 23 de outubro de 2010
Em 2005, quando o Sócrates chegou ao poder, a Dívida eram 44 mil milhões. Em 2009 eram 95 mil milhões. Em Setembro 2010 já eram 148 mil milhões. Desde então já foram emitidos mais 3 mil milhões. Mas o PS só cortou 3,17 mil milhões no OE2011... O que é mais grave é deixar estar lá este Governo porque a este ritmo, daqui até às eleições, a Dívida Pública vai subir pelo menos para 170 mil milhões!!! Se com as taxas de juro e a dívida actuais, uma subida de 1% resulta em mais 1,5 mil milhões a pagar, quando forem 200 milhões de dívida, façam as contas!!! Os juros a pagar não dependem apenas da subida das taxas de juro, mas do volume da dívida. A estabilidade política só resolve o problema a muito curto prazo!!! Os cortes a efectuar têm de ser muito mais draconianos, e temos não de prever o aumento da Dívida como faz o PS no OE 2011 (mais 11,5 mil milhões!!!), mas de começar de imediato a pensar em reduzi-la!!!! É possível fazê-lo adiando todos os contratos do Estado em curso ou previstos, sem direito a indemnizações; captanto voluntariamente a poupança privada (118 mil milhões) através de um grande Empréstimo de subscrição pública, sem direito a juro mas com garantia de libertação do capital em qualquer altura e de compensação pela inflação, para captar mesmo pequenos montantes, e relançando as Pescas e a Agricultura, à revelia da PAC, o que iria criar emprego e reduzir as importações. Isso seria fácil de negociar com a UE, que também já não tem dinheiro para subsídios!!!
 
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É preciso sair do Euro
aitalan6750 (seguir utilizador), 1 ponto , 12:45 | Sábado, 23 de outubro de 2010
Só 16 dos 27 têm o Euro. Assiste-se actuamente à chamada Guerra de Câmbios entre a China, os EUA, e a UE, com o Japão à mistura. O dólar está em queda. Isso quer dizer que com um Euro alto, podemos continuar a importar (se tivermos dinheiro), mas difícilmente exportaremos. Mas se sairmos do Euro e voltarmos a ter moeda própria, ligeiramente desvalorizada em relação ao Euro, isso constitui um freio natural às importações que não podemos restringir de outro modo por força das regras do Mercado Único, e um forte incentivo às exportações!!! Coloca-nos além disso numa posição de vantagem competitiva em relação a 15 outros Países da UE. Como chegar lá? Começando desde já a reduzir a Dívida através de um grande Empréstimo nacional destinado EXCLUSIVAMENTE a esse fim, que procure captar voluntariamente pelo menos uma parte dos 118 mil milhões que estão depositados nos Bancos. Nas Grandes Guerras, foi o que se fêz em vários países. Era até possível comprar cadernetas e sêlos de pequenos montantes. Não deve render juros e os montantes devem poder ser resgatados em qualquer altura. É um apelo ao Patriotismo. Isto, bem entendido acompanhado da suspensão imediata de todos os contratos e obras do Estado, sem direito a indemnizações. Além disso, como o défice da balança comercial é de 20 mil milhões, é preciso alterar os hábitos de consumo, e relançar as Pescas e a Agricultura, à revelia da PAC. A UE aceitará, pois já não tem dinheiro para subsídios!!! E produzir para o Mercado Nacional!!!
 
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