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Direito de Resposta ao texto “A literatura portuguesa no secundário”

Sobre o texto “A literatura portuguesa no secundário” de Diogo Ramada Curto, publicado no Expresso de dia 10 de Junho do corrente

Helena Carvalhão Buescu, Professora Catedrática de Literatura da Universidade de Lisboa

Não é polemista quem quer. Mas sim quem sabe o suficiente para o ser. Julga o meu Colega Diogo Ramada Curto (DRC) poder polemizar com a equipa responsável do Programa e Metas Curriculares de Português do Ensino Secundário (mas também do Ensino Básico...), alguns dos quais cita, a propósito de literatura. Julga ter competência para o fazer, tal como Camilo, Antero, Fialho, ou António Sérgio o fizeram no seu tempo? Estes falaram do que sabiam, com “honesto estudo”. DRC fala de cima de uma inexplicável posição de auctoritas, e fala sobre o que desconhece. E já agora, por falar em António Sérgio. Ele tinha por hábito repetir: “Deus me dê contenda com quem me entenda”. É exactamente por isto que não terei qualquer contenda com DRC — ele não saberia como me entender, no que respeita à literatura. E eu nunca teria a arrogância de o pôr no seu lugar no que às disciplinas de história e de sociologia diz respeito. Isto diz toda a diferença entre nós, que muito me honra. Não considero a peça que ele escreveu sobre “a literatura portuguesa no secundário”, que classifica ab ovo como de uma “pobreza confrangedora”, uma peça polémica — mas uma peça de alguém que não sabe o suficiente sobre a matéria para poder aprender com algum tipo de polémica, e com quem, por isso, não prolongarei qualquer tipo de diálogo (palavra sobre a qual julga poder exercer ironia no seu texto). Não há, de facto, diálogo possível — e eu não tornarei a responder-lhe. Mas, como tem acesso a jornais de qualidade, respondo à questão e encerro-a, no que me diz respeito.

1) DRC demonstra ser uma pessoa que fala do que NÃO sabe. Tem-se em grande conta, percebe-se. Mas, se sabe de história e de sociologia, NÃO SABE de literatura — e não sabe sobretudo de ensino da literatura, julgando que se trata apenas de uma lista de nomes (que é sempre inesgotável). Aos autores que fazem parte do Programa do ES, acrescenta mais uma lista de 50 outros nomes que nele não aparecem. Meu caro, andou muito distraído: muitos dos que menciona foram já abordados pelos alunos no Programa do Ensino Básico. Pois é: é que a Educação Literária começa agora no 1º ano e vai até ao 12º. Mas DRC não sabe, não reparou, nem se interessou em se informar adequadamente. Sobretudo no 2º e no 3º ciclos, encontramos os nomes (referidos por DRC como ausentes) de: Sá de Miranda; Fernão Mendes Pinto; Bocage; Raul Brandão; Vergílio Ferreira; Florbela; Irene Lisboa; Carlos de Oliveira; Sophia; Hélia Correia; Machado de Assis. Aos 50 nomes que ele considera (erradamente) como ausentes poderia eu responder — mas justamente o problema do ensino da literatura NÃO É o de uma lista de textos, como não o é a problemática (complexa, sim) do cânone literário — com outros 50 ou outros 100. Recordo por isso apenas alguns dos que surgem nos ciclos anteriores e que ele não menciona: ‘Carta de Pêro Vaz de Caminha’; Nicolau Tolentino; Antero; António Nobre; Alexandre O’Neill; Luísa Dacosta; Teolinda Gersão; Manuel Alegre; Vasco Graça Moura; Manuel António Pina; Mário de Sá-Carneiro; Camilo Pessanha; Almada Negreiros; Jorge de Sena (curiosamente, nenhum destes nomes faz parte do suposto “cânone” de DRC).

DRC pelos vistos não esteve atento aos 3 Ciclos do Ensino Básico da filha — mas está sempre a tempo de ler os Programas e Metas Curriculares, para se informar (se quiser), visto que não se deu conta de que ao longo dele os alunos lêem e estudam autores que ele considera não estarem presentes nos Programas.

2) DRC aparentemente desconhece a existência de uma disciplina, no ES, chamada Literatura Portuguesa. O Programa já não é recente, merecia (e devia) ser mudado, eu (como especialista que sou) tenho ideias sobre isso — fundadas sobre o “honesto estudo” que qualquer universitário dedica à sua área de pensamento e de estudo. Mas o que está em Jogo no PMCPES é um programa de Português, em que a complexidade (cujo relatório DRC também leu pela rama, e foi pena) é válida para textos literários e para textos não-literários. Em que a noção de género introduz o discurso em contexto quer para os textos literários quer para os textos não-literários. O que acha DRC que é um texto argumentativo, ou uma narrativa de viagens, ou um discurso político? Não são complexos? Não recorrem a procedimentos literários e sofisticados quer conceptual quer discursivamente? Na Formação que dei, analisei entre outros o discurso de Robert Kennedy pronunciado no dia da morte de Martin Luther King. Sugiro ao Colega que o leia, para perceber como é que um texto aparentemente não-literário pode ser tão complexo como um texto literário. Também pode ler o discurso de Garrett, esse polemista, no Parlamento, conhecido como “discurso do Porto Pireu”. É isto que também se ensina em Português. Mas DRC não olha para mais nenhuns textos, nem escritos nem orais.

Pode saber de história e de sociologia, mas de literatura pouco percebe, como nada percebe (e é ainda coisa diferente) de ensino de literatura. Ser leitor não é ser estudioso da literatura, nem professor de literatura — como viver na história não transforma ninguém em historiador. Julga DRC que literatura consiste em fazer uma lista de (quantos?) nomes de autores, obras e textos, e que é isso ensinar literatura. Nem olhou para os temas e tópicos orientadores da sua análise, nem para a sua construção transversal nos 3 anos do ES (repare por exemplo na épica, já agora); nem se deu conta, é claro, da decisiva importância que a leitura e a interpretação têm para textos, literários ou não. Como não percebeu que as Metas Curriculares, neste caso de Educação Literária, constituem peça fundamental para a capacitação de leitura e análise dos textos literários, e que nelas reside uma das forças de ensino da literatura.

3) Algumas perguntas intempestivas: por onde andou DRC entre 2001 e 2014, na vigência do anterior Programa, esse sim de uma confrangedora pobreza no que respeitava a todos os géneros de textos, literários e não-literários? Esteve parcialmente fora. Mas, mais, esteve sempre muito desatento. Quando todos discutimos (entre eles eu, várias vezes publicamente) a quase-eliminação da literatura do ES (até se discutiu se Camões devia continuar!), ouviu-se a voz tonitruante de DRC? Nem um pequeno ruído emitiu a defendê-la... E vem agora falar de Severim de Faria et alii? Estudar o espólio de Miguéis dá-lhe a ele foros de sabedoria e qualificação nos estudos literários? Ou permite-lhe apenas convencer-se a si de (e gritar aos outros) que a tem? Pois bem, sejamos claros: não tem qualquer qualificação. Dito por mim, que sei mais de literatura portuguesa (e já agora estrangeira) do que DRC alguma vez poderá sequer sonhar... Só a ignorância é arrogante. Ei-la aqui, na boca de quem julga que pode falar sobre tudo e sobre todos sem dúvidas nem interrogações: DRC “indigna-se” e promete, de forma paternalista e benevolente, “explicar em outro lugar” as coisas que mais ninguém percebeu senão ele, é claro. Deixo-lhe apenas este conselho, dado por quem sabia: o Padre Manuel Antunes, um dos geniais pensadores que tivemos no século XX, dizia que só a verdadeira inteligência sabe ser humilde, quando é preciso. Este triste episódio diz tudo sobre o saber (raso, sobre literatura) e sobre a inteligência de DRC. Não vai além de listas de nomes, e acha que isso é literatura, e ensinar literatura. Já agora, há um autor barroco (que certamente DRC nunca leu) que metaforiza a manipulação do que deveria ser um debate de ideias, construído sobre teses e argumentos, como uma peça musical em que os instrumentos de sopro, bem soprados, julgam que é por fazerem muito barulho que vencem. Much ado about nothing...

A autora deste texto não utiliza o acordo ortográfico de 1990